Tarcísio Holanda (1937-2020)

Tarcísio Holanda

Por Eduardo Brito

O já experiente repórter Tarcísio Holanda recebeu uma difícil missão do diretor de Redação do Jornal do Brasil, Alberto Dines, nos tensos dias que se seguiram ao sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, no período mais sombrio da ditadura militar.  Cabia a Tarcísio comunicar ao comando das Forças Armadas que o Jornal do Brasil esperava que seu repórter Fernando Gabeira, participante da operação, não fosse assassinado na prisão. Tarcísio foi o escolhido por uma razão essencialmente profissional: vinculado à Editoria de Política, não cultivava apenas as fontes parlamentares de sempre, mas costurara informações nos poderosos meios militares. Tarcísio cumpriu a missão acionando o coronel José Lopes, assessor direto do ministro do Exército, Lyra Tavares. Preso pela Marinha, Gabeira sobreviveu, como sabemos.

Foi esse trabalho intenso, permanente, industrioso de repórter que deu nome a Tarcísio Holanda. Nos anos de chumbo isso lhe valeu informações preciosas, embora nem sempre publicáveis. Foi o primeiro jornalista a saber como foi a morte do ex-deputado Rubens Paiva, preso no DOI-Codi e torturado para que revelasse como se conseguia contrabandear perseguidos políticos para o exterior. Um dos interrogadores deu um soco na cara de Rubens Paiva. Homem fortíssimo, o deputado revidou com um soco ainda mais forte. Foi agredido e espancado, a socos e pontapés por sete ou oito torturadores. Até morrer. No mesmo dia, o ministro do Exército, Orlando Geisel, foi esperar o presidente Emílio Médici na Base Aérea de Brasília. Quando Médici desceu do jatinho da FAB, Orlando estava ao pé da escada. Disse ao presidente: tenho má notícia. Contou o ocorrido. Médici acendeu um cigarro e disse apenas: “Morte em combate, né, Orlando?”. A partir daí, sempre que se referia ao general Orlando Geisel, Tarcísio fazia um gesto de gatilho com o indicador e completava: “Ele é que liberava para executar”.

Essa informação foi obtida por Tarcísio, a duras penas, do único parlamentar que conversava com os irmãos Geisel, o truculento senador Vitorino Freire, do Maranhão. Foi assim que Tarcísio se tornou um dos mais bem-informados jornalistas do País: cultivava dia e noite suas fontes. Era comum que ligasse tarde da noite para o idoso general Cordeiro de Farias e, se atendesse imediatamente, brincava: “Acordado! Só pode estar conspirando”.

Essa foi a marca de Tarcísio desde o início da carreira, no Ceará natal. Trabalhou em vários jornais, inclusive como chefe de Reportagem da Gazeta de Notícias. Filiado ao pequeno PSB, mas próximo ao clandestino PCB, foi perseguido até receber do supervisor do seu último emprego em Fortaleza, um pequeno jornal ligado à Igreja, a informação de que não tinha mais espaço por lá. Culpou sempre dois caciques políticos locais, Armando Falcão, do PSD, e Virgílio Távora, da UDN. Isso não impediu que duas décadas depois, ambos se transformassem em fontes suas.

Seguindo uma rota comum aos jornalistas do Nordeste, o chamado ciclo da jangada, Tarcísio seguiu para o Rio. Amigos do Partidão arranjaram-lhe um emprego na Última Hora. Em pouco tempo, porém, ele já trabalhava também em outro jornal, depois em um mais, acúmulo comum nessas épocas de grande demanda e magros salários. Finalmente chegou ao Jornal do Brasil, sonho de todo jornalista na época.

Era amigo de todo jornalista do Rio e, com sua mulher Dayse, costumava abrir a casa aos sábados para uma feijoada frequentadíssima. Também teve sua primeira experiência na televisão, no Jornal de Vanguarda. Apaixonou-se pelo novo veículo. Mas tinha a percepção acentuada de que não era mais por lá que se fazia jornalismo político.

O ciclo da jangada era inevitável para todo bom jornalista e, na sua vertente política, Tarcísio seguiu para Brasília, sempre pelo Jornal do Brasil e sempre como uma referência no setor. Passou também a ser uma das principais estrelas de um programa televisivo ousado, o Abertura, que ia ao ar na Rede Tupi, aos domingos. Por aproveitar com competência o fim da censura, o programa tornou-se um marco. Tarcísio virou uma espécie de algoz de parlamentares e autoridades. Suas entrevistas com o senador e depois ministro Petrônio Portela eram atrações à parte. Infelizmente – e previsivelmente –, Abertura durou pouco.

Tarcísio deixou o Jornal do Brasil, foi para o Correio Braziliense e colaborou com outros jornais. Na TV Brasília, vinculada ao Correio Braziliense, mas integrada à Rede Manchete, criou o Telemanhã. Era conhecido como o Bom Dia Brasil da Manchete. Estive ao lado dele nos oito anos de duração do programa, frequentadíssimo por personagens de todos os matizes. Leonel Brizola exigia, quando ia a Brasília, participar do “programa do Tarcísio”. O mesmo fazia D. Helder Câmara. Quando a Rede Manchete se esgotou, Tarcísio passou a fazer um programa semelhante, de entrevistas, na TV Câmara, da Câmara dos Deputados.

No meio jornalístico era conhecido pelo ritmo alucinante de trabalho e pela atenção que dava aos colegas. Com os focas, era de uma generosidade comovente. Ajudava os mais novos no que podia. Poucos sabiam de sua cultura, Tarcísio tinha lido tudo, do Capital a Proust. Tinha os seus preferidos, como Stendhal, mas raramente mostrava esse seu lado livresco, escondido na sua eterna correria atrás da notícia.

Não trabalhou até o último dia de sua vida, mas quase. Ainda fazia suas entrevistas na TV Câmara quando teve o diagnóstico de Alzheimer. Foi preciso Dayse interferir para que enfim se aposentasse, já chegando aos 80 anos.

José Tarcísio Saboia de Holanda morreu tranquilo, dormindo, na manhã de 21 de fevereiro de 2020.

Eduardo Brito

Eduardo Brito, ex-Estadão, Jornal do Brasil, Correio Braziliense e Jornal de Brasília, manda um texto em homenagem a Tarcísio Holanda, falecido em 21/2 (veja na capa)

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