Meio ambiente: não basta noticiar, tem que participar e defender a causa

* Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

O engajamento da imprensa britânica em questões ambientais tem sido uma prática cada vez mais comum. Alguns veículos vão além de noticiar fatos relacionados à mudança climática, chegando a adotar causas.

Um exemplo é The Times, que em maio lançou o projeto Clean Air for All (Ar limpo para todos), destinado a pressionar Governo e Parlamento a aprovar uma legislação capaz de diminuir a poluição atmosférica. Como parte da iniciativa,  o jornal promove eventos e publica séries de reportagens destacando os danos causados pelo ar poluído.

Já o Daily Telegraph escolheu como bandeira o problema dos resíduos sólidos. Criou a campanha Zero Waste, um guarda-chuva para matérias sobre diminuição de embalagens, reciclagem e substituição de matérias-primas por outras menos poluentes.

The Guardian não adotou uma causa especifica, mas decidiu rever a sua forma de editar notícias relacionadas ao meio ambiente. Contratou uma consultoria, a Climate Visuals, para fazer uma pesquisa e identificar como as pessoas reagem a imagens sobre o tema,  e que tipo de impacto visual tem mais potencial de gerar engajamento e mudança.

Com base no estudo, elaborou um conjunto de diretrizes para os jornalistas que selecionam imagens no jornal, valendo também para agências e fotógrafos com quem trabalham. O princípio fundamental, anunciado na edição digital do último domingo (20/10), é de que as fotos reflitam o impacto direto das questões ambientais sobre a vida das pessoas, em vez de retratar apenas paisagens ou situações que não demonstrem claramente os efeitos causados ao ser humano.

No texto em que apresenta as novas diretrizes, o Guardian reconhece o desafio dos editores, geralmente com pouco tempo para escolher fotos. E também a dificuldade de os fotógrafos captarem cenas mostrando efeitos da mudança climática. Sobretudo porque muitas vezes esses efeitos não são “visíveis” a olho nu.

Observa ainda que o público adora animais como ursos polares e pandas, o que muitas vezes leva os editores a selecionar fotos dessas criaturas fofas para ilustrar reportagens sobre mudança climática. Ou lindíssimas cenas de geleiras brancas derretendo. Mas sustenta que são cenas distantes da realidade da maioria das pessoas, e que não estão diretamente relacionadas aos seres humanos, o que reduz o senso de urgência da questão ambiental que as matérias precisam despertar.

Segundo The Guardian, a pesquisa da Climate Visuals apontou que as pessoas respondem mais fortemente a histórias humanizadas e imagens que as tornem relevantes para o indivíduo. Foram apresentadas comparações interessantes, como a bela foto em tons avermelhados de uma floresta em chamas em contraste com outra, nem de longe tão bonita, de uma mulher e uma criança usando máscaras contra poluição.

A tese do jornal é de que as fotos com gente sofrendo os efeitos da poluição ou dos incêndios florestais devem ser a escolha prioritária dos editores. E a norma já começou a ser colocada em prática, como se pode ver na edição de segunda-feira (ver foto Guardian).

O jornal também apontou uma contradição comum em reportagens sobre o aquecimento global. Muitas vezes são ilustradas por fotos de gente se refrescando em fontes, passeando sob o sol ou se divertindo em praias lotadas, o que acaba por transmitir um sentimento de celebração, e não da preocupação que o tema merece.

A ideia por trás dessas novas diretrizes é que a edição vá além da estética, tornando as fotos parte da história, em sintonia  com a gravidade da situação sobre a qual se escreve. E dessa forma provoquem o engajamento do público no problema ambiental. Em um mundo dominado pelas redes sociais, nas quais muitas vezes a imagem tem relevância maior do que o próprio texto, isso se torna ainda mais crucial para que o jornalismo ajude a mobilizar a sociedade.

Extinction Rebellion, além da conta – Na semana passada falamos aqui sobre os protestos do Extinction Rebellion e sobre sua estratégia descentralizada de atuação, com unidades independentes realizando ações alinhadas aos princípios do grupo. A popularidade das manifestações seguia alta, até que algo saiu do controle.

No meio da semana, um ato no metrô de Londres, com manifestantes sobre um vagão impedindo a partida, acabou em confusão. Os próprios passageiros atacaram os manifestantes  e a coisa terminou em conflito.

O episódio corroeu um pouco a boa imagem dos protestos. Porta-vozes do XR se dividiram, alguns defendendo a ação e outros admitindo que não estava totalmente em linha com a proposta inicial de atos pacíficos.

A polícia ficou bem na foto, pois nem precisou atuar para liberar o vagão. Mas não se livrou de cenas de impacto que ganharam o mundo, como a prisão de um manifestante vestido de brócolis. Nesse caso, talvez tivesse sido melhor deixar o simpático ativista livre para evitar a chacota.

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