Aureliano Biancarelli

Aureliano Biancarelli trabalhou 30 anos em redação, a maior parte desse período no Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo. Prefere dizer que seu apego ao jornalismo começou ainda no ginásio, nos anos que frequentou o Ginásio Vocacional, em Americana, interior de São Paulo. Fez parte da primeira turma dos Vocacionais, em 1962, colégio fechado logo depois pelo regime militar por conta de sua ideologia “esquerdizante”. “Foi lá que aprendi a ler jornal”, ele diz. Hoje, aposentado das redações, faz reportagens como autônomo para algumas publicações.

Biancarelli nasceu em Borborema, interior de São Paulo, no dia 2 de março de 1950. Tem três filhos, Emiliano, vídeo-fotojornalista em São Paulo, Bruna, que trabalha com cinema em Londres, e Lorenza, psicóloga e pesquisadora em Paris. É casado com Rosangela Capozoli, também jornalista.

Biancarelli chegou a São Paulo em 1969 e no ano seguinte matriculou-se na Escola de Comunicações e Artes da USP. A ECA era um espaço privilegiado de debates e discussões políticas. Nas bancas coloridas – ele se recorda – os olhos brilhavam com as notícias e as capas, Realidade, Veja, Jornal da Tarde, Opinião, O Pasquim, que acabava de ser lançado. Nas ruas, um tempo de tensão e medo.

Nos últimos anos da escola, foi repórter estagiário no Diário de S. Paulo e Diário Popular. E por dois anos, trabalhou na gráfica do Estadão. Sua função era contar as linhas produzidas pelos linotipistas, o que lhe dava acesso às laudas “tesouradas” pelos censores instalados na redação.

Estagiário do Estadão, fez sua primeira viagem pelo Centro-Oeste descrevendo o abandono de um grupo Xavante às margens do rio Couto de Magalhães e cobrindo conflitos entre fazendeiros, grileiros e sem-terra.

Em 1973, último ano do curso na ECA, a Editora Abril iniciou seu primeiro curso de formação para jornalistas. Selecionado, Biancarelli esteve como estagiário em quase todas as publicações da editora, Placar, Quatro Rodas, Exame, as femininas, e Veja. Foi contratado como repórter de Veja, ainda sob o comando de Mino Carta.

Sua passagem por Veja foi marcada, entre outras reportagens, pela cobertura de uma das maiores tragédias vividas pela cidade, o incêndio do edifício Joelma em fevereiro de 1974. Quase 300 pessoas morreram no dia do incêndio, sem contar os que morreram depois e os feridos graves que logo foram esquecidos. Uma matéria feita por ele, duas semanas antes, mostrava que o incêndio do Joelma fora tão somente resultado da negligência dos órgãos responsáveis pela fiscalização dos edifícios. A matéria foi cortada pela censura.

Em 1976, então repórter de Veja, Biancarelli ganhou uma bolsa de estudos do governo francês para um curso de pós-graduação em jornalismo na Universidade Paris II, Nouvelle Sorbonne. O curso, além de aulas teóricas, pedia um trabalho de conclusão que foi dedicado à histórica e emblemática existência da revista Realidade. “Era só uma maneira de matar a saudade”, ele lembra.

Ao final do curso da Paris II, seguiram-se oito meses no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Jornalistas da Rue du Louvre (CFPJ), uma instituição de ensino para jornalistas profissionais com acesso a estágios nos principais veículos, Le Monde, Figaro, Liberation, Rádio France-Internacional, entre outros. O diferencial, ali, era o olhar para o Terceiro Mundo que os professores dedicavam.

Viver como jornalista free-lancer para publicações brasileiras naquela época era investir muito esforço – muitas vezes com custo financeiro – em troca de uma merreca de pagamento e alguma satisfação, relata Biancarelli. O telefone “quebrado”, que dava linha internacional sem engolir as moedas, era o único meio de falar com as redações e tentar “vender” eventuais pautas.

Biancarelli cobriu o Festival de Cannes para a Veja, em 1976, e fez outras reportagens para diferentes publicações. Foi com o semanário Movimento, dirigido então pelo jornalista Raimundo Pereira, que manteve uma correspondência mais frequente, embora inusitada, segundo seu relato. Exilados em vários cantos da Europa e do Norte da África, os brasileiros viviam a angústia da espera pela anistia que, àquela época, o governo parecia próximo a anunciar. Havia muito o que escrever de Paris, mas o Movimento não tinha dinheiro para nada. “Fizemos então um trato”, relata. “Eu e meu colega Alberto Villas escrevíamos as matérias e em troca o Movimento nos enviava 100 a 200 exemplares para distribuirmos. A ‘margem de lucro’ do jornaleiro era nossa. Foi assim que, durante meses, toda semana, um de nós tomava o ônibus até o aeroporto de Orly para retirar o pacote de exemplares depois de repetir a mesma história para os policiais desconfiados da alfândega.”

Escrevendo para o Movimento, em Paris, Biancarelli conta que teve a oportunidade de falar com muitos nomes que se juntavam no movimento pela anistia, Miguel Arraes, Leonel Brizola, o bispo dom Helder Câmara, Marcio Moreira Alves, alguns no exílio, outros de passagem. E foi pelo Movimento que teve o privilégio de acompanhar o Congresso Internacional pela Anistia no Brasil, realizado em Roma entre os dias 23 de junho e 1º de julho de 1979. Dois meses depois, em 28 de agosto de 1979, o então presidente João Batista Figueiredo promulgava a Lei da Anistia.

O encontro de Roma, onde se aprovou o manifesto “Apelo à Nação pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”, foi certamente o maior evento reunindo brasileiros exilados, relata Biancarelli. Centenas deles vivendo em países tão diversos como Suécia, Argélia, Cuba, nações da antiga União Soviética, França e quase todos os países da Europa, se encontraram em Roma. Ali estava a grande maioria dos nomes de oposição à ditadura, e quase todos os dirigentes da UNE durante o regime militar.

O percurso de volta ao Brasil ainda teve parada de quase um ano em Londres e Nova York, onde trabalhos como jornalista free-lancer eram ainda mais escassos. Mas foi nessas cidades – brinca Biancarelli – que galgou os mais altos postos no seu currículo de trabalho alternativo, chegando a garçom e preparador de pizza. Em 1982 estava de volta como “redator de férias” no Jornal da Tarde, cobrindo a guerra das Malvinas em meio à pilha de telex das agências. “Eu reencontrava o entusiasmo das redações e a qualidade do melhor jornalismo, mais bonito de se olhar e mais gostoso de se ler, que foi o JT”, relata. Por nove anos, foi redator de Internacional, repórter e chefe de reportagem de cidades.

Foi o “espírito” JT, que convidava para reportagens mais longas e a textos mais próximos do literário, que permitiu a produção de algumas matérias de destaque, conta Biancarelli. Uma delas foi Serra Pelada, em 1984, quando a maior mina de ouro a céu aberto do mundo abrigava cerca de 100 mil “formigas”. A grande maioria, retirantes do Pará e dos estados mais pobres do Nordeste, arriscando a vida em escadas altíssimas que balançavam com os sacos de 40 quilos de minério que equilibravam nas costas. Dormiam em barracos cobertos de plásticos e cercados de galhos. Uns poucos, os donos dos “barrancos”, se abrigavam em casas de alvenaria e levavam, nos seus helicópteros, seus médicos e cozinheiros particulares. Biancarelli relata que comprou um “terreno” de l cm x 1 cm – isso mesmo 1 cm2 — e com isso obteve a carteira de garimpeiro do Ministério das Minas e Energia. Por ironia, o barranco se chamava Malvinas. Passou 15 dias ao lado do “formigueiro humano”, dormindo com eles em barracos. O JT dedicou sua contracapa à série de reportagens, ao longo de uma semana.

Em outra reportagem, quando eram lembrados os 45 anos da bomba de Hiroshima, Biancarelli localizou cinco sobreviventes da explosão nuclear e reconstruiu com eles aquele dia 6 de agosto de de 1945. Diante de um mapa detalhado da cidade, com as ruas e as dezenas de pontes e canais, e com a torre da igreja ao centro, os sobreviventes relataram o amanhecer daquele dia, o café da manhã, a saída para o trabalho e o ronco dos aviões muito alto nos céus. Depois a tenebrosa escapada, arrastada, em meio a milhares de corpos.

Uma terceira reportagem, que nunca chegou a ser publicada, relatava as madrugadas de um plantonista no serviço CVV Samaritanos. Sem informar sua intenção, Biancarelli fez o treinamento e virou plantonista, atendendo uma madrugada por semana. Envolveu-se tanto, e emocionou-se tanto, que permaneceu ali por dois anos e não publicou nada. Apenas guardou seus blocos de anotações que acabou queimando, anos depois, ele relata.

Em 1989, Biancarelli foi para a Folha de S.Paulo onde ficou por 15 anos. Foi repórter, repórter especial de saúde e chefe de reportagem, sempre nos caderno Cidades ou Cotidiano. Desde o início, envolveu-se com um amplo leque de temas onde se destacavam a saúde pública em todas as suas manifestações, a violência nas cidades, os direitos humanos, das mulheres e das minorias, a diversidade de gêneros, a questão indígena, os acidentes de trânsito. No início dos anos 1990, toda vez que se fazia uma matéria sobre questões como sexo, droga, prazer, festa, depressão, morte, esbarrava-se no tema da Aids. Para onde quer que se olhasse, se enxergava a ameaça do contágio. No começo – relata Biancarelli –, era como uma névoa ameaçadora, mas que grudava apenas nos outros, estigmatizava os gays, as prostitutas, os promíscuos, os hemofílicos. Eram anônimos que não revelavam seus rostos nem suas histórias.

Biancarelli relata que, nessa primeira fase da epidemia, os poucos porta-vozes dos grupos que alertavam e pediam socorro, eram os únicos a mostrar a cara. Aí começou a morrer gente famosa, e a cada morte a doença assustava mais. Aos poucos – ele recorda –, a epidemia ganhou caras e nomes, as vítimas passaram a ser pessoas que tinham profissões, endereço, assinavam jornais e tinham visibilidade. As lideranças saíram às praças públicas exigindo medicamentos, cuidados e respeito. Biancarelli participou desse período como um dos jornalistas que mais escreveu sobre a Aids e seus personagens, para o jornal que mais reservou espaço para o tema. Quando, em 1996, chegou o coquetel de remédios que reduziria a mortalidade bruscamente, Biancarelli escreveu sobre um desafio impensado até então, mas não menos dramático: o que fazer agora, que não vamos mais morrer?, perguntavam os portadores do vírus.

Com autonomia para buscar suas próprias pautas, Biancarelli foi quem primeiro tratou uma série de temas até então secundários na mídia, de drogas ao parto natural. Acompanhou os primeiros processos de transexualização, tanto nas cirurgias dos órgãos como na alteração dos seus papéis, escrevendo sobre a crueldade do sistema e da sociedade para com essa população. Em várias reportagens – ele relata –, mostrou que muitas mortes de jovens por consumo de drogas, especialmente nas classes médias e altas, estavam relacionadas ao pânico espalhado pela polícia, medo que impedia os colegas das vítimas a buscarem ajuda.

Foi com esse material sobre cidade e saúde que Biancarelli escreveu em 2000 o livro “Cirurgia em Campo Aberto”. Segundo ele, o livro fez parte da coleção São Paulo Século 21, lançada pela Editora Brasiliense e que deveria prosseguir com dezenas de temas no estilo da coleção Primeiros Passos. Valendo-se de anos como repórter percorrendo a cidade e relatando suas misérias, Biancarelli fez um livro de reportagens que reúne, no seu trajeto, mães de santo, parteiras urbanas, a precariedade da assistência, a violência contra os mais fracos, o trânsito engarrafado que afoga a cidade e seus moradores.

Depois da Folha, que deixou em 2004 após resistir a 15 levas de demissões, os chamados ‘passaralhos’, Biancarelli fez uma série de trabalhos como jornalista free-lancer. Naquele mesmo ano, passou um mês em Moçambique onde produziu uma série de dez reportagens para o Ministério da Saúde. Segundo ele, a intenção era mostrar como governo e ONGs brasileiras vinham atuando naquele país. O resultado foi um relato dramático de uma nação onde a cada 100 moradores 20 estavam com HIV-Aids, sem acesso sequer ao AZT, a mais básica das drogas antirretrovirais.

Em 2006, Biancarelli passou seis meses percorrendo centros de tratamentos do câncer infantil para o programa Criança e Vida, da Fundação Banco do Brasil. O trabalho – relatado em livro — descreve a rede montada à época para diagnóstico e tratamento do câncer pediátrico sem que as crianças tivessem que deixar as regiões onde viviam.

Por um período em 2007, Biancarelli foi um dos editores no caderno Aliás, do Estadão. Uma de suas matérias relata a violência contra a mulher em Pernambuco, estado que à época registrava uma das maiores taxas de feminicídio do pais. A reportagem – segundo ele — foi escrita a partir do livro “Assassinato de Mulheres em Pernambuco”, editora Publisher, trabalho que o repórter fez para o Instituto Patrícia Galvão, depois de um mês de pesquisa em Recife e na Zona da Mata.

Biancarelli também trabalhou como jornalista e editor de publicações no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo de 2011 a 2016. Entre os livros que participou, como repórter ou editor, ele cita “Transtorno Mental e Perda de Liberdade”, de 2013; “Hospital de Custódia, Prisão sem Tratamento”, de 2014; “Bioética e Violência Contra a Mulher”, 2017, além de várias edições da “Demografia Médica do Brasil”.

Entre seus livros, ele ainda lembra “A Diversidade Revelada”, sobre o cotidiano de travestis e transexuais na cidade de São Paulo, de 2010. “Meu Ambiente – Projeto Ambientes Verdes e Saudáveis”, para o PNUD e a Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente sobre o treinamento de agentes de saúde em questões ambientais, de junho de 2009. “15 Anos na Promoção de Direitos”, sobre o papel e história das ONGs/Aids, de 2012.

Biancarelli cita ainda alguns dos seus textos publicados em revistas e livros. Entre eles, “O Trajeto da Aids Visto pela Mídia”, na Revista da USP, 1997. “Políticas Públicas para a Paz e Não Violência”, na  Revista Saúde para Debate, do CEBES, Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, junho 2006. “Cidades de Paz e Cidades de Guerra”, para a mesma Revista Saúde em Debate, de julho de 2005. E “Notícias dos Anos do Vocacional”, capítulo do livro “Ensino Vocacional, Uma Pedagogia Atual”, da Editora Cortez, de 2005.

Em 2018, Biancarelli fez reportagens em cidades paulistas e em regiões da Amazônia sobre programas de apoio ao desenvolvimento infantil. O material, colhido por vários repórteres “Amigos da Criança”, foi publicado no livro “Da Ciência à Prática”, organizado pela Cross Content com apoio da Fundação Bernard van Leer.

Sua reportagem mais recente, de novembro de 2019, foi capa da revista Globo Rural, pautada e escrita em parceria com seu filho Emiliano Capozoli. O título chamou a atenção,  “Quem tem medo da Cannabis?”, dizia. Voltada ao agronegócio, a revista Globo Rural surpreendeu ao destacar o uso terapêutico e industrial da maconha como uma nova e promissora commodity para o campo brasileiro.

 

Atualizado em janeiro/2020 – Portal dos Jornalistas