“Meu crime? Ser um jornalista na América de Trump”

Buncombe fichado pela polícia americana

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Um episódio de ameaça à liberdade de imprensa vem causando indignação na Grã-Bretanha desde a semana passada, mesmo tendo ocorrido do outro lado do Atlântico. Andrew Buncombe, correspondente-chefe do jornal britânico Independent nos Estados Unidos, foi preso em 1º/7 ao cobrir manifestações raciais em Seattle, desencadeando uma onda de protestos nos meios políticos e jornalísticos.

Por coincidência, começou a funcionar na última segunda-feira (13/7) no Reino Unido o Comitê Nacional de Segurança dos Jornalistas, que reúne representantes de Governo, Imprensa, Inteligência e Segurança Pública. O objetivo é assegurar aos profissionais o exercício da profissão sem riscos.

“Meu crime? Ser um jornalista na América de Trump” − O episódio ocorrido com Buncombe vem ganhando ares de crise diplomática. A embaixadora britânica formalizou reclamação junto ao Departamento de Estado e à Casa Branca.

O relato do jornalista é impressionante. Ele conta que se identificou como membro da imprensa credenciado pelo Departamento de Estado e não ultrapassou áreas restritas nem obstruiu o trabalho da polícia. Mesmo assim foi algemado e levado ao distrito policial em uma viatura com ativistas também presos na mesma operação.

Foi fichado, teve o celular confiscado e ficou em uma cela por seis horas, sem medidas de isolamento para proteger contra o coronavirus. Teve que entregar pertences e usar uniforme de presidiário. Não recebeu autorização para ligar para um advogado nem para a Embaixada. Ainda responde a processo e pode ser condenado à prisão ou ter que pagar fiança.

Comitê para proteger o trabalho da imprensa − O novo Comitê britânico não terá poderes para atuar em casos como o de Buncombe. Mas chega em boa hora, podendo ser um exemplo para outros países em um momento em que se somam ataques à prática da profissão por parte de governos autoritários e de setores da sociedade, como os movimentos de extrema-direita.

A decisão de criar o grupo não foi da atual administração. Tinha sido anunciada há exatamente um ano, depois que o Reino Unido sediou a conferência mundial sobre Liberdade de Imprensa, dias antes de primeira-ministra Theresa May deixar o posto.

O Comitê vai se reunir duas vezes por ano e terá a missão de monitorar o progresso na área. A primeira tarefa é desenvolver um Plano de Ação Nacional para resguardar profissionais de imprensa contra danos físicos e ameaças.

No discurso que abriu os trabalhos, John Whittingdale, ministro da Mídia e Dados, ressaltou que, embora o país não enfrente os mesmos problemas de outras nações, é necessário atuar proativamente para garantir um ambiente seguro para os jornalistas trabalharem.

Imagem do Governo arranhada por embates −Certamente o Reino Unido não se encontra no estágio preocupante de outras nações, incluindo os Estados Unidos, onde mais de 50 jornalistas já foram presos devido aos protestos raciais. Mas também não anda muito bem visto por organizações engajadas na defesa da liberdade de imprensa.

A administração de Boris Johnson tem tido embates com jornalistas que cobrem o Governo. Desagradou ao anunciar mudanças no sistema de briefings. E não esconde o desconforto com a presença de profissionais de veículos críticos.

Ao ponto de, no fim de maio, o International Press Institute e a Media Freedom Rapid Response (MFRR) dirigirem ao primeiro-ministro uma carta conjunta expressando preocupação com movimentos no sentido de bloquear certos jornalistas ou veículos.

A carta cita a polêmica declaração de Lee Cain, chefe da comunicação de Johnson, que afirmou: “Estamos à vontade para informar a quem quisermos, quando quisermos”. Posição discutível considerando que as informações do Governo são de interesse público.

Parece que o novo Comitê não precisará mesmo se ocupar de situações ocorridas fora das fronteiras do país. Deve ter trabalho doméstico a fazer.

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