Concentração de jornais nas mãos de grandes grupos entra na pauta da campanha política

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Perto das eleições gerais que podem destravar o Brexit, tirar o Reino Unido da União Europeia e redesenhar o mapa do continente, o país respira política. E a compra do jornal “i” pelo grupo que edita o Daily Mail no dia 29 de novembro por £ 49,6 milhões virou tema da campanha e colocou em discussão a alta concentração da imprensa no país.

Tão logo a operação foi anunciada, Jeremy Corbyn, líder do partido Trabalhista, adversário do atual Governo, em mãos do Partido Conservador, protestou via Twitter: “Dois barões bilionários da imprensa agora detêm a metade dos dez principais impressos. Lembrem-se disso quando eles atacarem os planos do Partido Trabalhista para fazer os super-ricos pagarem a sua parte”.

O i é um jornal novo para os padrões do jornalismo britânico, dominado por marcas históricas. Nasceu em 2010 a partir do The Independent, que em seguida deixou de ser publicado em papel. Havia sido comprado pela Johnston Press em 2016 por £ 24 milhões, mas a empresa entrou em dificuldades e há um ano o jornal foi para as mãos de uma empresa criada para administrar seus bens, a JPMedia, que agora passou o título adiante.

A manifestação de Corbyn disparou uma sequência de comentários expressando a preocupação com a concentração. Oly Duff, editor do i, respondeu imediatamente assegurando que a imparcialidade será mantida.

O tempo dirá. Mas de fato a compra aumenta o poder dos grandes grupos sobre o que se lê no país. O grupo que adquiriu o i também é dono de Daily Mail, Mail on Sunday e do gratuito Metro. A compra eleva a circulação dos títulos em seu poder a 3,7 milhões de exemplares, consolidando-o como o de maior tiragem no Reino Unido.

Em seguida vem o News UK, do lendário empresário Rupert Murdoch, que supera os 3,2 milhões com The Times e The Sun e suas edições dominicais. O Reach está em terceiro, com pouco mais de 2 milhões, tendo como carro-chefe o Mirror. Lá atrás figuram o Telegraph Media Group, dos irmãos Barclay, com quase 550 mil exemplares, o Guardian, com 288 mil, e o Financial Times, do Nikkey, com 168 mil.

O visconde discreto – O termo “barão da imprensa” não é figura de linguagem.  O novo dono do i é mais do que um barão, na hierarquia da nobreza.  Ele é Jonathan Harmsworth, 4º visconde de Rothermere, herdeiro do império iniciado pelo bisavô, Harold Sidney Harmsworth, fundador do Daily Mail no século 19. Nasceu em 1967, estudou História na Universidade Duke, nos Estados Unidos, e mantém um estilo discreto, oposto ao de seu concorrente Murdoch.

Em um perfil escrito há três anos por Peter Preston, colunista de mídia do Guardian – falecido em 2018 –, Lord Harmsworth é apontado como um dono que não interfere nos jornais, dando liberdade aos editores. O artigo destaca que títulos do grupo mantiveram posições opostas sobre o Brexit. A aquisição foi bem recebida pelo Sindicato, já que assegura a manutenção dos empregos, ameaçados quando os antigos proprietários enfrentavam dificuldades.

Campanha quente, imprensa na berlinda – Mas essa não é a única controvérsia envolvendo a imprensa durante a campanha política aqui. Decisões editoriais têm desagradado a gregos e troianos.

A BBC teve que se desculpar por ter cortado risos e aplausos da plateia em um trecho da cobertura do debate eleitoral em que o primeiro-ministro Boris Johnson ouvia uma pergunta sobre a importância de falar a verdade na política. A edição foi considerada imprópria porque a expressão do público era relevante no contexto.

Também o Channel Four foi alvejado por reclamações no Ofcom, órgão regulador da imprensa, ao substituir o primeiro-ministro e o líder do partido Brexit, Nigel Farage, por esculturas de gelo no debate sobre mudança climática a que ambos se recusaram a comparecer. O Partido Conservador chegou a dizer ao BuzzFeed que revisaria a licença do canal. Vai ser difícil, pois a reclamação não foi acatada pelo Ofcom.

Mas os partidos políticos também têm dado a sua contribuição para a controvérsia. O Conservador, comandado pelo ex-jornalista Boris Johnson, teve sete anúncios retirados do ar pelo Facebook por utilizarem clipes de profissionais da BBC sem autorização, entre eles a popular editora de política Laura Kuenssberg.

Os trechos pinçados pelo partido mostravam falas verdadeiras sobre a confusão do Brexit, que foram ao ar no jornalismo da emissora. Ao final entrava a mensagem do partido: “Acabe com o caos no Parlamento, vamos fazer o Brexit”, dando a nítida impressão de que a jornalista havia gravado para a peça publicitária.

Nem o moderninho Liberal-Democrata, que se opõe ao Brexit e tem uma líder de 39 anos, escapou da polêmica. Ele foi um dos que produziu material de campanha simulando capas de jornais regionais, provocando severas críticas da News Media Association, que congrega os veículos. Jo Swinson, candidata do Lib-Dem, defendeu a prática argumentando que é “antiga como as montanhas”. Mas o CEO da organização, David Dinsmore, discordou do que classificou como tentativa de enganar o eleitor utilizando a credibilidade dos títulos.

Em tempos de alta polarização, não está fácil ser editor nem marqueteiro de campanha por aqui.

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