Juro que pensei que Alípio Freire, jornalista que fez história por suas seriedade e inteligência, fosse escapar da Covid. A cada “boletim médico” que Rose Nogueira postou nos últimos dias no grupo ABI São Paulo logo batia um sentimento difuso de muita esperança e um certo desalento.

Assim, na manhã de 22 de abril, Dia da Terra, chegava a notícia: Alípio não resistiu. Imediatamente nossos grupos de zap foram tomados por mensagens de pesar e homenagens, partindo de jornalistas do Brasil inteiro. De Brasília, Helio Doyle; do Rio, Fichel Davit, presidente do Conselho Deliberativo da ABI; e boa parte do grupo de zap Liberdade de Expressão, como Cristina Tavares, Moema, entre tantos outros.

Cid Benjamin foi um dos primeiros a lembrar do velho amigo, com quem havia conversado dois dias antes da internação sem volta. Pude também acompanhar os muitos pesares e lembranças pelos grupos da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e do Instituto Vladimir Herzog.

Bem que Alípio merece estas homenagens todas.

Alípio, aliás, deixou um vínculo fortíssimo com a ABI. Com a criação pelo doutor Barbosa Lima da representação da nossa entidade aqui em São Paulo, Alípio foi o primeiro presidente da diretoria (1978-1980). Participou, em nome da ABI, de todos os movimentos de oposição ao regime militar. Eu fui o segundo presidente da diretoria (1980-1982) e segui os mesmos passos.

Conheci Alípio na Redação da Folha de S.Paulo, na segunda metade dos anos 1970. Ele, subeditor de Internacional e eu, repórter político. Foi, inclusive, ao lado de Perseu Abramo, um dos principais mentores da nossa greve de 1979. Nessas reuniões preparatórias, muitas vezes realizadas na própria redação do jornal, para desespero do secretário de Redação, ficamos mais próximos. Ao lado de tantos outros profissionais, fomos também demitidos da Folha por causa da greve.

Sempre que possível encontrava Alípio em eventos políticos e quando precisei doar a minha cachorra boxer, a Xica (com x mesmo), porque ia me mudar para um apartamento, liguei para ele, que imediatamente topou adotá-la.

Antes que ele desistisse, coloquei Xica no carro e levei para a casa dele, pertinho do estádio do Pacaembu. Foi amor à primeira vista e a alegria dos dois – da Xica e do Alípio – quase fez com que eu desistisse, já morrendo de ciúmes. Gentilmente, Alípio deixou claro que eu poderia visitar Xica quando quisesse. Eu até que fui umas duas ou três vezes.

Aí, não teve jeito, o tempo passou e só o reencontrei em 2012, quando fui entrevistá-lo para o projeto Resistir é Preciso…, produzido pelo Instituto Vladimir Herzog e que tive a honra de dirigir, que conta, em uma série de dez documentários, a trajetória da imprensa alternativa, clandestina e a feita no exterior, durante o regime militar. Alípio fazia parte da equipe de jornalistas e fazedores de jornais que colocavam nas bancas, quando era possível, o jornal ABCD. E quando não era possível, por causa da repressão, saiam distribuindo o jornal pela rua, nos pontos de ônibus…

Fui recolher o depoimento na casa dele, na verdade no apartamento, e nem a Xica existia mais. Com uma incrível facilidade em narrar os fatos, como um ótimo contador de histórias, ele soube contextualizar com precisão o momento político com a resistência expressa nos jornais alternativos e clandestinos, quando, de repente, parou de falar.

Abaixou um pouco a cabeça e foi tomado por uma forte emoção embalada pelas lembranças. Eu também tomei um susto com a súbita interrupção e quando, uma eternidade depois, ele voltou a olhar para a câmera, veio enxugando algumas lágrimas que foram brotando sem, no entanto, embaralhar a sua fala, já deslocada para a importância de resgatar essas memórias.

Felizmente não parou mais de falar e chegou a dar uma sugestão que eu imediatamente acatei e coloquei em prática. Encerrar a série com Gonzaguinha cantando Começaria tudo outra vez

Você gostaria de conferir? Então é só clicar neste endereço (https://youtu.be/tuFFany8pqA) que poderá assistir ao capítulo da série em que Alípio e outros jornalistas transbordam a emoção.

Obrigado, Alípio.


Ricardo Carvalho

Usamos este espaço para reproduzir homenagem que Ricardo Carvalho (jornalista, documentarista, diretor da ABI em São Paulo) fez a Alípio Freire, falecido em 22/4.

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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