A importância da comunicação na crise da pandemia

Crédito: Charles Deluvio/Unsplash

Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

Em 14 de janeiro de 2020 a Organização Mundial de Saúde tuitou que “investigações preliminares de autoridades chinesas não encontraram evidências de transmissão do novo coronavírus identificado em Wuhan entre humanos”. Um ano e quase 2 milhões de mortes depois, é hora de avaliar os danos da maior crise da história recente à imagem das nações.

A consultoria britânica Brand Finance antecipou a resposta a uma das questões que farão parte de sua próxima avaliação do soft power (poder de influência externa dos países):a percepção entre pessoas comuns e audiências especializadas (jornalistas, acadêmicos, ONGs) em mais de 100 países sobre como a pandemia vem sendo gerenciada.

O trabalho confirma princípios da  comunicação de crises, como o valor da transparência e da boa reputação prévia para atenuar o efeito de adversidades. Em primeiro lugar na visão do público vem a Nova Zelândia, com +43 pontos. Em último, os Estados Unidos, com -16. Entre o público especializado, a Alemanha lidera.

O Brasil saiu-se mal. Figura em 103º diante do público global, com -14 pontos, mas à frente de Índia e EUA. Os três têm grandes populações e aparecem no topo da lista de casos da doença, o que ajuda a criar impressão negativa.

Já na opinião de especialistas ficou em 30º dentre os 30 países avaliados. Nesse caso, os números absolutos que assustam gente comum não contam tanto, pois são pessoas com acesso a elementos para embasar o julgamento.

A China ficou em 36º na lista da população geral e em 14º na dos especialistas. São efeitos com potencial de influenciar investimentos, turismo e relações internacionais bom um bom tempo.

Instituto Reuters: políticos não são as melhores fontes

A Covid não é um desafio de comunicação só para a imagem externa das nações. Depois de quase um ano de pandemia, aumenta a dificuldade de convencer o público a manter o isolamento e a aceitar a vacina, resultado de mitos associados à imunização e negacionismo da doença.

O Instituto Reuters para Estudos do Jornalismoconsolidou em um relatório o que se aprendeu em 2020 a partir das pesquisas sobre a relação do público com as notícias. Há boas reflexões para jornalistas e comunicadores no momento empenhados em conscientizar o público, como a necessidade de usar múltiplas plataformas, o risco da fadiga de notícias e as desigualdades no consumo de informações.

O estudo sugere evitar políticos como fontes. E recomenda valorizar os grupos que emergem como altamente confiáveis e percebidos como capazes de ajudar a entender a crise, como autoridades de saúde, cientistas e médicos.

Idosos, a arma para conquistar a confiança na vacina

A julgar pela experiência de três países europeus, idosos devem ser acrescentados à lista. Na Itália, pessoas com mais de 100 anos têm sido destacadas pela imprensa para endossar a imunização. Uma delas é Fiorina Fiorelli, de 107 anos, cujo nome remete ao símbolo da campanha do governo, a flor prímula, que marca o início da primavera e lembra renascimento.

A lúcida senhora sobreviveu a duas guerras e à Gripe Espanhola. Vacinou-se no primeiro dia de 2021, presente antecipado para o 108º aniversário, nesta quarta-feira (13/1).

Na França, onde o índice dos que declaram intenção de se vacinar é de 40%, a primeira pessoa a se vacinar no país, dona Mauricette, de 78 anos, inspirou a personagem Chez Mauricette.

A ideia partiu de Karl Olive, ex-repórter esportivo e prefeito de Poissy, onde foi instalado o primeiro centro francês de vacinação contra a Covid, batizado com o nome da super-heroína. Ela  aparece em cartazes e banners e conquistou as redes sociais.

No Reino Unido é fácil adivinhar o símbolo. No sábado passado foi divulgada a notícia de que a rainha Elizabeth, de 94 anos, e o príncipe Philip, de 99, tinham sido imunizados, em uma rara exposição de assuntos dessa natureza pela família real.

Um incentivo importante no país que viu incidência e mortes por Covid dispararem nas últimas semanas e enfrenta uma onda de negacionismo, com gente fazendo protestos diante de hospitais. A sabedoria dos idosos nunca foi tão necessária.


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