O museu mais triste do mundo vai fechar em dezembro

* Por Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto (lrobertoqueiroz@uol.com.br)

Pequena nota no Jornalistas&Cia 1.226, anunciando que em 31 de dezembro o Newseum de Washington fechará definitivamente, me fez viajar numa memória triste.

Foi há 15 ou talvez 20 anos que Táta, especialista em descobrir destinos inusitados, me levou a esse então desconhecido Museu do Jornalismo (desculpem a tradução um pouco livre) e, logo na entrada, fiquei chocado com uma imensa espiral ascendente, feita de centenas de placas de vidro. Em cada cantinho, o nome de um jornalista assassinado, o nome do País e a data.

Eram centenas de nomes e, infelizmente, Brasil era uma palavra muito presente, junto a nomes de alguns companheiros dos quais me lembrava. Não sei se a triste escultura ainda está lá, se será preservada e se será doada à Universidade que receberá o acervo do Newseum.

Lembro também o choque de ver dentro de mostruários as credenciais dos jornalistas mortos no Vietnã, no Líbano, na África, na Síria. Numa delas, pelo menos, enxerguei marcas de sangue.

Como foca que nunca deixei de ser, ofereci-me para mandar minha coleção de credenciais das visitas ao Brasil do rei da Bélgica, do presidente da Itália, de De Gaulle, do senador Kennedy, do Xainxá do Irá, de Miterrand, do príncipe Akihito – que, para comprovar que sou um dinossauro, deixou de ser príncipe, tornou-se rei, envelheceu e já abdicou.

O que podia interessar mesmo ao Newseum eram minhas credenciais dos “anos de chumbo”, quando, em vez das autoridades civis, as credenciais para acompanhar Castelo Branco ao Palácio dos Bandeirantes, Costa e Silva numa visita à área afetada pela seca no Nordeste e Ernesto Geisel acho que na inauguração da Estação Anhangabaú do Metrô, passaram a ser expedidas pela 2ª Seção do II Exército, pelo Gabinete Militar da Presidência, pelo Ministério do Exército e pelo mais antigo Ministério da Guerra.

É claro que de volta ao Brasil percebi que estava me dando muita importância e a coleção de credenciais ficou por aqui, mas um dia Táta me fez uma surpresa: montou as dúzias de credenciais num quadro, hoje visível apenas para os raros amigos que entram no nosso escritório, tugúrio secreto onde continuamos escrevendo, com a graça de Deus.

Da lembrança do Newseum ficaram, entretanto, as vitrines com as fotografias que ganharam os Pulitzer, com as histórias dos grandes jornalistas da história, com a incrível sala onde, quando estivemos lá, eram recebidas e exibidas as primeiras páginas do dia de 800 grandes jornais do mundo, entre eles Estadão, Folha e Jornal do Brasil, naquela época. Hoje, o site do Newseum conta que chegam a mil.

É um acervo que não pode ser perdido, talvez o melhor registro da nossa história. Tomara que a Universidade que vai recebê-lo cuide bem desse registro do que foi o bom combate que tantos lutamos e no qual ainda nos empenhamos. Que a história fique, apesar do aviso triste no site do Newseum, que anuncia, diria mesmo que em oito colunas e corpo 48, como diria o Goés, “We Are in Deadline”. (Veja+)

A história desta semana é novamente de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto (lrobertoqueiroz@uol.com.br), assíduo colaborador deste espaço, que esteve por muitos anos no Estadão e hoje atua em sua própria empresa de comunicação.

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