Abril não paga demitidos e inclui verbas rescisórias na recuperação judicial

Edições de Placar, Vip e Viagem e Turismo serão só online

 

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O Comitê dos Jornalistas Demitidos da Abril, formado em 17/8 como uma das decisões tomadas em reunião no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, divulgou nessa segunda-feira (20/8) um comunicado em que afirma que a empresa não pagou nada a nenhum dos dispensados, manobrou para incluir as verbas rescisórias na recuperação judicial e não liberou a chave para o saque do FGTS nem as guias do seguro-desemprego.

Jornalistas elegeram uma comissão para facilitar o diálogo entre os demitidos e o Sindicato (Foto: Flaviana Serafim/SJSP)

Na reunião no Sindicato, parte dos 150 jornalistas demitidos e a direção do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo debateram e definiram uma série de ações na luta por respeito aos direitos trabalhistas e contra as demissões em massa na empresa. Além da formação do Comitê, foram aprovadas mobilizações contra as demissões, que serão realizadas em conjunto com os gráficos e administrativos, também atingidos pela dispensa, e que o Sindicato tome todas as medidas legais cabíveis em defesa dos demitidos, como vem fazendo desde que começou a dispensa coletiva.

Em 6/8, a entidade entrou com pedido de antecipação de tutela reivindicando a reintegração imediata dos profissionais e a anulação das demissões, porque a Abril já responde a uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho de São Paulo contra demissões em massa realizadas em 2017.

Entretanto, em entrevista a Igor Ribeiro, do Meio & Mensagem, no último dia 16/8, Marcos Haaland, presidente executivo do Grupo Abril, garantiu que a dívida trabalhista é prioridade no processo de recuperação judicial do grupo, que prevê renegociar R$ 1,6 bilhão no total: “Temos feito reuniões com todos e nossa prioridade é quitar o mais rapidamente possível com o grupo de funcionários”. Vale lembrar que perto de 800 pessoas deixaram a empresa nas últimas semanas.

Haaland também informou na entrevista que as revistas Placar, Vip e Viagem e Turismo deixam a plataforma impressa para seguirem só no digital. E que, diferentemente do previsto, o Guia do Estudante publicará impressos quando necessário, já que sua periodicidade não é constante. Afirmou ainda que títulos como Boa Forma e Casa Claudia, entre outros, um dia poderão voltar, mas que isso não acontecerá em curto prazo.

Em análise publicada no Nexo em 15/8, Denis Burgierman, ex-diretor de Redação de dois títulos da empresa (Superinteressante e Vida Simples), que não é um dos recém-demitidos, afirma que Roberto Civita sabia que a diversidade era a maior riqueza que ele podia buscar mas que a Abril esqueceu disso.

Confira a íntegra do comunicado:

Na manhã de 6 de agosto, os funcionários da Editora Abril foram surpreendidos pelo fechamento de revistas do grupo e pela dispensa em massa de jornalistas, gráficos e administrativos. Nos dias seguintes, os números estavam em torno de 800 profissionais. Ao todo, 11 títulos foram encerrados.

Na vida particular dos empregados da Abril, as medidas têm sido devastadoras. A empresa desligou de forma injusta, sem negociação com as entidades de representação trabalhista e sem prestar esclarecimentos oficiais. Em 15 de agosto, nove dias após o início das demissões, a Abril entrou com pedido de recuperação judicial (acatado pela Justiça) incluindo nesse processo todas as verbas rescisórias dos dispensados e também a multa de 40% sobre o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

Ou seja, um dia antes do prazo final para indenizar integralmente os ex-funcionários, a empresa realizou a manobra, fazendo crer que as duas ações (demissão em massa e pedido de recuperação judicial) foram arquitetadas em conjunto, tendo como um dos seus objetivos não pagar os empregados.

Além disso, suspendeu a prestação de contas (antiga homologação), não liberou a chave para o saque do FGTS e as guias do seguro-desemprego, deixando os demitidos sem nenhuma cobertura financeira. Quando tentam contatar o RH, recebem informações contraditórias – portanto, os demitidos permanecem no escuro.

A Editora Abril há muito vem descumprindo outros compromissos com as mulheres e os homens que se doaram e participaram bravamente de um esforço cotidiano para que a empresa se recuperasse da crise pela qual enveredou. Um exemplo: os profissionais desligados em 2017 e no começo deste ano viram suas indenizações sendo pagas em parcelas, algo considerado ilegal.

Com a recuperação judicial, eles tiveram as parcelas finais congeladas. Assim, pessoas que não mantêm vínculo com a empresa há pelo menos sete meses se encontram listadas como credoras e impedidas de receber o que resta. Foram também atingidos fotógrafos, colaboradores de texto, revisão e arte, que, igualmente, não verão o seu dinheiro.

Deixemos clara nossa profunda indignação com o fato de a família proprietária da Editora Abril – que durante décadas acumulou com a empresa, e com o nosso trabalho, uma fortuna na casa dos bilhões de reais – tentar agora preservar seu patrimônio e não querer usar uma pequena parte dele para cumprir a obrigação legal de nos pagar o que é devido.

Por fim, é preciso considerar o prejuízo cultural da medida. Com o encerramento dos títulos Cosmopolitan, Elle, Boa Forma, Viagem e Turismo, Mundo Estranho, Guia do Estudante, Casa Claudia, Arquitetura&Construção, Minha Casa, Veja Rio e Bebe.com, milhares de leitoras e leitores ficaram abandonados.

Para a democracia brasileira e para a cultura nacional, a drástica medida representa um enorme empobrecimento. Morrem títulos que, ao longo de décadas, promoveram a educação, a saúde, a ciência e o entretenimento; colaboraram para a tomada de consciência sobre problemas da sociedade; formaram cidadãos e contribuíram para a autonomia e o desenvolvimento pessoal de todos os que liam e compartilhavam a caudalosa quantidade de conteúdos produzidos pelas revistas impressas, suas versões digitais ou redes sociais.

Nada foi colocado no lugar desses veículos, abrindo enorme lacuna na história da comunicação no nosso país. Parte da crise, sabe-se, é global e impactou a imprensa do mundo inteiro. Outra parte deve-se ao fato de a Abril ter perdido o contato com a pluralidade de opiniões e se afastado da diversidade que caracteriza a população brasileira. Uma gestão sem interesse no editorial sucateou as redações, não soube investir em produtos digitais e comprometeu a qualidade de suas publicações sob o pretexto de “cortar custos”. Além disso, deu ouvidos apenas a executivos e consultorias, sem levar em consideração os profissionais da reportagem e o público.

Neste momento difícil para toda a nação, com o desemprego se alargando, nós, jornalistas demitidos, estamos organizados e contando com o apoio do Sindicado dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.

Também estamos unidos às demais categorias – gráficos e funcionários administrativos. É uma demonstração de tenacidade na defesa da integralidade dos nossos direitos e um sinal de prontidão para enfrentar as necessárias lutas que virão. Não pedimos nada além do que o nosso trabalho, por lei, garantiu.

São Paulo, 20 de agosto de 2018 Comitê dos Jornalistas Demitidos da Abril

 

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