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terça-feira, dezembro 7, 2021

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Memórias da Redação ? O prazer de trabalhar com Jorge Andrade

Temos esta semana novamente uma colaboração de Ignácio de Loyola Brandão ([email protected]), ex-Última Hora e editoras Abril e Três, hoje escritor e colunista do Estadão. O prazer de trabalhar com Jorge Andrade             Frequentei a redação da Realidade por um tempo, meses, depois da Claudia. A revista tinha uma equipe sensacional, poucas revistas brasileiras reuniram um time daqueles. Redatores insuperáveis. Como esquecer Paulo Patarra, Sérgio de Souza, Narciso Kalili (trabalhamos juntos na Ultima Hora), Roberto Freire (ele é que me deu o título de meu primeiro livro, Depois do sol, eu estava num impasse), Hamiltinho [de Almeida Filho], [Luiz Fernando] Mercadante (não esse detestável Aluisio, papagaio de pirata da Dilma), José Hamilton Ribeiro, José Carlos Marão, Woyle Guimarães, João Antonio e muitos outros. Boas praças, mas havia alguns que por estarem na Realidade se julgavam os reis da cocada preta, olhando de cima, mas muito de cima o comum dos mortais dos outros andares, onde ficavam outras redações (Manequim, Intervalo, Capricho, infantis, até a Veja). A Abril era então na Marginal do Tietê. Na Realidade conheci Jorge Andrade, o dramaturgo, autor de A moratória, Vereda da salvação, Ossos do barão. Muitas vezes ele chegava em minha mesa, conversávamos sobre literatura, livros, teatro. Ele leu meu romance Dentes ao sol e me aconselhou a jogar fora um trecho de mais de 60 páginas. Tive dó, cortei e o livro cresceu. Foi Jorge quem levou o original de Zero para a Itália e entregou a Luciana Stegagno Picchio, professora de literatura brasileira e portuguesa na Universidade de Roma. Ele tinha ido para Roma entrevistar Murilo Mendes, Jorge era o grande perfilista (se é que esta palavra existe). Por causa dele e de Luciana, Zero saiu primeiro na Itália, um ano depois no Brasil e fez uma carreira que ainda dura..             Num dia de profundo tédio (não me davam matéria para fazer, afinal eu tinha vindo da Claudia, que a turma da Realidade achava uma revista menor, para mulheres), fiquei desenhando com uma Bic um circulo na mão. Jorge passou pela minha mesa, comentou: – O que é isso? Um furo na mão? (Quem cria, está criando e fantasiando a todo momento). – Sim –, respondi. É um furo na mão! – Como aconteceu? – Vinha vindo de manhã, a mão começou a coçar, quando entrei na Abril, abriu este furo, não tenho ideia do porquê. – Tome cuidado. Na Abril estão demitindo gente com furo na mão. Ele seguiu caminho com sua piteira. Só fumava com piteira, tinha uma pose senhorial. Quando cheguei em casa à noite comecei a escrever um conto, terminado dez dias depois: O homem do furo na mão. Publiquei mais tarde na revista Homem Vogue, da Editora Três. Durante anos fiquei com a história na cabeça, um dia me sentei, comecei a reescrever. Três anos mais tarde estava pronto o romance Não verás país nenhum, publicado em 1981, hoje traduzido em dez línguas. Escrevi boa parte de minha literatura nas redações.

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