Caldeira e a rodoviária

Por Marco Antonio Zanfra

Os mais antigos devem se lembrar de que nem sempre a rodoviária de São Paulo funcionou naquele trecho da Marginal, junto à estação Portuguesa-Tietê do Metrô. Os mais antigos devem se lembrar também de que, durante muito tempo, Otávio Frias de Oliveira não foi o único dono da Folha de S.Paulo.

O que une esses dois pontos é que Carlos Caldeira Filho, o proprietário do prédio onde funcionava a antiga rodoviária da Capital, era também o sócio de seu Frias no jornal.

Carlos Caldeira Filho

Caldeira chegou a ser prefeito de Santos. Era uma figura excêntrica, espaçosa, de risada larga. Seu escritório na empresa funcionava na cobertura do prédio 401 da Barão de Limeira, e ele mandou montar ali uma pequena amostra da Mata Atlântica, com araras e outras aves igualmente barulhentas. Seu tamanho e suas extravagâncias contrastavam com o físico modesto e o semblante sisudo do velho Frias.

A antiga rodoviária, com 19 mil m2 (um sexto do tamanho da do Tietê), funcionava na avenida Duque de Caxias. Fazia frente para a rua Barão de Piracicaba e para a praça Júlio Prestes. Por ser encostado ao centro da cidade, o terminal era o sonho de todo masoquista em época de feriadão: o trânsito parava, os ônibus saíam às vezes quatro ou cinco horas depois do horário marcado, os espaços ficavam todos tomados, os batedores de carteira faziam a festa.

Era impraticável. A premente e necessária descentralização dos embarques e desembarques começou a partir da inauguração do Metrô, em 1976. A primeira sangria da rodoviária da Luz foram os ônibus para o Litoral, transferidos ao Terminal Jabaquara. O Terminal Tietê começou a ser construído em 1979 e foi inaugurado em 8 de maio de 1982, quando Maluf era governador do Estado.

Mas Caldeira não dava o braço a torcer: o que ele faria com um terminal rodoviário onde não circulariam mais ônibus, onde não haveria mais embarques e desembarques? “O que eu vou fazer com os bidês que mandei instalar nos banheiros femininos?”, perguntava, choroso. “Monta um lava-rápido”, sugeriu Paulo Cerciari, à época repórter fotográfico do Diário Popular, lembrando a grande atividade de lenocínio na região.

E então ele tentou usar a força do jornal para desmerecer a nova rodoviária. Eu mesmo fui uma vez, pouco antes da inauguração, procurar aspectos negativos na obra, conversar com quem criticasse o empreendimento, mostrar que talvez tivéssemos ali tão-somente um verdadeiro elefante branco. Não sei se Caldeira pensava que nossas críticas fariam o governo mudar de ideia, cancelasse a inauguração e mantivesse os ônibus no exíguo espaço da antiga rodoviária. Mas podemos ver que não: 38 anos depois, o Terminal Tietê continua lá, a rodoviária antiga chegou a virar um shopping têxtil, mas hoje só restaram as lembranças.

Sei que, no dia em que saí da redação com a missão de pôr abaixo o Terminal Tietê, não arrumei muito o que escrever: algumas poucas opiniões contrárias, alguns operários queixando-se das condições de trabalho, algum desleixo em alguns aspectos do acabamento. Escrevi um texto longo, porém, e subi com o chefe Adílson Laranjeira ao escritório do Caldeira, para mostrar o trabalho.

A sorte foi que Adílson, com insuspeitada capacidade dramática, usou o tom certo para ler a matéria: deu a entonação crítica pedida, as ênfases necessárias, o sabor sarcástico em alguns trechos… enfim, ele não leu, mas “interpretou” o texto. Refestelado na poltrona, Caldeira ria de satisfação. E assim, graças a Adílson Marques Laranjeira, a matéria xôxa tornou-se capa.

Carlos Caldeira Filho morreu alguns dias depois de o Terminal Tietê completar 11 anos de vida. Não tive mais contato com ele depois daquele dia, mas tenho certeza de que, mesmo perdendo sua rodoviária, graças à leitura do Adílson ele ficou com a impressão de que eu lutara bravamente para que isso não acontecesse!

Marco Antonio Zanfra

A história desta semana é novamente de Marco Antonio Zanfra, que atuou em diversos veículos na capital paulista, entre eles Folha de S.Paulo, Agora, revista Manchete, Jornal dos Concursos, Folha da Tarde e Diário Popular, e, em Santa Catarina, foi editor em O Município (Brusque) e em seguida no Jornal de Santa Catarina (Blumenau). Em Florianópolis, onde reside, trabalhou em O Estado e A Notícia, na assessoria de imprensa do Detran e do Instituto de Planejamento Urbano, além de ter sido diretor de Apoio e Mídias na Secretaria de Comunicação da Prefeitura.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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