Por Cristina Vaz de Carvalho, editora do Portal dos Jornalistas no Rio

Morando há cinco anos em Portugal, Fernando Thompson faz doutorado na Universidade Nova de Lisboa. Por causa de sua tese sobre migrações, criou a OIT (Opendoor Integration Technologies), com aplicativos para orientar brasileiros migrantes para a Península Ibérica.

Thompson começou no jornalismo de redação. Foi GloboNews, IstoÉ Dinheiro, Jornal do Brasil. Na comunicação corporativa, entre outros trabalhos, foi o diretor de comunicação da Vale por seis anos; em Brasília, esteve em Ministérios e na Secom. Atualmente, é comentarista da CNN Portugal.

Ele conversou com o Portal dos Jornalistas sobre suas novas alternativas.

Portal dos Jornalistas – Você desistiu do jornalismo?

Fernando Thompson – Ao mudar de país, precisei pensar em como me ambientar. Trazia uma experiência de comunicação corporativa, que o mercado rejeitou. No jornalismo tradicional, há resistência porque brasileiros não sabem escrever português, estão ameaçando a língua portuguesa. Preferi me reinventar, procurar alternativas, não fazer a mesma coisa.

Portal – Qual é o cenário do jornalismo aí?

Fernando – Existem veículos destinados aos brasileiros em Portugal, em geral agregados a grandes jornais. O primeiro deles foi o Diário de Notícias Brasil, criado por Paulo Markun, que se desligou depois de mudança de dono e hoje está sob Amanda Lima, brasileira que fez carreira em Portugal. E o Público Brasil, editado por Vicente Nunes. Sua manutenção não é bem resolvida, na medida em que a mídia tradicional se baseia em publicidade, patrocínios e seminários, em um mercado limitado. Além desses, e sobre eles, destaca-se a revista EntreRios, com Aziz Filho e Eliane Lobato, que não enfrenta dificuldades. O mercado é reduzido, não há mais espaço para mídia voltada ao brasileiro em Portugal.

Portal – De onde surgiu a ideia de abordar as migrações?

Fernando – Em Portugal, existem oficialmente 600 mil brasileiros, sem contar os que estão em processo de regularização. É um percentual significativo no universo de 11 milhões de habitantes do país. Eles precisam de informação sobre assuntos como cidadania, saúde tributária. O que eu faço para alugar uma casa, conseguir um emprego?

No doutorado, estudo o processo de migração para Portugal e Espanha. Fiz uma pesquisa com 250 pessoas em Portugal e 250 na Espanha com recorte de idade, sexo e escolaridade. Segundo critérios estatísticos – afirma o meu orientador da tese –, pode não ser uma amostra perfeita, mas é uma amostra válida.

Apareceu nos dois países: os brasileiros não se informam nos jornais, mas nas redes sociais. O fenômeno brasileiro de não ler jornal atravessou o oceano com os migrantes. Eles buscam informações objetivas, e não opinião. Mas influenciadores nem sempre trazem informações corretas, estão mais interessados na monetização das notícias. Vi, então, que existe um mercado para informações oficiais não editorializadas. Brasileiros confiam em brasileiros, não em jornalistas.

Portal – E qual foi o resultado prático da sua percepção?

Fernando – Montei a OIT – um nome fácil para os europeus –, de Opendoor Integration Technologies. OIT é uma série de aplicativos que atendem a essa demanda, todos registrados e em desenvolvimento na Apple Store para lançamento em 2027. No doutorado, defendo o conceito que chamei “desigualdade comunicacional algorítmica”.

Portal – Quais são esses aplicativos?

Fernando – O primeiro item que apareceu na pesquisa, de que gostariam de ter informação, é sobre emprego. Para isso, há o aplicativo TeuEmpregoAqui.com. O interessado preenche um questionário e sabe, antes de vir, tudo de que precisa para elevar o nível de empregabilidade, pois não basta o diploma. São informações oficiais, com os links dos departamentos para resolver cada problema.

O segundo item que aparece é a moradia. O aplicativo TuaCasaAqui.com gera um relatório com dez cidades onde a pessoa pode morar, partindo do que tem a oferecer.

Portal – Como você pretende implantar essas ferramentas?

Fernando – Investi dinheiro do meu bolso para criar essas soluções. A ideia é começar pelos brasileiros e chegar aos latinos. O objetivo é oferecer o que cada um precisa para vir, com informações objetivas, para enfrentar os influenciadores. Mas tem outra coisa: a União Europeia passa por uma crise migratória séria.

Portal – Não é ambicioso mirar a União Europeia?

Fernando – Há 304 milhões de pessoas vagando pelo mundo. Saíram de seus países por razões diversas, mas não ficam paradas. Um fenômeno nômade, pois os blocos econômicos permitem isso. Um problema que não tem volta, elas já estão lá. São pessoas que não conhecem nada sobre o lugar para onde vão. Aí entram as plataformas que permitem gerenciar esse fluxo migratório.

Estou apostando nisso: migração é uma questão global, precisa ser encarada não como sendo deste ou daquele país. O futuro não está no modelo tradicional. Proponho uma arquitetura tecnológica multinacional para enfrentar os influenciadores e suas informações falhas.

E esses projetos vão ser apresentados à União Europeia, que mantém vários fundos de financiamento, um deles voltado especificamente para migrantes.

Portal – Você contou no LinkedIn que seu plano de negócio desdobrou-se em iniciativas pessoais.

Fernando – Escrevi um livro sobre a minha experiência. Mas não é suficiente para disseminar a ideia, seria mais um livro de imigrante na prateleira. Quando eu soube do relançamento da Ópera do Malandro, me lembrei do Orfeu Negro. Escrevi então o musical Brazuca, e compus sete músicas de vários gêneros, como fado, hip hop, samba-enredo (ouça A ponte de Oxalá).

 

Portal – Foi mesmo uma reinvenção…

Fernando – O jornalismo mudou e nós precisamos mudar. Tudo o que fizemos nessas décadas pode ser redirecionado. Existem oportunidades. Migração é a oportunidade que eu estou olhando. Não estou sentado reclamando. É uma mensagem para os colegas: vocês sabem muito, usem isso.

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