Memórias da Redação ? Monteiro Lobato na redação do Estadão

Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto, assíduo colaborador deste espaço, resgatou num livro antigo o artigo em que Monteiro Lobato conta como, com a gripe espanhola derrubando todo mundo na redação do Estadão, ele, que nem funcionário era, mas apenas sapo(1) da redação, resolveu assumir o jornal acéfalo e o tocou e manteve por 15 dias, sem que o redator-chefe Nestor Pestana nem o diretor Júlio de Mesquita, o velho, soubessem que o jornal estava sendo editado por gente de fora. Monteiro Lobato na redação do Estadão Em 1918 ocorreu no jornal curioso incidente. Por esse tempo era eu um dos sapos mais assíduos; não dispensava o encontro diário com os dois Lopes, com Julinho e Nestor (Pestana). Irrompera a gripe, que breve se tornou calamidade pública. A preocupação de todos era uma só, a gripe. O tema de todas as conversas era um só, a gripe. O trabalho de todos, um só – socorrer gripados. E toda gente ia caindo de cama. O número de conhecidos mortos assustava.             As notícias na redação passaram a ser de um só tipo. “Chegou telefonada de Louveira. Júlio Mesquita caiu”. E logo depois: “Sabem quem caiu? Julinho. E Chiquinho também”. Já ninguém dizia “cair com gripe” ou adoecer, e sim, e só, cair.             Certa noite, ao entrar na redação, não encontrei Nestor na célebre mesa. Onze horas e nada. Telefonamos e tinha caído também. Logo aparece Plínio Barreto, que vinha substituí-lo no secretariado. Mas no dia seguinte cai Plínio e surge Pinheiro Júnior em substituição. Dois dias apenas esteve Pinheiro, porque também caiu. E como lá embaixo, na administração, houvessem caído Chiquinho, Ricardo Figueiredo, o gerente e seus substitutos, aconteceu que em certo momento todo o estado-maior do jornal ficou fora de combate.             Lembro da noite em que só encontrei lá Filinto Lopes. Esperamos até onze horas pelo substituto de Pinheiro e ninguém apareceu. O jornal estava acéfalo e ameaçado de não sair no dia seguinte. Falta de quem o dirigisse. Lá na “Vala Comum”, isto é, na sala dos redatores, cozinheiros e repórteres, a brecha aberta pela gripe fora de 50% ou mais, e ali na sala do secretário o desfalque era integral.             Uma idéia me ocorreu. – Amigo Filinto, a situação é grave, o jornal está sem cabeça e corre o risco de paralização. Não há a quem recorrer. Os donos caíram e caíram os gerentes e mais de metade do pessoal. Dos sapos só restamos nós dois. Até Maneco (Manequinho Lopes), apesar da sua grande barba, foi para a cama. Proponho que assumamos o comando, do contrário não teremos O Estado na rua a partir de amanhã.             Filinto Lopes gravemente concordou. – Pois então, continuei, tome conta da sala de espera e receba lá quem vier com informes e comunicações, que eu me sento à mesa do Nestor (Pestana) e despacho o expediente.             Assim fizemos. Enquanto Filinto recebia gente, eu na sala do Nestor abria o famoso bauzinho da “matéria” e passava os olhos, selecionando o que tinha de sair no dia seguinte, podando excessos, baixando os adjetivos, rabiscando instruções e zás, metia a papelada no tubo pneumático que por baixo da terra levava tudo às oficinas de composição e impressão.             Para reforço da ‘Vala Comum’ mobilizei vários elementos de fora, como Léo Vaz e Alarico Caiuby, que por esse tempo trabalhavam comigo na Revista do Brasil – e como desfecho dessa mobilização, Léo entrou definitivamente para o corpo de redatores e fez carreira. Quando Nestor faleceu, foi quem o substituiu como secretário e mais tarde foi diretor, em substituição de Plínio Barreto. Hoje Léo Vaz tira o chapéu na rua sempre que ouve a palavra “gripe”.             Nesse trágico momento da vida de O Estado, ocorreu um incidentezinho que tem comicidade. Este jornal e o Correio Paulistano sempre viveram ás turras, órgãos que eram de políticas adversas. Havendo ensejo, um dardejava contra o outro uns borrifos de veneno, mas sempre com muita linha e elevação. Pois bem, aproveitei o fato de estar sozinho e sem controle á frente do jornal para umas alfinetadas no governo, com toda gravidade, numa sábia imitação do estilo de Júlio Mesquita. Lancei umas notas sobre a “falta de coordenação dos serviços oficiais de combate à gripe”. Certo de que quem escrevia era o pobre do doutor Júlio, lá na cama em Louveira, o Correio vibrou de cólera: “Nem numa ocasião como esta, de calamidade nacional, o grande órgão esquece seus rancores políticos”. …E lá em Louveira, Júlio Mesquita folheava o jornal na cama e danava: “Quem é que me anda em São Paulo com estas absurdas impertinências?” E não podia informar-se por telefone, porque em São Paulo todo mundo estava morre-não-morre nas unhas da gripe…             Mas tudo tem um fim. Uma noite, indo para a redação na praça Antonio Prado, esbarrei na rua Quinze com um vulto encapotado, de cachenê e gola erguida. Era o Nestor, que saia da temporada de cama… Estava com muito medo da nossa intromissão na seara alheia, mas Nestor apenas disse: “Bem que andei desconfiado do milagre – todos na cama e o jornal a sair. Foi ótimo”, e deu-me a absolvição…             Este fato revela o clima do “velho órgão”. Tão grande a identificação de todos com a alma do jornal, tamanha a confiança recíproca, que sem ordem de ninguém dois meros filantes de café assumem o comando do maior jornal do Brasil e dirigem-no autocraticamente por mais de uma quinzena. E finda a “ocupação”, os gerentes de nada se queixam, antes agradecem e perdoam, sorrindo, aquela intrusão inédita nos anais da imprensa. (1) Sapos da redação não tinha, na época, nada a ver com o moderno apelido do Chico Ornellas. Era um grupo de intelectuais, amigos da casa – meu avô era um deles –, que toda noite se reuniam na redação para tomar um café, discutir política e fazer sugestões de reformas e mudanças que consideravam essenciais no jornal e que dr. Chiquinho e dr. Julinho ouviam com muito interesse….e ignoravam.   Leia mais + Eliane Brum e Fernando Rodrigues, entre outros, confirmados no Congresso da Abraji + João Domingos Araújo despede-se do Estadão-DF em grande estilo + Direito à informação vs. direito ao esquecimento