Coronavírus: a batalha da (des)informação

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

O drama do coronavírus ainda não chegou ao Brasil com severidade equivalente à de outras nações. Mas os acontecimentos recentes proporcionam elementos para reflexões que podem servir de alerta caso a situação se agrave no País. E que se aplicam não apenas ao caso do Covid-19, mas igualmente a outras crises de vasto impacto na sociedade.

Saúde pública é uma das áreas mais afetadas pelas fake news desde que as redes sociais se consolidaram com fonte principal de informação para um número cada vez maior de pessoas. Uma doença nova virou prato cheio para teorias absurdas.

Mesmo em um país com nível educacional alto e imprensa sólida como o Reino Unido, multiplicam-se histórias falsas sobre a nova doença, como a da de que alho e água sanitária curam, ou de que sorvete pode causá-la. E bizarrices como a de que a culpa seria da tecnologia 5G ou do Bill Gates. Ou de que estamos vivendo uma guerra química.

A boa notícia é que em vez de assistir passivamente, o Governo resolveu agir, anunciando a criação de uma unidade destinada a monitorar mídias sociais, identificar boatos e esclarecê-los. Os alvos são as fake news criadas propositalmente para causar mal ou auferir ganho pessoal, político ou financeiro, e também as informações falsas disseminadas por pessoas que nelas acreditaram. Ambas são danosas, mas as primeiras podem ser enquadradas como crime.

Conscientes de seu papel, as plataformas digitais trabalham para neutralizar a imagem de vilãs. As buscas por “coronavirus” no Facebook e no Twitter levam agora aos canais do sistema público de saúde britânico, o NHS. Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, assumiu o compromisso de colaborar com medidas como propaganda gratuita para a Organização Mundial de Saúde divulgar mensagens sobre a doença e um esforço para remover rapidamente conteúdo falso a respeito do Covid-19.

Não é fácil. Um jornalista especializado em tecnologia da BBC fez uma reportagem apontando barbaridades. Uma delas foi um vídeo no YouTube postado por um ativista contrário à telefonia 5G demonstrando uma engenhoca russa que protegeria contra seus efeitos e contra o coronavirus. Ele tinha uma loja online ofertando produtos inacreditáveis como tendas e capas antirradiação. O YouTube retirou o video, mas maluquices semelhantes continuam circulando.

Os limites do pânico – O coronavírus colocou em pauta também o debate sobre como Governos e entidades de saúde devem alertar sem causar pânico. A diferença de tratamento do assunto pela imprensa tradicional e a diversidade de opiniões nas mídias sociais mostra que não há consenso sobre os limites entre adequado e exagerado. Um dos ataques que ganhou mais visibilidade nos últimos dias foi o do ator Hugh Grant, que disparou contra o que considera falta de ação do Governo em relação a pessoas que chegam da Itália.

Na semana passada a rainha Elizabeth, de 93 anos, virou manchete ao aparecer em uma solenidade usando luvas longas para entregar condecorações. A Comunicação do Palácio de Buckingham desmentiu a tese de medo da doença. Dias depois veio outra manifestação, confirmando que ela seguiria com seus compromissos normalmente, sob inspiração da célebre frase “keep calm and carry on”.

É de se pensar se nesse caso a mensagem de otimismo usada na Segunda Guerra se aplica, pois idosos que não mudem suas rotinas podem ficar mais vulneráveis.

Nas empresas o desafio é informar funcionários, dialogar com o público com seriedade sem provocar pânico, e principalmente ter um discurso consistente com a prática. Uma grande rede de academias britânica mandou e-mail aos associados recomendando uso de álcool gel para higienizar equipamentos e tapetes de ginástica. Só que não há álcool gel em todos os locais, e os intervalos entre as aulas não permitem que cada um limpe seu material antes de sair. Um tiro pela culatra.

O vírus já mostrou que é perigoso, não só pelas mais de 100 mil pessoas que contaminou, como também pelos milhões que deixa apavorados e confusos. Enquanto a vacina não é descoberta para resolver o primeiro problema, o bom jornalismo, as boas práticas das mídias sociais e comunicação eficiente das empresas assumem papel central como o melhor remédio para evitar o pânico e levar ao público informações corretas que podem ajudar a salvar vidas.

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