Emissoras públicas britânicas perdem interesse entre os jovens

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Na segunda-feira (2/3), quando o Reino Unido alarmava-se com a ameaça do coronavírus, a BBC exibiu em horário nobre um programa combinando retrospectiva, entrevistas com especialistas, repórteres entrando de vários pontos do país para explicar os impactos da crise e perguntas do público respondidas ao vivo por médicos. Exemplo notável do chamado PSB (Public Service Broadcasting) britânico.

O problema é que as emissoras que exibem conteúdo de interesse da sociedade estão perdendo cada vez mais terreno, principalmente entre jovens. Um relatório publicado semana passada pelo Ofcom, órgão regulador da mídia eletrônica, apontou sinais preocupantes, como a redução de 28% no tempo médio dedicado a esses canais pela turma entre 16 e 24 anos em comparação a 2014.

Small Screen, Big Debate – O estudo faz parte de uma revisão obrigatória que acontece a cada cinco anos, cabendo por lei ao Ofcom analisar se as emissoras PSB (BBC, ITV, Channel 4, Channel 5 e S4C) estão entregando conteúdo de qualidade em jornalismo, dramaturgia, programação infantil e temas contemporâneos. O nome escolhido para essa nova revisão, Small Screen, Big Debate, sinaliza o impacto das novas formas de consumir conteúdo sobre o futuro da TV de serviço, que em alguns aspectos estendem-se à TV comercial (veja a íntegra, em inglês)

O relatório mostra que os britânicos dedicam três horas por dia em média à TV, sendo que mais da metade aos canais PSB. A produção deles supera a das emissoras privadas e é um pilar da indústria criativa do país, demandando investimentos superiores a £ 2 bilhões ano passado.

A percepção de qualidade continua alta, com aprovação de 70%. Então, porque a queda na audiência? Para a entidade, a encruzilhada em que o PSB se encontra deve-se à mudança de hábitos decorrente da revolução digital e à concorrência com players que também entregam conteúdo atrativo, como SkyNews e Netflix.

O estudo reconhece os esforços das emissoras para se adaptarem a esse novo mundo, criando opções online e sob demanda. Mas aponta que não têm sido capazes de reverter a fuga, principalmente dos jovens. Quase 40% das casas britânicas disseram que não se veem assistindo TV convencional em cinco anos.

Os novos hábitos são observados em vários pontos do relatório. Um exemplo é o consumo de podcasts, que sobe conforme a idade cai: é de 4% entre pessoas acima de 65 anos; 12% na faixa 45-55 anos e chega a 20% entre a garotada de 15 a 25 anos.

A situação comercial também preocupa. Nos canais PSB que exibem propaganda, a receita caiu 3,8% em cinco anos. Na BBC, custeada por uma taxa obrigatória paga pelas residências, diminuiu 4%. Aumentou no país o acesso a conteúdo digital via plataformas como ITV Hub e BBC IPlayer, mas o salto de 65% no consumo sob demanda foi puxado, segundo o Ofcom, pelos canais como Netflix e pelo YouTube.

O trabalho feito pelo órgão é uma radiografia completa que pode ser tomada como referência sobre o comportamento da audiência diante das novas tecnologias, ainda que a situação das emissoras públicas no Reino Unido seja bem particular. A partir dos dados compilados, disponíveis no site do Ofcom, será feita uma consulta pública para compreender as expectativas da sociedade e embasar recomendações ao Governo sobre medidas para assegurar o futuro da TV de interesse público.

Impressos ladeira abaixo – As tendências observadas pelo Ofcom no mundo da TV repetem-se em outras formas de jornalismo afetadas pela tecnologia. Na semana passada, a entidade que afere a tiragem de impressos (ABC) anunciou queda de quase 2/3 na circulação em 20 anos.

Os 16 diários nacionais britânicos existentes em 2000 contabilizaram em janeiro daquele ano circulação total de 21,2 milhões de cópias.  Em dez anos o número de títulos aumentou para 17, e a tiragem caiu para 16,4 milhões. Em janeiro de 2020 os mesmos 17 jornais somaram 7,4 milhões de exemplares. Embora a redução reflita em parte a migração do impresso para o online do jornal, trata-se de uma realidade que merece atenção, pois a oferta digital hoje vai muito além dos 17 títulos.

O relatório do Ofcom destaca que o público vive uma era marcada pela “escolha e inovação sem precedentes”, e isso aplica-se não apenas à TV. Modelos editoriais e de negócio alinhados ao futuro vão determinar quem vai restar de pé ao fim dessa batalha.

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