Cego desde 2013 por causa de descolamento das retinas, Assis Ângelo, jornalista considerado um dos principais pesquisadores da cultura popular do País, está em busca de parceiros para produzir um programa de televisão focado nos 45,6 milhões de brasileiros (IBGE, 2010) que têm algum tipo de deficiência: cegos, cadeirantes, surdos, mudos, com paralisia cerebral e outros.
Segundo ele, o projeto tem por objetivo mostrar o Brasil por meio dessas pessoas, hoje invisíveis nos meios de comunicação; discutir a mobilidade, a cidade, as artes, a cultura, a história, do ponto de vista delas: “Está na hora de a vida, a obra e o exemplo dessas pessoas, que vivem uma realidade diferente, às vezes dolorosa, serem mostrados em um programa bem-humorado, bonito. Porque existe muito preconceito com relação a elas. O tema não é discutido nas escolas, são pouquíssimas as entidades que as orientam. O poder público não toma conhecimento, não há dinheiro disponível para essas entidades desenvolverem projetos que tragam à tona os deficientes. As famílias não estão preparadas para lidar com eles”.
Assis afirma que todos se afastaram quando perdeu a visão: “Muita gente sofre o que sofri. E continuará sofrendo se não houver um grito de alerta, um pedido de socorro. Estamos presentes! Temos como viver a vida de outra maneira! É preciso mostrar isso. Tenho muitas ideias de como fazer isso num programa de TV. Não existe nada no gênero no Brasil. São 45,6 milhões de pessoas que ajudam a construir o Brasil, mas não aparecem na TV.
Para isso precisamos contar com apoio do poder público e da iniciativa privada. No mundo todo, são um bilhão de deficientes em uma população de sete bilhões. Então, não é um problema brasileiro, é mundial. É hora de descobrir a nossa história e por ela, nos descobrirmos. É um berro, um grito que dou para quem tem lucidez para discutir comigo. Quero mostrar o Brasil por meio das pessoas deficientes. Está na hora de exercitar na prática aquele palavreado bonito da Constituição. Está na hora de o Brasil se reconhecer e recuperar os seus valores. Sou cego dos olhos, mas vejo o mundo de outras maneiras”.
O programa terá músicos, atores, autores, dançarinos, artistas de todos os gêneros, bem como advogados, juízes e profissionais das mais diversas áreas com algum tipo de deficiência. Também trará novidades em tecnologia desenvolvidas para esse público e soluções para o seu dia a dia, além de alertar o grande público sobre como lidar e auxiliar essas pessoas. Haverá ainda reportagens e a participação de especialistas. Entidades referência serão parceiras e darão consultoria para facilitar a inclusão de pessoas com deficiência e ajudar o telespectador a respeitar suas necessidades individuais e sociais
Criador e presidente do Instituto Memória Brasil, o maior no gênero da cultura popular em mãos de particular no País, Assis decidiu pôr à venda o acervo, porque não tem mais condições físicas e financeiras de manter o material, que começou a reunir há mais de 40 anos. São cerca de 150 mil itens, entre discos de todos os formatos, fotos, partituras, folhetos de cordel, livros, fitas cassete e MDs. Contatos pelos [email protected], www.institutomemoriabrasil.org.br, http://assisangelo.blogspot.com, 11-3661-4561 e 11-985-490-333.
Ex-executivo da Fiat, Marco Antonio Lage foi convidado a assumir cargo diretivo no Cruzeiro
Ex-executivo da Fiat, Marco Antonio Lage foi convidado a assumir cargo diretivo no Cruzeiro
Com a vitória de Wagner Pires de Sá como novo presidente do Cruzeiro Esporte Clube, Marco Antonio Lage, ex-diretor de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da FCA, foi convidado e aceitou o convite para assumir como novo gestor corporativo do clube mineiro. Nessa nova posição, ficará responsável pela unificação dos departamentos de Comunicação, Marketing e Comercial do clube.
A escolha foi uma das primeiras decisões tomadas pelo novo mandatário, que assumirá em 31/12 para três anos de mandato. “Lage já esteve aqui na sede do Cruzeiro, conversamos e ele está contratado”, garantiu o novo mandatário em entrevista ao jornal Hoje em Dia. “A intenção é que se faça como acontece nas grandes empresas, esses três setores não são coisas totalmente separadas, um se junta ao outro. Para isso temos uma comissão de transição, na qual estou reunindo grandes profissionais de cada setor”.
Cruzeirense, Marco é formado em Jornalismo pela PUC-MG, com mestrado em Marketing Estratégico pela Universidade Federal de Santa Catarina. Na Fiat, atuou na área de imprensa por 25 anos, até anunciar em julho deste ano seu desligamento da empresa. “A ideia é levar toda minha experiência em gestão, seja de marca, de empresa ou de um instituto, para esse novo desafio”, explica o executivo. “A ideia da nova diretoria do clube é de profissionalizar, fazer algo inovador em se tratando de clube de futebol. Foi por isso que aceitei esse desafio, que deve acrescentar muito em minha carreira profissional”.
Segundo Lage, em seu escopo de trabalho está ainda a criação em um instituto com foco em cidadania e educação. “Vamos trabalhar em diversas ações com foco no fortalecimento da marca do clube. Para mim, sem dúvida, será uma experiência incrível, inclusive por ser cruzeirense. Claro que o aspecto profissional é mais importante, mas ainda assim será um casamento bastante interessante”.
As inscrições à primeira edição do Prêmio Excelência e Inovação em PR – Troféu Jatobá já começam a chegar de todo o País, na disputa pelas 20 categorias, que distinguirão as grandes agências e as agências-butique de comunicaçãos. As inscrições vão até 31 de
outubro e podem participar agências de comunicação e congêneres do Brasil e da América Latina, neste caso na categoria internacional criada para as empresas do continente.
As inscrições para grandes agências custam R$ 900 para a primeira inscrição; R$ 600 da segunda à quinta inscrições; e R$ 450, da sexta inscrição em diante. Para as agências-butique (as pequenas e médias agências que atuam em nichos, determinadas áreas geográficas ou são especializadas em serviços específicos), o valor único é de R$ 450. Agências associadas à Abracom ou ao Conrerp têm 20% de desconto em todas as inscrições.
A luta contra fake news ganhou um aliado de peso na última semana. Em nota oficial do Vaticano, publicada em 29/9, o Papa Francisco reforçou o compromisso da Igreja Católica em contribuir para analisar causas, lógica e consequências da desinformação na mídia, além de promover o jornalismo profissional. “Buscar sempre a verdade, um jornalismo de paz que promova o entendimento entre as pessoas”.
O tema será mote para a 52ª Jornada Mundial de Comunicação Social, em 2018, e teve como inspiração o versículo bíblico “A verdade o libertará”. Em tempo: o próprio Papa foi vítima recente dessas notícias falsas
Depois de cinco anos fora, Octávio Costa, que teve passagens pelas principais redações do País, está de volta ao comando da IstoÉ em Brasília. Ele assumiu o cargo em 2/10, após a saída de Ilimar Franco (ex-O Globo) depois de apenas dois meses na direção da revista, em substituição a Débora Bergamasco, que seguiu para Época. Octávio falou a J&Cia sobre o retorno à publicação e a Brasília. Segundo ele, fazendo as contas, já somam dez anos em IstoÉ, “o que também pesou na decisão de retomar ao cargo”.
Portal dos Jornalistas – Como é estar de volta à Capital e ao comando da IstoÉ?
Octávio Costa – Estive fora por cinco anos. Na verdade, saí daqui em 2012, voltei para o Rio, minha terra, para tocar o Brasil Econômico, projeto que infelizmente acabou em 2015. De lá para cá, tive uma breve passagem pelo BNDES, e depois fiquei em casa mesmo, época em que fiz uma pós-graduação em Direito do Trabalho. Minha área de formação é Direito, embora nunca tenha exercido.
Portal dos Jornalistas – E o que o fez aceitar o convite para retomar ao posto na revista?
Octávio – Para mim também foi uma surpresa total, tenho grande consideração pela IstoÉ e pelo Ilimar, por todos os anos que por aqui permaneci. Fazendo as contas, já somam uns dez anos de trabalho por aqui, equiparando ao tempo do JB. Pesou muito, demais, na minha decisão, além da consideração pela revista e os amigos que fiz por aqui, o fato de reassumir a IstoÉ num momento extremamente importante para o País, sobretudo por causa das eleições do próximo ano. Participar ativamente desse momento em que o eleitor irá decidir o rumo do País, para mim, é de muita valia. E vou ficar na ponte aérea, pois minha família permanece no Rio. Já estou nos meus 67 anos, mas acho que ainda tenho algum carvão pra queimar. (risos).
Octávio atuou como repórter de Economia em O Globo, na Veja, onde também foi subeditor, e no JB. Deixou as redações para tornar-se diretor regional da Bolsa de Valores do Rio em SP. Em 1982, de volta ao jornalismo, assumiu a editoria de Finanças da revista Exame. Ocupou o cargo até 1987, quando foi para a Bovespa, como assessor de imprensa. Três anos depois, em 1990, assumiu a direção da Agência JB. Ficou no cargo até 1993. De lá, até 1996, foi chefe da sucursal da IstoÉ no Rio de Janeiro e também editor de Economia da revista. Foi para editoria executiva da revista Manchete, e retornou ao JB, nas funções de editor, editor executivo e diretor da sucursal em Brasília. Foi ainda diretor da revista Forbes Brasil. Assessorou o ministro Edson Vidigal, presidente do STJ, e em seguida, chefiou a Assessoria de Comunicação do órgão. Em 2006, assumiu a direção da IstoÉ Dinheiro em Brasília, até voltar para o Rio, como diretor adjunto do Brasil Econômico, e, em seguida, como editor-chefe da publicação.
Fábio Victor aceitou convite da piauí e começou como repórter em São Paulo, indo ao Rio, sede da revista, quando necessário (pelo menos uma vez por mês, para reuniões de pauta.). Ele esteve por mais de 20 anos na Folha de S.Paulo, em várias funções e em várias cidades. Ultimamente era repórter especial, subordinado à Secretaria de Redação.
Antes, foi editor interino de Mundo durante a cobertura da última eleição presidencial dos EUA (2016), editor adjunto da Ilustrada, correspondente em Londres (2005/2006), pauteiro/chefe de Reportagem da sucursal de Brasília (2007/2009) e repórter em várias editorias, principalmente Esporte, Política e Cultura/Ilustrada. Pela Folha, fez coberturas em 30 países dos cinco continentes, entre elas três Copas do Mundo (Coreia/Japão-2002, Alemanha-2006, Brasil-2014), uma Olimpíada (Sydney-2000) e três eleições presidenciais (2002, 2006 e 2010).
Como repórter especial, um dos seus trabalhos de maior repercussão foi uma reportagem sobre a engrenagem das fake news no Brasil, publicada em fevereiro na Ilustríssima e ganhadora de uma etapa do Prêmio Folha (a grande vencedora só sai no fim do ano). O novo contato dele é [email protected].
Dárcio Oliveira deixou em 29/9, depois de mais de sete anos, a Editora Globo, em sua segunda passagem por lá, onde desde janeiro de 2015 era diretor de Redação de Época Negócios. Com a saída dele, Sandra Boccia, que comanda a Pequenas Empresas & Grandes Negócios, passa a acumular as duas funções.
Dárcio começou em 1994 na Editora Três, onde ficou por 13 anos, os três primeiros na IstoÉ e dez na IstoÉ Dinheiro (SP), desde o nascimento da revista, em 1997. Quando saiu, integrou a equipe que criou a Revista da Semana, da Abril, e em seguida teve sua primeira passagem em Época Negócios, por dois anos e meio. Depois, passou sete meses no Brasil Econômico e retornou em maio de 2010 para a Época Negócios como editor executivo. Um ano depois, em julho de 2011, assumiu como redator-chefe, até dezembro de 2014. Os contatos pessoais dele são [email protected] e 11-991-911-639.
E com a saída, em 13/9, de Andrea Dantas da Diretoria de Grupo Quem Marie Claire e Monet, depois de cinco anos e meio na empresa, Luís Alberto Nogueira, que vinha comandando Monet, assumiu o posto. Com isso, Giuliana Toledo, diretora de Redação de Galileu, também passa a acumular as duas funções. Na Crescer, a editora executiva Ana Paula Pontes foi promovida a editora-chefe.
Prémio+ Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças
Hoje é o último dia da votação que elegerá, em segundo turno, Os +Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil, iniciativa de Jornalistas&Cia em parceria com a Maxpress. Os participantes podem votar em até cinco jornalistas, entre os 89 finalistas, e em até três veículos nas categorias Jornal, Revista, Televisão, Rádio, Web e Agência de Notícia, sendo que a 1ª colocação vale 100 pontos; a segunda, 80; a 3ª 65; a 4ª, 55; e a 5ª, 50.
Podem votar jornalistas e comunicadores de todo o País, bastando – para aqueles que ainda não receberam o link de votação – enviar e-mail para [email protected], e solicitar a inclusão. Atualmente, o colégio eleitoral é integrado por 53 mil profissionais de todo o País.
A apuração está marcada para os dias 9 e 10/10 na sede da Maxpress e a divulgação será na próxima edição de Jornalistas&Cia, que circulará em 11 de outubro.
Vão receber o prêmio os Top 50 e os veículos campeões, em cerimônia marcada para 27 de novembro no Renaissance Hotel, em São Paulo. A iniciativa conta com o patrocínio das organizações Gerdau, BTG Pactual e Deloitte, apoio da Latam e apoio institucional de Abrasca e Ibri, mais a colaboração da Rede Inform.
Romulo Maiorana Jr., o Rominho, foi destituído do cargo de presidente da Delta Publicidade no último sábado (30/9), em decisão tomada pela Assembleia Geral da empresa sem a presença do executivo, que se recusou a comparecer.
No lugar dele assumiu o irmão Ronaldo, diretor Jurídico das Organizações Romulo Maiorana, tendo sua irmã, Rosângela, atual diretora de Distribuição de O liberal, como vice-presidente da empresa, que edita os jornais O Liberal e Amazônia e administra a TV Liberal, afiliada da Rede Globo no Pará. A briga dos irmãos pelo controle da empresa vem de alguns anos.
Rominho voltou de Miami quarta-feira (4/10) disposto a desfazer as decisões tomadas por seus cinco irmãos – Ângela, Roberta e Rose, além de Ronaldo e Rosângela. Mas como, somados, eles são acionistas majoritários (56% das ações), a missão de Rominho em desfazer a ação será muito difícil.
“Che Guevara apresentava um semblante sereno, com os olhos semiabertos e um sorriso fixado no rosto", lembra Helle Alves
Em entrevista especial a este Portal dos Jornalistas, Helle Alves relembra o furo que mudaria para sempre sua vida.
Há 50 anos, a repórter Helle Alves dava as costas a uma cobertura convencional e apostava naquela que seria a grande obra da sua carreira, a comprovação da morte do líder revolucionário Ernesto “Che” Guevara
Por Dario Palhares (*), especial para Jornalistas&Cia e Portal dos Jornalistas
Mineira de Itanhandu, Helle Alves é a repórter dos sonhos de todo e qualquer editor e pauteiro que se preze. Inquieta e fuçadora, ela sempre apresentava saborosas histórias para seus chefes no Diário da Noite, publicado em São Paulo pelos Diários Associados.
Entre outros trabalhos, produziu algumas das primeiras reportagens do País a tratar a prostituição pelo viés social, denunciou a opressão às mulheres casadas, que só puderam trabalhar fora de casa sem a autorização por escrito dos maridos a partir de 1962, e desmascarou o líder de uma quadrilha de pedófilos endinheirados da Pauliceia, que acabou se atirando de um prédio. “Eu gostava da editoria de geral, onde não havia rotina. Cheguei até a chefiar a equipe durante um ano, mas fiquei feliz quando retornei para a reportagem”, diz ela, às vésperas de comemorar, em 7 de dezembro, seu 91o aniversário.
Outra de suas preferências eram longas viagens. Com a sua Olivetti portátil a tiracolo, conheceu o Parque Nacional do Xingu, na companhia dos irmãos Cláudio e Orlando Villas-Boas, voou a bordo de aviões do Correio Aéreo Nacional (CAN), que prestavam assistência a populações isoladas na Amazônia e no Centro-Oeste, e partiu, sem arrumar as malas, para fazer a cobertura, no Ceará, da morte do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967), primeiro chefe de Estado da ditadura militar, episódio que ela considera misterioso.
“Em nosso trabalho levantamos sérias suspeitas de que o acidente aéreo que matou Castelo Branco tinha sido tramado. O ex-presidente estava sendo perseguido pela chamada ala ‘linha dura’ do presidente Costa e Silva, a quem não havia apoiado”, escreveu Helle em Eu vi (Editora Nhambiquara, 2012).
O faro apurado para notícias, o texto preciso e o gosto por cair na estrada pesaram a favor da repórter na escolha da equipe dos Associados encarregada de acompanhar, em outubro de 1967, um acontecimento internacional: o julgamento, na Bolívia, do filósofo francês Regis Debray, preso seis meses antes sob a acusação de participar do movimento guerrilheiro comandado pelo argentino Ernesto “Che” Guevara de la Serna, que tinha por grande meta semear a revolução socialista em toda a América do Sul.
No início daquele mês, Helle, o fotógrafo Antonio Moura e o cinegrafista Walter Gianello, da TV Tupi, foram enviados a Santa Cruz de la Sierra, na planície do leste boliviano. De lá, o trio teria de seguir viagem rumo a Camiri, situada 300 quilômetros ao sul, onde Debray responderia ao tribunal. “O julgamento atraiu cerca de 200 jornalistas de vários países. Para mim, no entanto, era um trabalho mais ou menos comum”, comenta ela.
Helle Alves, Walter Gianello e Antonio Moura
Não demorou muito para que a repórter percebesse que a grande notícia não estava em Camiri, e sim nos arredores de Vallegrande, 240 quilômetros a sudoeste, onde os guerilheiros trocavam balas com o exército local. Logo após a sua chegada a Santa Cruz de La Sierra, Helle constatou, em contatos com militares bolivianos, que a guerrilha e Che Guevara estavam com os dias contados. O trio dos Diários Associados pôde, inclusive, conferir isso com seus próprios olhos, durante uma breve visita a Vallegrande para apurar o caso de dois insurgentes presos e executados pelas forças armadas.
“Nesse meio tempo, tive de ir a La Paz, em busca das credenciais para que a nossa equipe pudesse acompanhar o julgamento de Debray. Lá conversei por telégrafo com meu chefe, Wilson Gomes, e disse-lhe que o assunto era o fim da guerrilha, era ‘Che’ Guevara, e não Debray”, lembra Helle. “Ele respondeu: ‘Se você tem tanta certeza, vá, pode ir. Mas saiba que, se não der certo, vocês vão perder o emprego, assim como eu’”.
Ao ouvir de um oficial boliviano, em tom de brincadeira, de que estaria caçando passarinhos, Helle retrucou: “Deve se tratar de um pássaro grande”. Ele só riu.
O palpite da jornalista revelar-se-ia 100% certeiro logo a seguir. De volta a Santa Cruz de La Sierra, ela encontrou, em 8 de outubro, um alto oficial do exército boliviano que conhecera na capital do país, poucos dias antes.
Cumprimentou-o e perguntou-lhe o que estava fazendo por lá. “Ele respondeu que viera caçar passarinhos. Disse-lhe, então, que devia se tratar de um pássaro grande. Ele só riu, confirmando as minhas suspeitas de que ‘Che’ Guevara estava prestes a ser capturado ou até já caíra nas mãos dos militares”, conta Helle. “Naquela noite, alugamos um veículo com um motorista que já conhecíamos e fomos para Vallegrande acompanhados pelo repórter José Stacchini, do Estadão”.
A viagem consumiu a madrugada inteira, devido às más condições da estrada de terra. Chegando ao destino, os profissionais brasileiros se dirigiram ao único hotel da cidade, que estava repleto de oficiais do exército. Lá souberam que o “pássaro grande” fora morto em La Higuera, 61 quilômetros ao sul, e que seu corpo seria trazido para Vallegrande naquela manhã amarrado ao trem de aterrissagem de um helicóptero.
A caminho do campo de pouso, Helle instruiu o motorista da equipe: pediu-lhe que grudasse na traseira do veículo que iria transportar o cadáver do guerrilheiro sabe-se lá para onde, pois os militares não davam pistas a respeito. “Foi o que fizemos. Conseguimos, dessa forma, entrar na lavanderia do hospital municipal logo depois deles”, lembra ela.
O corpo de um dos maiores mitos do século 20 foi colocado sobre uma mesa de alvenaria. Vestido com trapos e sujo de terra e sangue, “Che” apresentava um semblante sereno, com os olhos semiabertos e um sorriso fixado no rosto. Após observá-lo durante alguns minutos, Helle, Moura, Gianello e Stacchini começaram a fazer o seu trabalho. Ganharam, depois, a companhia de alguns repórteres bolivianos e de um fotógrafo da United Press International (UPI), que chegou e partiu de helicóptero rapidamente.
Amarrado ao trem de aterrissagem de um helicóptero, corpo de Che Guevara chega a Vallegrande, na Bolívia“Che Guevara apresentava um semblante sereno, com os olhos semiabertos e um sorriso fixado no rosto”, lembra Helle Alves
Àquela altura, ninguém seria capaz de imaginar, mas um “milagre” estava prestes a ocorrer. O episódio teve início com a ruidosa chegada ao portão da lavanderia do hospital de um grupo de cerca de cem pessoas que, meia hora antes, havia acompanhado atentamente a chegada do cadáver do guerrilheiro a Vallegrande. “Eles vieram caminhando desde o campo de pouso e estavam furiosos. Gritavam: ‘Tenemos derechos, somos bolivianos! Queremos ver al asesino de nuestros soldaditos!’”, lembra Helle.
O pesado portão de madeira não foi páreo para aquela turma. Caiu ao solo após alguns vigorosos chacoalhões, liberando o acesso dos manifestantes, que avançaram para acertar as contas com o defunto ilustre. Helle ficou apavorada e apertou a mão de Moura, que a encorajou. A animosidade, contudo, sumiu de cena quando os invasores avistaram os restos mortais em questão. Os que corriam à frente do grupo estancaram imediatamente, barrando a evolução dos que vinham atrás. “Eles ficaram surpresos, admirados”, conta a repórter. “Diziam que ‘Che’ era lindo, que parecia com Cristo”.
Até mesmo os militares, verdugos do líder revolucionário, se comoveram com o episódio. Tanto que trataram de organizar, logo em seguida, uma fila para que os visitantes inesperados pudessem contemplar, com total respeito e em silêncio, o corpo que, pouco antes, pretendiam destroçar. “Todos nós nos sentimos menores, muitíssimo menores, do que ‘Che’ Guevara, inclusive os oficiais do exército”, diz Helle. “Os espíritas dizem que a alma só deixa o corpo algumas horas após a morte. Não sei se foi isso o que presenciamos naquele dia, mas a experiência me marcou. Eu me emocionei muito”.
* As legendas são reproduções das publicadas em 1967
Nas entrevistas realizadas no hospital, a jornalista colheu informações preciosas sobre as últimas horas de vida do guerrilheiro. Os militares lhe contaram que ‘Che’ ficou preso numa escola em La Higuera. Ele sabia que seria executado e, sem demonstrar temor, ficou discutindo com seus captores. Helle descobriu até quem foi o carrasco voluntário, que apertou o gatilho. “Este homem ficou meio ruim da cabeça e foi se tratar no Rio de Janeiro. Eu queria entrevistá-lo, mas os Diários Associados não permitiram”, diz ela. “Fiquei, assim, sem saber se seus problemas haviam sido causados pelo assassinato”.
Encerrada a apuração, a equipe brasileira retornou ao hotel. Depois do almoço, Hellle e Stacchini começaram a batucar as teclas de suas máquinas. Seus planos, no entanto, sofreram um contratempo: naquela segunda-feira, o posto de telégrafo de Vallegrande estava atendendo única e exclusivamente às forças armadas bolivianas. Só às seis da tarde a dupla recebeu a notícia de que um dos dois telegrafistas da cidade fora colocado à disposição do público. “Fui correndo para lá, levando também o material do Stacchini, para transmitir os textos. Dei de cara com uma baita fila na porta”, relata a repórter.
A jornalista logo encontrou uma solução. Distribuiu notas de cinco e dez dólares às pessoas que aguardavam na fila e, em troca, passou à frente destas. A seguir, entregou valores maiores para os três ou quatro funcionários administrativos do posto. Teve acesso, então, aos dois telegrafistas, que receberam, cada um, cem dólares. Apesar da gorjeta generosa, o operador que atendia aos civis reclamou ao perceber que os textos entregues estavam redigidos em português. Helle o acalmou. “Disse que iria esperar o fim da transmissão e que ele ganharia, em seguida, mais cem dólares”, conta ela. “Tive também o cuidado de recomendar-lhe que desse prioridade à minha reportagem”.
A farta distribuição de cédulas norte-americanas praticamente esgotou os recursos da equipe dos Associados. Stacchini bancou as despesas no hotel e o grupo seguiu viagem naquela mesma noite. Ao chegar a Santa Cruz, na manhã seguinte, Helle despediu-se de Moura e Gianello, que iriam cobrir o julgamento de Debray em Camiri, e embarcou para São Paulo, levando fotos e filmes. Assim que desceu do avião, foi para a redação do Diário da Noite, na rua Sete de Abril. “Estava muito cansada, pois não conseguira dormir nas duas noites anteriores, já que o trajeto entre Santa Cruz de La Sierra e Vallegrande era muito acidentado. Tanto que dei algumas ‘pescadas’ durante a entrevista para o Saulo Gomes, na noite de 10 de outubro, nos estúdios da TV Tupi”, recorda a repórter.
Autópsia atestou que tiro na nuca vitimou o líder guerrilheiro
As informações apuradas na Bolívia garantiram suítes sobre a execução de “Che” Guevara por cerca de dez dias. Helle guarda uma reportagem, em particular, na memória. Intitulada Mosca azul picou Guevara, abordava um erro que custou caro ao líder argentino. “Ele entregou fotos da guerrilha a Debray”, diz ela. “Quando o francês foi preso, os militares bolivianos ficaram sabendo da presença de ‘Che’ e deram início à perseguição”.
A satisfação da jornalista durou pouco. Muitos de seus colegas nos Associados ficaram com inveja do seu trabalho marcante e passaram a tratá-la de maneira fria. Helle acredita, inclusive, que alguns desses desafetos foram responsáveis pela abertura de um processo do Exército Brasileiro contra ela em plena ditadura militar. “Enviaram recortes das minhas reportagens sobre o “Che” para comandantes militares”, revela. “Não cheguei a ser interrogada, só tive de responder a algumas perguntas por escrito. Ficou só nisso”.
O endurecimento da ditadura a partir do Ato Institucional no 5, de 13 dezembro de 1968, tornou o ambiente ainda mais pesado. Censores passaram a marcar presença no Diário da Noite, intimidando a tudo e a todos. No início dos anos 1970, Helle desistiu do jornal. Pediu as contas e foi ganhar o pão como freelance e assessora de imprensa. Prestava serviços, entre outros clientes, à sua irmã famosa, a atriz Vida Alves (1928-2017), coprotagonista, ao lado de Walter Forster (1917-1996), do primeiro beijo da TV brasileira, exibido em fevereiro de 1952 no último capítulo da novela Sua vida me pertence.
A notável farejadora de grandes notícias nunca mais voltou a trabalhar em redações. Aposentou-se pela Assembleia Legislativa, onde ingressara na década de 1940, e trocou São Paulo por Santos. Mora há 23 anos no litoral e continua na ativa. Envolveu-se a fundo no Conselho Municipal do Idoso santista, criado na década de 1990, e segue a participar de movimentos culturais na cidade, caso da Festa do Livro, e a escrever obras, hábito herdado do pai, o engenheiro, professor e poeta modernista Heitor Aves (1898-1935), que editou, entre 1927 e 1929, a revista literária Electrica.
Depois de Eu vi, em 2012, Helle lançou, no ano passado, Momentos mágicos, cômicos e trágicos, em comemoração ao seu 90o aniversário. Mais recentemente, aproveitou que teve de ficar de “molho” durante alguns meses, devido a uma fratura no pé, e produziu um pequeno romance, Beco das calêndulas, prestes a ser impresso. A inspiração se estende às pautas jornalísticas, que continuam a surgir na sua mente.
“Gostaria, por exemplo, de fazer uma série de reportagens sobre os custos do poder Legislativo. Hoje, ser parlamentar virou uma profissão extremamente onerosa ao Pais e, em muitos casos, nada honrosa”, cutuca ela, que lamenta o estágio atual da imprensa nacional, marcado pela mesmice. “Dá a impressão até de que todos os veículos de comunicação se abastecem de pautas em uma mesma fonte na internet. Está faltando aos repórteres um maior contato com as ruas, com a realidade”.
(*) Jornalista há mais de 30 anos, Dario Palhares ([email protected]) atuou em diversos veículos – casos de O Globo, Exame, Folha de S.Paulo, Brasil Online, Diário do Povo (Campinas) e A Tribuna (Santos) –, na maioria em cargos de chefia. Autor de livros, atualmente dedica-se à produção de textos e ao desenvolvimento de projetos de memória corporativa e esportiva.