Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

Muitos ironizam os britânicos por sua obsessão pela realeza. Mas pela quantidade de jornalistas estrangeiros em um briefing da Foreign Press Association, na terça-feira (23/2), sobre as recentes turbulências no clã comandado por Elizabeth II, conclui-se que a obsessão não tem fronteiras. Ou que os que vêm morar no país ficam contagiados por ela.

Durante uma hora, 125 profissionais de 33 países ouviram Peter Hunt, ex-setorista do Palácio de Buckinghan, contar histórias e dar palpites sobre o que vem por aí. O clima é tenso, com o príncipe Philip internado e os Sussex fazendo malcriação de além-mar com a avó rainha.

É um acontecimento jornalístico e de RP a ser acompanhado. A família sabe o que é crise. E já lidou com entrevistas-bomba históricas, como as da princesa Diana há 25 anos e do príncipe Andrew ano passado, ambas para a BBC.

Mas a bomba como a que pode vir da conversa (já gravada) entre Meghan, Harry e Oprah Winfrey chega em uma hora difícil, até mesmo politicamente.

Um dos temas explorados foi o risco de o esfacelamento da família favorecer uma crise de confiança quando Elizabeth se for. A percepção de unidade do reino simbolizada pela monarca de 94 anos poderia ser ameaçada, dando combustível a movimentos separatistas como o da Escócia, que vive a perspectiva de novo referendo para decidir pela independência de Londres.

Para quem acha exagero, vale lembrar que boa parte do país não conheceu outro chefe de estado, já que ela assumiu o trono em 1952.

Hunt falou dos bastidores. Comentou sobre a opinião dos que trabalhavam com Meghan a respeito da chefe, deu sua visão sobre o casal perfeito-mas-não-muito-emocionante Will & Kate, e especulou sobre como o poderia ter sido o desfecho do Meg-xit caso o príncipe Philip estivesse mais envolvido com as decisões da chamada “firma”, como na crise subsequente à morte de Diana.

Naquele momento, o marido da rainha foi uma voz ponderada que ajudou a conduzir a situação.  Agora, vozes ponderadas andam em falta. Pegou mal no país (e na imprensa) a resposta atravessada dos Sussex ao serem informados do óbvio: de que perderiam seus cargos honorários em instituições de caridade depois de romperem os laços.

Até 7 de março, quando a entrevista com Oprah vai ao ar, tudo pode acontecer. Mas a turma de RP do palácio preferiu não pagar para ver. Na terça-feira, os jornais noticiaram que um programa com a família em comemoração ao dia da Comunidade Britânica irá ao ar na mesma data.

Elegantes, não vão lavar roupa suja em público, mas a percepção é de revide. Deve ser a primeira vez na história em que dramas familiares atingirão tamanha audiência.

Facebook e os Sussex, alguma coisa em comum

Do outro lado do mundo, outra crise assume ares de filme, com direito a vilões, mocinhos e uma dose de nacionalismo. De um lado, o popular primeiro-ministro australiano, Scott Morrison. De outro, Google e Facebook.

A temperatura ferveu quando chegou ao Parlamento australiano a rigorosa lei de mídia, que vai obrigar as plataformas a pagarem pelo conteúdo jornalístico nelas exibido.

A exemplo do que fizeram Harry e Meghan, o Facebook assumiu um risco gigantesco ao endurecer o jogo e proibir o compartilhamento de links, deixando de fora até serviços públicos e derrubando o tráfego dos sites, enquanto o Google cedia e fechava contratos milionários com jornais.

É outro caso que vale acompanhar. Os statements do Facebook e do Governo anunciando a paz na terça-feira (23) são um exemplo de como o mesmo acordo pode ser narrado de formas tão diferentes, ao ponto de os dois lados aparecerem como vencedores e não como perdedores.

Zuckerberg, na mira da imprensa

De fora, é difícil avaliar se o movimento solitário de Mark Zuckerberg foi calculado e se atingiu os objetivos, já que o Governo acabou aceitando flexibilizar aspectos da lei. Mas ao encarar a briga de nariz empinado, como fizeram os Sussex desafiando em público uma adorada senhora de 94 anos, o Facebook submeteu-se ao risco de gerar uma comoção e ganhar adversários em vez de aliados.

 

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