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quinta-feira, maio 30, 2024

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Milton Blay lança livro sobre seus mais de 30 anos em Paris

Correspondente em Paris da BandNews FM, Milton Blay lança o livro Direto de Paris – coq au vin com feijoada. Formado em Direito e Jornalismo pela USP, mestre em Economia e doutor em Ciências Políticas pela Universidade de Paris, Blay vive na capital francesa desde 1979, onde atuou como correspondente da revista Visão, da Folha de S.Paulo, da Rádio Eldorado e como redator-chefe da Rádio França Internacional. Com 35 anos de histórias acumuladas, na obra ele relata momentos marcantes como os encontros com Orson Welles e com o general francês Aussaresses, responsável por passar técnicas para tortura a militares da ditadura brasileira. Em entrevista ao Portal dos Jornalistas, Blay falou um pouco sobre o livro, como surgiu a ideia de escrevê-lo e o critério usado para selecionar algumas, entre tantas, histórias: Portal dos Jornalistas – Como surgiu a ideia de fazer esse livro? Milton Blay – Direto de Paris, coq au vin com feijoada surgiu da necessidade de exorcizar o passado recente, que havia deixado um gosto amargo. As primeiras páginas não passavam de meros acertos de conta, de exercícios de catarse. Mas superado esse momento, devidamente deletado, foram surgindo histórias, lembranças de momentos vividos ao longo de mais de trinta anos em Paris, que me transformaram em um ser híbrido: franco-brasileiro-migrante, coq au vin com feijoada. Quis contar historietas de um cidadão-correspondente brasileiro em Paris, que como muitos chegou à França no final dos anos 1970 para passar dois anos, no máximo, e que aqui se encontra, a poucos quilômetros da Torre Eiffel, há mais de trinta. Sem arrependimento, porém com o sentimento onipresente de que amanhã será o dia do retorno. Como quase todo imigrado, que pensou milhões de vezes em voltar e outros tantos milhões em ficar, preparei o retorno, que nunca concretizei. Talvez seja assim até o fim, talvez esse livro seja um início de resposta. Tornei-me parisiense, uma cidadania diferente de qualquer outra. Portal dos Jornalistas – Com tantas histórias acumuladas nesses 35 anos em Paris, como fez para selecionar as que comporiam o livro? Milton Blay – Optei por acontecimentos que talvez pareçam menores, mas que, por razões diversas, me tocaram, me fizeram rir, chorar, me deixaram feliz ou indignado, me tiraram o sono. Quis também rascunhar, em breves pinceladas, esse país de contradições – a França –, sobre o qual muito se fala e pouco se sabe, e que, apesar de sentimentos ambivalentes, também é o meu. Ao escrever, quis apenas tirar ao acaso, da caixa de memória, histórias como aquelas que animavam as noitadas de jornalistas das antigas, quando ao sair da sala de redação, após o fechamento da edição, nós nos reuníamos no boteco do Alemão para jogar conversa fora e depois, no jantar da alta madrugada, nos paulistanos Sujinho, Gigetto, Giovanni Bruno ou Piolin, para relembrar causos. Deixei de lado reportagens de guerra, como a da Bósnia-Herzegovina e do Oriente Médio, e coberturas de fatos marcantes, como a chegada do aiatolá Khomeini a Teerã, os atentados de Paris cometidos nos anos 1980 pelo argelino GIA – Grupo Islâmico Armado, a greve do Sindicato Solidarnosc liderado por Lech Walesa, em Gdansk, pedra inaugural do desaparecimento da cortina de ferro, o encontro desencontrado do polonês com Lula, ambos ainda sindicalistas, um querendo sair do comunismo, o outro querendo abraçá-lo, o lançamento do satélite Brasilsat 1 pelo foguete Ariane, da base de Kourou, na Guiana, ou a morte trágica de Lady Diana no túnel da Ponte Alma, em Paris, quase em frente à nossa embaixada, entre tantas outras. No lugar, publiquei encontros com Orson Welles, Ionesco, Chagall, o general Aussaresses (que ensinou a tortura aos nossos militares), Le Pen, Lula, FHC, Mitterrand, histórias inusitadas. Como a do general-presidente Figueiredo, que anulou um jantar oficial no Elysée para cair na gandaia na noite parisiense. Não tive a pretensão de escrever um livro exaustivo sobre a minha carreira de correspondente internacional, talvez a mais longa do jornalismo radiofônico brasileiro, nem dar conselhos para jovens que se lançam na profissão com o sonho de abraçar o mundo. Mesmo assim, a eles dedico algumas linhas vindas de outro século, antes da internet, em que nem sonhávamos com o mundo virtual. Para as chamadas “putas velhas” do jornalismo, ofereço lembranças de como era trabalhar no tempo em que a palavra “reportagem” tinha som de máquina de escrever (mecânica), gravador de fita, mancha de carbono nos dedos, sabor de cafezinho requentado. Portal dos Jornalistas – Quanto tempo levou para escrevê-lo e quais dificuldades encontrou? Milton Blay – A ideia do livro surgiu há mais ou menos cinco anos. Fui um escritor bissexto, sem nenhuma rotina. Escrevi quando e onde me dava vontade, às 3 da madrugada, à meia-noite ou às 4 da tarde, dependendo da necessidade. De repente, escrever se tornava uma necessidade imperiosa, inadiável. Um problema foi encontrar alguns documentos. Durante meses não escrevi uma só linha, pois estava à procura dos arquivos da revista Visão, para a qual trabalhei. Ninguém tinha, nem sequer Henry Maksoud, o último proprietário da revista. Fui encontrar o arquivo, caindo aos pedaços, quase esfarelado, na ECA, a escola de Jornalismo da USP.        Apesar do livro, não me sinto um escritor. Sou apenas um repórter que viveu algumas historias que, ao seu ver, mereciam ser contadas. Nada mais, nada menos.

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