Por Sandro Villar

Não sei de onde ela veio e nem para onde foi. Só sei que ela estava lá, na redação da TV Cultura, em meados dos anos 80 do século passado. Seu nome: Márcia. Já quanto ao sobrenome são outros quinhentos. Ou outros seiscentos.

 Na verdade, o “sobrenome” dizia respeito ao… Oh, Céus, como direi nesta revista de família?… Enfim, era uma alusão ao anel de couro, já que não quero ser chulo diante de um público tão culto e sofisticado como a nossa “catigoria”, como diria o saudoso sindicalista Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão.

 Ela se apresentava aos colegas como Márcia, mas tinha o insólito “sobrenome”, que começava com a letra C, seguida de um U, depois um Z acrescido de A e, para completar, um O com o sinal gráfico til “cobrindo” penúltima letra.

 Fofa, para não dizer robusta como a inflação, e desengonçada, Márcia C lembrava o personagem do ator Charles Laughton no filme Spartacus, grande êxito de Kirk Douglas na década de 60 do século 20, como diz a Folha, ou século XX, como grafa o Estadão (nossa, enchi linguiça e outros embutidos para mais de metro − acho que vou trabalhar na JBS).

 Não me lembro mais qual era a função dela, mas, se não me engano, coordenava o telejornal noturno da TV Cultura. “Rápido aí, C, já está quase na hora do jornal entrar no ar. Cadê a matéria?”, cobrava dos editores. Ela era assim com os colegas. Chamava todo mundo de C. “Ô, C”, dizia. No aumentativo, óbvio. Maior deboche, sem papas e bispos na língua.

 Nem mesmo o diretor de Redação e o chefe de Reportagem eram poupados. Márcia também os chamava de C. Tremendo barato! Ninguém se irritava com o “tratamento”. Ela passava a imagem de uma pessoa boa. Nunca presenciei atrito dela com ninguém. 

 Como afirmei na primeira linha do primeiro parágrafo, não sei de onde ela veio e nem para onde foi. Márcia C nos divertia e isso não tem preço. Tomara que esteja bem nestes tempos de fazer vaca não reconhecer o bezerro e égua não reconhecer o potro.


Cadê a Márcia C?
Sandro Villar

A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar, radialista e jornalista que por muitos anos atuou como correspondente do Estadão em Presidente Prudente, no interior de São Paulo.

Nosso estoque do Memórias da Redação acabou. Se você tem alguma história de redação interessante para contar mande para [email protected]

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