Bruno Thys e Luiz André Alzer relatam “Algoritmos ainda não contam histórias”

Luiz André Alzer e Bruno Thys

Luiz André Alzer Bruno Thys 

Desde que abrimos a editora Máquina de Livros, há menos de dois meses, alguns fatos têm-nos chamado a atenção. O aquecimento do mercado de conteúdo é um deles. Poucos dias após o lançamento de nosso primeiro título, “A Farra dos Guardanapos”, de Sílvio Barsetti, já havíamos sido procurados por três produtoras e uma empresa de licenciamento, interessadas em adquirir os direitos do livro para filme e série. Esta semana fechamos com a produtora Escarlate e a previsão é a de que, em no máximo dois anos, a “Farra” esteja nos cinemas. Outra questão interessante é a quantidade de colegas jornalistas que nos contatam com livros para a publicação.

Ambas são boas surpresas. A editora foi desenhada a partir do conceito do livro como um “hub”, em que o conteúdo seja compatível com os demais meios e possa, a exemplo da “Farra”, ser roteirizado para cinema, TV, teatro… Não imaginávamos, porém, que o interesse fosse tão grande e ainda mais por conteúdo de não ficção: reportagens, biografias, etc., que são a nossa praia. Há claramente uma forte expansão da indústria do audiovisual, a despeito de crises, aqui e no mundo. O crescimento do mercado no Brasil vem dobrando em intervalos cada vez menores e hoje movimenta algo em torno de R$ 50 bilhões, o que fica evidente, sobretudo, na quantidade e na qualidade de produções para cinema, TV e internet.

Não é por outra razão que nosso primeiro livro tenha estado no centro de uma disputa já no momento em que chegava às livrarias: a matéria-prima da indústria audiovisual é o conteúdo. A base de toda a engrenagem são histórias reais ou não, edificantes, tristes, emocionantes, instigantes, inspiradoras…

Assim, não deixa de ser alentador o fato de encontrarmos tantos jornalistas com livros prontos. Nos chamou a atenção também o fato de todos, com raríssimas exceções, serem de poesias, contos ou romances, gêneros, portanto, fora do escopo da Máquina de Livros. Aliás, vale a ressalva: atuamos no chamado segmento de não ficção por pura deformação profissional. Como jornalistas nos tornamos dependentes do conteúdo produzido pela realidade e dela extraído.

Não cremos, porém, que todo jornalista seja um candidato a ficcionista. A explicação para isso reside no fato de o espaço destinado à realidade ter estado circunscrito a jornais, revistas, rádios e TVs. Ninguém imaginaria fazer uma reportagem por conta própria, sem ter onde publicá-la. O mesmo vale para um perfil ou uma biografia. É natural, assim, que para a maioria de nossos queridos colegas o livro represente uma alternativa ao que não cabe nos ambientes jornalísticos: o conto, a novela e a poesia, que compõem o chamado segmento de ficção.

Mas não é novidade que a publicação de um livro de contos ou de poesia, da forma convencional – via editora, com tiragem parruda e distribuição em grandes redes de livrarias –, seja tarefa simples. Ao contrário. Uma das principais dificuldades é a concorrência: as prateleiras das livrarias estão repletas de títulos nacionais e estrangeiros. A notícia nova é que há uma crescente demanda dos mercados editorial e audiovisual por conteúdos de não ficção, isto é, por algo que os jornalistas sempre fizeram: produção de conteúdo a partir de fatos reais.

A realidade é um inesgotável manancial de conteúdo. Não há um dia sequer em que não nos deparemos com duas ou três histórias que renderiam bons livros. Nesse sentido, nossa tarefa se limita a enxergar os fatos a serem trabalhados inicialmente em formato livro. Na certidão de nascimento de nossa editora fizemos questão de registrar que o livro é o começo e não o fim do caminho. A estante é o lugar do livro físico, mas ele deve caber em tela do computador, de cinema, no celular, no iPad, em áudio, em auditórios de universidades, em salas de aula e por aí vai.

Nesse sentido, nossas primeiras experiências no mercado de conteúdo editorial mostram que poucos profissionais estão tão aparelhados para atender a esta multiplicidade de demandas como os jornalistas. Não é exercício de futurologia, mas uma mensagem que nos é enviada pelo presente: nesses tempos em que a inteligência artificial faz seu debut e se apresenta como a panaceia do mundo, o simples exercício de apurar e contar uma boa história tende a se valorizar cada vez mais.

De fato, o fechamento de redações e o enxugamento das equipes, com cortes de pessoal aqui e ali, podem representar o fim de uma estrada, mas não do caminho. O mercado tem “manchetado” que há novos e desafiadores trajetos para quem domina os fundamentos da atividade: enxergar, apurar e escrever histórias.

Portanto, encontrar o mercado de conteúdo em franca expansão e jornalistas que já escrevam ficção é um alento para quem, como nós, aposta na indústria de conteúdo e busca gente disposta a trabalhar em não ficção. Basta mostrar que não é necessário fugir da realidade para reencontrar espaço no mercado. Há demanda por boas histórias extraída da realidade; há novas formas de financiamento –associação a produtores e investidores, crowdfunding, pré-venda, para citar apenas alguns deles – e, claro, de retorno financeiro.

Até onde se sabe, os algoritmos não contam histórias. Ou ainda não aprenderam a contá-las da forma que nos habituamos a absorvê-las. Assim, a boa notícia é que, num mundo em acelerada transformação, esta segue sendo uma tarefa exclusivamente humana e muito valorizada.

1 comment

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  1. GUSTAVO HORTA RAMOS

    Excelente texto (comme il faut). A aventura editorial do livro como hub faz sentido. E o Brasil de hoje já é quase ficção, então basta retirar a história da vida e devolve-la para a vida, num texto bem cuidado. Vida longa à Máquina.

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