Embora não se possa dizer que o mercado editorial esteja em seus melhores momentos, onde menos se esperava um corte relevante de pessoal ele aconteceu – no jornal Valor Econômico. Foi em 23/5, quando a empresa realizou um corte de 50 pessoas, atingindo um pequeno grupo de profissionais experientes e antigos na casa e um número maior de profissionais mais jovens, chegados mais recentemente ao jornal. Decisão penosa e que teve origem fora, nos acionistas (Grupo Folha e Organizações Globo), que consideraram necessário um corte nas despesas. A empresa, possivelmente diante de ter de comunicar uma iniciativa que ela, por si própria, não teria tomado, mostrou-se constrangida e, com isso, acabou fazendo o que condenaria de forma veemente em suas fontes: não quis falar, limitando-se a encaminhar, por sua assessoria de imprensa, um curto comunicado: “Com o objetivo de se adequar aos desafios do futuro, o Valor Econômico fez um ajuste em sua estrutura. Tal ajuste foi desenhado de modo a ter o menor impacto possível tanto em seu quadro de funcionários quanto em suas operações”. No caso, esse menor impacto foi um corte de 20% da força de trabalho editorial da empresa, que tem agora 200 dos 250 profissionais que empregava até o final de abril. Na comparação com o início de 2012, no entanto, o saldo é positivo, pois a empresa havia contratado nesse quase um ano e meio quase cem jornalistas para o seu novo projeto Valor-PRO. Com investimentos próprios da ordem de R$ 100 milhões, o Valor-PRO, lançado com algum atraso neste início de ano, é um projeto estratégico da empresa. Ele a coloca num negócio –terminais dedicados e focados no mercado de capitais, abastecidos com informações em tempo real – hoje dominado por Broadcast, da Agência Estado, e que tem como outros players Bloomberg e Reuters, em menor escala, com chances de alcançar a liderança em alguns anos. Essa é, aliás, a aposta da empresa, que há anos se viu estimulada por Globo e Folha a estudar sua entrada no negócio. A pressão maior viria da Folha, que, com sede em São Paulo, acompanhava de perto o sucesso da Broadcast, sob a égide do Grupo Estado. O desafio: ora, se o Valor Econômico é o maior jornal de Economia do País, tem grande credibilidade, é respeitado e conta com fontes e entradas em todos os segmentos empresariais e nas principais instituições econômicas do País, por que razão não investir nessa área, que tem tudo a ver com o seu foco de atuação, e enfrentar um concorrente que, apesar de fortíssimo, não tinha a mesma extensão setorial, nem o mesmo DNA de Economia? Questão segunda: o jornal precisava diversificar suas receitas e desse modo diminuir sua dependência – ainda muito grande – da publicidade legal, cuja obrigatoriedade, ainda em vigor, pode acabar de uma hora para outra, levando ao colapso quem dela depende. Pressionado a entrar num negócio que se mostrava não só estratégico como vital para sua sobrevivência, o Valor Econômico decidiu estruturar o Valor-PRO. Havia uma desvantagem em relação ao Grupo Estado, pois este, através da Agência Estado, comprara a Broadcast em 1991, já com uma base tecnológica desenvolvida e grande aceitação no mercado. Com a aquisição, ela passou a fornecer aos clientes, além das cotações em tempo real, informações e análises que tinham impacto direto sobre a lucratividade dos seus negócios. No caso do Valor, que começou praticamente do zero, o desenvolvimento consumiu mais de três anos e houve muita turbulência no campo da tecnologia. Isso levou a empresa a adiar por pelo menos duas vezes o lançamento, arcando com os prejuízos daí decorrentes. Tudo poderia ser minimizado se a operação comercial fosse um sucesso retumbante, o que não ocorreu. Por ser um serviço relativamente caro (cerca de R$ 1.000 por terminal) e dominado por uma empresa de tradição, a conquista de mercado, sobretudo num cenário de crise, requer tempo, obstinação e mais investimentos. Líder, a Broadcast também não está dormindo de touca e se pôs em movimento. Esta semana mudou-se para o 6° andar do prédio do Grupo Estado, integrando-se à equipe de Economia do jornal. Até então uma operação independente, passa agora a atuar de forma integrada e em sinergia com o próprio jornal. No caso do Valor, o projeto já nasceu integrado, pois todo o conteúdo editorial gerado por seus jornalistas abastece simultaneamente três plataformas: o jornal Valor Econômico, o site Valor Online e a plataforma Valor-PRO. O corte de 2003 – Vale recordar que o jornal fez um outro grande corte de pessoal em 2003. À época, ele foi da ordem de 50%. O Valor tinha 150 profissionais e de um dia para outro passou a ter 75. Quais as diferenças para 2013? A primeira é que há dez anos o jornal atravessou um difícil momento econômico, do mesmo modo que as Organizações Globo, e precisava cortar custos para sobreviver com suas próprias forças, pois já não contava com aportes de seus acionistas. A segunda é que o único concorrente, a Gazeta Mercantil, já estava em acentuado processo de decadência, permitindo que mesmo com uma equipe reduzida pela metade o Valor ampliasse seu domínio e sua liderança no mercado. Muito diferente de agora, em que o jornal, mesmo com boa situação econômica, vê-se diante do desafio de cortar custos para fazer frente aos novos investimentos necessários, e enfrenta um concorrente muito mais forte do que aquela Gazeta Mercantil de 2003. Ante a iminência de ter de fazer cortes na equipe, a diretora de Redação Vera Brandimarte e seu estafe editorial decidiram que, como em 2003, buscariam preservar a inteligência e a experiência, particularmente dos núcleos editoriais mais estratégicos para suas três plataformas. Sabia-se que praticamente todos teriam de entrar no sacrifício, dada a extensão do corte, mas a ideia era evitar ao máximo perdas significativas de qualidade e produtividade nas editorias-chave. Vera, pelo que apurou J&Cia, reuniu-se com a equipe na 2ª.feira (27/5) para falar das razões do corte e para dizer que eles cessaram. Falou que os profissionais demitidos não serão substituídos e que, em havendo oportunidade, a porta estará aberta para todos. Foi uma conversa difícil, com momentos de visível emoção, como relatou um dos presentes. Vera, como se sabe, é a grande fiadora desse projeto e nele está desde o início, primeiro como adjunta de Celso Pinto, e, com a doença deste, que completa dez anos – em maio de 2003 –, como diretora editorial. Decididos a antecipar o break even do Valor-PRO para antes do final de 2014, como era inicialmente a ideia, e a garantir receitas para fazer frente aos investimentos que virão e às eventuais quedas de receitas da publicidade legal, os acionistas decidiram agir preventivamente no sentido de reduzir o patamar de despesas da empresa. Além de ainda não estar na “ponta dos cascos” com a tecnologia, o que obviamente impacta a geração de receitas do projeto, a empresa sentiu um primeiro baque na publicidade legal: uma nova instrução desobriga empresas de fora do eixo Rio-São Paulo a fazer anúncios em jornais de circulação nacional e as autoriza a fazer em veículos locais. Com isso, no caso do Valor, a estimativa de perda de receita em 2013 é da ordem de R$ 10 milhões, volume considerável mesmo para uma empresa que fatura mais de R$ 100 milhões por ano. Mudança conceitual – A chegada do Valor-PRO provocou uma mudança cultural enorme no modus operandi do Valor Econômico, como explicou um integrante da equipe a J&Cia. Lá atrás, quando foi fundado, e nos anos seguintes, sem ter equipe numerosa em condições de acompanhar a infinidade de temas do cotidiano, o jornal fez a opção de cobrir prioritariamente assuntos exclusivos. Temas coletivos, a menos que tivessem importância capital, não eram foco da redação, eram simplesmente descartados. Com o Valor-PRO isso mudou radicalmente, pois todas as informações, commodities ou não, vindas por releases ou quaisquer outros meios, interessam aos operadores, pelo impacto que podem gerar no mercado de capitais. Com isso, a empresa viu-se obrigada a rever sua cultura e, mais do que isso, a ampliar substancialmente a equipe, para dar conta da brutal elevação de informações com que passou a trabalhar. As contratações vieram, os treinamentos foram feitos, a empresa chegou até a criar um curso de jornalismo especializado para identificar novos talentos (500 inscrições, 40 selecionados e ao final do curso cerca de 20 contratações) e agora cuida de consolidar esse seu novo jeito de enxergar as informações. Em princípio, tudo o que é informação com algum potencial econômico tem lugar numa das três plataformas. Baixas em SP, RJ e DF – Deixaram a equipe paulista do jornal, entre outros, Cristine Prestes e Paulo Totti (repórteres especiais), Cândida Vieira e Edson Pinto de Almeida (editores-assistentes dos Produtos Especiais, que eram frilas fixos), Conrado Mazzoni (editor de Finanças do Valor Online), Maria Christina Carvalho (editora de Opinião), Carlos Motta (editor-assistente de Nacional), Rodrigo Uchoa (editor da Blue Chip), Moacir Drska (da editoria de Tecnologia), Renato Brandão (editor de Arte), Ana Fernandes (repórter de Indústria) e Nádia Rodrigues (revisora e que cuidava também do controle de qualidade dos textos do jornal), além do economista Edgar Kanamaru e dos fotógrafos Daniel e Régis. Também saíram, a pedido, o repórter de Consumo Alberto Komatsu e a sub de Política Ana Paula Grabois. Quem também saiu foi Suzi Katzumata ([email protected] e 11-99685-0547), que participou da elaboração do projeto de cobertura de mercado financeiro internacional do Valor-PRO e foi editora-assistente (também em Internacional). Antes do Valor, Suzi esteve por 11 anos no Estadão, no qual igualmente atuou como editora-assistente de finanças internacionais. No Rio de Janeiro saíram Vera Saavedra Durão e Chico Santos, como informou a editora regional de J&Cia Cristina Carvalho. Vera, apesar de constar no expediente como repórter especial, atuava como segunda de Heloísa Magalhães, chefe de Redação da sucursal. Especializada em Economia, Vera começou na agência Tele Notícias, da extinta revista Visão; foi de O Globo e Jornal do Brasil, e passou quase 20 anos na Gazeta Mercantil, como pessoa de confiança de Paulo Totti. Em 2000, foi convidada a participar da fundação do Valor, onde estava até agora, respondendo pela cobertura das áreas de mineração, siderurgia, grandes negócios e macroeconomia. Chico estava no Valor desde 2004. Ele começou nas revistas especializadas em navegação, e nessas publicações passou oito anos, até se transferir para a sucursal da Folha de S.Paulo, sempre na área marítima. Um ano depois, ampliou a cobertura e foi, por 16 anos, repórter de Economia da Folha. No Valor, cobria petróleo e energia; estatais, especialmente BNDES; macroeconomia; e fez algumas grandes reportagens, entre elas uma sobre a transposição do rio São Francisco. Em Brasília, como informa a correspondente Kátia Morais, o corte abrangeu três vagas. Saíram Sérgio Leo e Azelma Rodrigues e o jornal congelou a vaga de Daniela Martins, que saiu poucos dias antes para trabalhar na assessoria do Ministério da Saúde. Daniela chegou ao Valor por meio do Curso de Jornalismo Econômico promovido pelo jornal em Brasília, sob os cuidados de Mônica Izaguirre (repórter especial na sucursal). Sérgio ([email protected] e [email protected]), que estava na empresa havia 13 anos, ultimamente como repórter especial e colunista, continuará a colaborar na Coluna da Página Dois, que escreve às 2as.feiras e divide, nos demais dias, com Delfim Neto, Cristiano Romero, Ribamar Oliveira e Cláudia Safatle. Ele sairá de férias em junho. Benefícios garantidos – A direção do Valor Econômico decidiu conceder um pagamento extra a todos os demitidos, além de estender a eles por seis meses o plano de saúde. Os salários adicionais para quem sai foram definidos em função do tempo de casa: quem ali estava até cinco anos receberá 1 salário nominal a mais; quem tem entre cinco e dez anos, 1,5 salário; e quem tem mais de dez anos, 2,5 salários. Vale acrescentar que as demissões ocorreram às vésperas do dissídio coletivo. Nas negociações com o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, a empresa assegurou que os índices definidos no acordo coletivo serão repassados aos demitidos depois da assinatura do acordo. Não é demais lembrar que a empresa valeu-se, nesse processo, dos benefícios garantidos pela legislação, que autoriza isenção do Imposto de Renda para casos semelhantes aos de um PDV (Programa de Demissão Voluntária). Além dos benefícios mencionados, os repórteres especiais e editores que têm carros cedidos foram liberados pela empresa do pagamento de metade do leasing a que estariam obrigados por regra interna.
FBB promove encontro de jornalistas em Manaus
Manaus sediou de 22 a 24/5 a sétima edição do Encontro de Jornalistas, promovido pela Fundação Banco do Brasil. Com o objetivo de difundir as tecnologias sociais apoiadas pela fundação e estimular os profissionais a produzirem conteúdo sobre a região amazônica, cerca de 100 profissionais foram convidados a participar do evento, cujo tema foi Comunicação e perspectivas do desenvolvimento sustentável. Tecnologias Sociais Apesar do pouco tempo para visita técnica – reclamação recorrente dos jornalistas participantes –, pôde-se conhecer um pouco mais das chamadas Tecnologias Sociais, soluções simples que geram emprego e renda para comunidades e pequenos produtores. É o caso da meliponicultura, criação de abelhas sem ferrão em caixas de nogueira que produzem um mel bastante saboroso – e completamente distinto em sabor do que estamos acostumados a consumir. A cerca de 50 minutos de Manaus está a produção de seu Ivanildo, o simpático dono de um pequeno sítio de três hectares. O mel, para ele, surgiu como possibilidade de renda extra, mas as abelhas não cumprem apenas essa função: também são responsáveis por polinizar a área, que produz graviola, abacaxi, jambo e tantas outras frutas. Os igarapés, cursos d’água típicos da região amazônica, também são utilizados para a criação de peixes. Com baixo custo de implementação, o sistema permite otimização do espaço e fartura de peixe, o principal alimento do amazonense, o ano inteiro. “Outro fator que observamos é a participação da mulher nesse tipo de atividade, que se destaca pela paciência e delicadeza ao alimentar o peixe”, destacou Geraldo Bernardino, secretário-executivo de Pesca e Aquicultura da Secretaria de Estado da Produção Rural do Amazonas (SEPROR/AM), que recebeu o grupo de jornalistas nesta segunda visita. No espaço visitado, o proprietário enxergou também a possibilidade de tornar o igarapé um ponto de lazer, no qual os visitantes podem banhar-se e saborear o peixe capturado na hora e preparado no restaurante que fica ali mesmo. Outra tecnologia apresentada – desta vez não em visita, mas com próprio material (bolsa e porta-lápis) recebido pelos participantes – foi a de encauchados de vegetais da Amazônia, pela qual aldeias indígenas e comunidades extrativistas são incentivadas a extrair o látex de maneira sustentável e, em vez de vendê-lo como matéria-prima, produzir ali mesmo artesanato, comercializado por dez vezes o valor cobrado pelo produto bruto. Inspiração para boas pautas não faltou. Talvez por isso a ansiedade dos profissionais por visitas mais longas. Aos interessados, a fundação concentra em um site informações sobre todas as tecnologias sociais que certifica, com contatos dos responsáveis. Para saber mais, acesse http://migre.me/eLWo1. Agenda social e cobertura da mídia Amélia Gonzalez, que participou da mesa sobre o tema ao lado de Bráulio Ribeiro (EBC) e Dal Marcondes (Envolverde), manifestou uma dúvida que outros profissionais provavelmente também têm: “Quem sabe hoje o que o público quer ler? Eu tive a sensação de que, com o Razão Social [caderno que editava no jornal O Globo], nós não tivemos essa percepção do que o público queria ler”. “Fico pensando que se leva para Sul e Sudeste coisas de Norte e Nordeste que podem ser triviais para os colegas daqui. […] Será que não se banalizou essa cobertura, tornando tudo o que acontece aqui maravilhoso? Para esse tipo de reportagem, precisa-se levar, talvez, um pouco mais de dados de realidade. Não estou julgando, apenas tentando puxar de nós mesmos. O que será que estamos levando para essas pessoas que leem? Será que elas pensam que está tudo ótimo agora com essas tecnologias sociais, por exemplo?”, complementou. Bráulio – gerente regional de Rádios da Amazônia, iniciativa criada no ano passado pela EBC que congrega várias rádios vinculadas a governos estaduais e federais – abordou a questão da pouca variedade de temas na mídia: “A mídia que vejo circular fortemente hoje no Brasil é monotemática, tem com pouquíssima diversidade de enfoques do Poder Público. Não tenho a menor dúvida de que existem outras formas, uma pauta que circula com muito mais diversidade por aí. Mas a mídia que de fato pauta a agenda do País é monotemática. Acho fundamental que se pratique o jornalismo contra-hegemônico – como é o caso de boa parte dos presentes aqui hoje. Por exemplo, ter um blog com o da Amélia em um portal como o G1, para mim, é um enclave!”. Outra questão que os debatedores apontaram foi a de falta de tempo para preparo e apuração de pautas pelos repórteres, que no dia a dia precisam cobrir diferentes assuntos em prazo muito curto. “Lembro de termos feito várias vezes matérias sobre a luta dos professores para trabalhar e se capacitar ao mesmo tempo, pois não têm dinheiro para comprar livros e o tempo é escasso, já que precisam acumular diversos empregos”, disse Amélia. “E fico me perguntando se nós, jornalistas, também não estamos um pouco nessa situação. Um pouco, não. Muito. Sabemos que os nossos salários estão baixos, que muitas vezes temos que pular entre dois, três empregos e que tudo que se quer no fim de um dia de trabalho é deitar e dormir. E que hoje em dia jornalista lê pouco. […] Acho que sabemos o que precisa feito, o que nos faltam são as ferramentas. E as ferramentas passam, sim, por termos melhor qualidade de vida, mais tranquilidade para ler ou frequentar um curso, o que seja. Dal Marcondes complementou: “Há uma coisa que mesmo quem não está em redação faz – eu faço muito isso –, que é olhar para a pauta e se perguntar ‘o que eu, com meus conhecimentos, com minhas fontes de informação, tenho a dizer de relevante sobre esse assunto? Como posso contribuir?’ E aí perceber quais são os meus limites e buscar superá-los para oferecer algo melhor ao meu leitor”.
De papo pro ar ? Orgulho no peito
Juca Ferreira, atual secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, foi fazer compras num supermercado usando uma camiseta com estampa do rei do baião. Ao passar pelo caixa, uma moça muito simpática perguntou-lhe se tinha algum parentesco com Luiz Gonzaga. Ele riu, dizendo que não. A moça então contou que o filme De pai pra filho lhe fizera muito bem. E, com lágrimas, acrescentou: – Eu tinha vergonha da minha condição de nordestina, até assistir a esse filme.
As discretas mudanças no expediente do Estadão
No mesmo mês de maio em que o Estadão foi notícia com Alberto Tamer e Ruy Mesquita, falecidos respectivamente nos dias 19 e 21, mudanças significativas no Conselho de Administração da empresa passaram quase despercebidas. Olhos atentos, no entanto, perceberam a ausência de dois nomes no expediente da página A3: Plínio Villares Musetti e Patrícia Mesquita. Eleito para a Presidência do Conselho de Administração da Natura em 24/4, Plínio deixou igual cargo no Estadão e não foi ainda substituído. Ele permaneceu no Grupo Estado por um ano e nove meses (havia assumido o posto em 25/7/2011). Antes dele, presidiram o Conselho Luiz Vieira de Carvalho Mesquita (1984-1996), Ruy Mesquita (1996-1997), Francisco Mesquita Neto (1998-2005), Roberto C. Mesquita (2005-2007) e Aurélio de Almeida Prado Cidade (2007-2011). Patrícia, a maior acionista individual da empresa, com 16,6% de seu controle acionário, deixou o Conselho de Administraçao e indicou, para substituí-la, o pai de seus filhos, o jornalista Getúlio Luiz de Alencar. Opinião – Outra mundança no expediente da página A3 foi a natural exclusão do nome do diretor de Opinião Ruy Mesquita, e a inclusão como editor responsável de Opinião do nome de Antonio Carlos Pereira. Muitos estranham, porém, que o nome de Ruy Mesquita não tenha sido incluído no expediente da página A2, onde estao os Mesquitas que dirigiram o jornal. Nele constam Julio Mesquita (1891-1927), Julio de Mesquita Filho (1927-1969), Francisco Mesquita (1927-1969), Luiz Carlos Mesquita (1952-1970), José Vieira de Carvalho Mesquita (1959-1988), Julio de Mesquita Neto (1969-1996) e Luiz Vieira de Carvalho Mesquita (1959-1997). Ainda a propósito do jornal, a Agência Estado mudou esta semana para o sexto andar do edifício-sede da empresa, em São Paulo, onde antes ficava o extinto Jornal da Tarde. Com isso, integrou-se a uma grande redação de Economia junto com a editoria da área no Estadão, o Portal de Economia & Negócios, o Link (suplemento de informática, que desde a última reforma gráfica e mudança dos cadernos também passou a fazer parte do caderno de Economia) e Broadcast. O espaço foi todo reformado, e as persianas trocadas, para receber as equipes.
Seguem abertas inscrições para Prêmio Petrobras de Jornalismo
Estão abertas até 10/7 as inscrições para o Prêmio Petrobras de Jornalismo. Dividido nas categorias Nacional e Regional, poderão ser inscritas matérias sobre os temas Cultura, Responsabilidade Socioambiental, Esporte e Petróleo, Gás e Energia, veiculadas em mídia impressa, rádio, televisão ou portais de notícias entre 10/5/2012 e 9/5/2013. A Petrobras também vai premiar a melhor fotografia nas categorias Nacional e Regional em qualquer um desses temas e veículos. As melhores reportagens de cada tema na categoria nacional, assim como a melhor fotografia nacional, receberão R$ 17.200. Já os vencedores regionais ganharão R$ 7.150. Além dessas categorias, haverá ainda o Grande Prêmio Petrobras de Jornalismo, que oferecerá R$ 30.000 à melhor reportagem entre todas as enviadas. Os prêmios são em valores brutos. Cada jornalista pode inscrever até seis diferentes reportagens; no entanto, a mesma reportagem não pode ser inscrita em mais de uma categoria (Regional e Nacional). Os participantes do Fotojornalismo podem inscrever um trabalho para cada tema, sendo também vedada a participação simultânea nas categorias Regional e Nacional. A ficha de inscrição e o regulamento estão disponíveis no site da Agência Petrobras. O material deve ser enviado para a sede da Petrobras (av. República do Chile, 65, 10º / sala 1001, Centro, Rio de Janeiro/RJ – CEP 20031-912). Mais informações pelo [email protected], 21-3224-3932 ou 3224-4281. Os vencedores serão conhecidos em outubro.
Isabela Barros e Isaura Daniel lançam página As Poupadoras
Isabela Barros, que hoje atua como freelancer, e Isaura Daniel, editora da Agência de Notícias Brasil-Árabe, lançam o site As Poupadoras (www.poupadoras.com), a fim de dividir informações sobre educação financeira. “Nosso principal objetivo é trocar experiências sobre o uso do dinheiro, o nosso diferencial”, diz Isabela. “Sites de finanças pessoais existem muitos, mas não com esse objetivo e de forma tão cotidiana. Queremos contar como poupamos e ouvir leitores, consultores, personalidades e especialistas sobre o tema”. Amigas há mais de dez anos, as autoras contam que a ideia de criar a página surgiu naturalmente durante conversas, quando perceberam a convergência de escrever sobre um tema de gosto mútuo das duas e que ainda iria ao encontro da necessidade de existir um site sobre finanças pessoais com uma linguagem informal, que facilitasse o entendimento do público. A proposta editorial é mesclar notícias, encontradas na seção Cofre de Notícias; histórias reais de leitores, em Duas Moedas de Prosa; e de ficção, em Vida e Fortuna de Bárbara e Elis. Sobre a novidade da abordagem fictícia Isaura comenta: “A ideia das personagens veio justamente da proposta de descomplicar o tema das finanças. É muito melhor ler a história de alguém, gente como a gente, que fez fortuna, do que ler um manual com a teoria da fortuna, não é? Essa é a proposta, contar histórias do cotidiano com as quais os leitores se identifiquem”. Com atualizações diárias, de 2ª à 6ª.feira, os leitores poderão ainda tirar dúvidas pessoais com economistas e especialistas da área, acompanhar relatos de famosos contando sobre sua relação com o dinheiro e conferir dicas de livros sobre finanças pessoais.
Morte de Santo Cristo ressuscita Notícias Populares
Uma campanha publicitária promovida para o lançamento do filme Faroeste Caboclo, de René Sampaio, publicou uma edição especial do extinto Notícias Populares, jornal do Grupo Folha que circulou entre 1963 e 2001.
A ação, criada pela agência Click Isobar, contou com a participação de alguns profissionais que marcaram a história do jornal, como seu editor-chefe por 18 anos Ebrahim Ramadan e o secretário de Redação e autor da célebre reportagem sobre o “bebê diabo” José Luis Proença, além de José Luís da Conceição e Antonio Marcos Soldera, respectivamente fotógrafo e repórter policial da publicação. Com tiragem de 300 mil exemplares, o encarte circulou com a edição da Folha de S.Paulo de 24/5, além de ter sido reproduzido pelo site www.ultimonp.com.br.
Na versão online também é possível acompanhar o making of do trabalho dos ex-integrantes do NP discutindo sobre as manchetes para a peça publicitária após assistir ao filme, que será lançado nesta 5ª.feira (30/5). A propósito, o Santo Cristo do título é o personagem principal do filme e da música, que vive um perigoso triângulo amoroso com Maria Lúcia e Jeremias (traficante de renome que apareceu por lá…).
História também ganha infográfico no G1 O G1 também reproduziu a história de Faroeste Caboclo em formato de infográfico interativo (http://glo.bo/10E7gjf), com entrevistas em vídeo com integrantes do elenco e o diretor do filme. Com edição de Gustavo Miller (Conteúdo) e Leo Aragão (Arte), o especial tem reportagens de Caue Muraro e Rodrigo Monteiro, ilustração de Dalton Soares e infografia de Daniel Roda e Elvis Martuchelli.
João Anacleto é o novo editor de Car and Driver
A equipe da Car and Driver passou a contar desde o início do mês com o reforço do editor João Anacleto. No ano em que completa dez anos de carreira, ele deixou após nove anos a Motorporess Brasil, onde também era editor.
Começou por lá após um período de oito meses na revista Auto&Técnica, tendo passado por diversas publicações da casa, como Max Tuning, Carro Online, Carro e no projeto da Carro Hoje, descontinuado em 2012. Seus novos contatos são [email protected] e 11-3855-1948.
Ainda na C/D, o repórter Carlos Cereijo ([email protected]), que acaba de completar um ano de casa, e o designer Pablo Gonzalez ([email protected]) foram promovidos respectivamente a editor-assistente e editor de Arte, e foi contratado o repórter Marcelo Moura, que irá atuar junto com o time do site de Car and Driver. A publicação hoje conta com 18 profissionais fixos.
Memórias da Redação ? A greve dos jornalistas, há 34 anos
A história desta semana é novamente uma colaboração de Milton Saldanha, que edita o jornal mensal Dance, dedicado à dança de salão, e mantém um blog de crônicas sobre assuntos variados. Como o texto, embora condensado, é extenso (a íntegra pode ser solicitada ao autor), J&Cia optou por publicá-lo em duas –partes. A greve dos jornalistas, há 34 anos Dia 22 de maio foi o 34º aniversário da greve dos jornalistas de São Paulo, ocorrida em 1979. Tanto tempo depois, o assunto ainda continua tabu nas redações e, por incrível que pareça, ainda divide os velhos jornalistas. Certamente porque, acima de um movimento reivindicatório, a greve teve uma forte conotação ideológica. Vale lembrar que era uma época em que ainda existiam esquerda e direita, conceitos que foram se pulverizando a partir da queda do Leste europeu. Os jornalistas formam uma classe curiosa. Alguns ganham bem, mas a maioria sempre ganhou mal. No entanto, a profissão lhes dá acesso a oportunidades que não teriam em outras carreiras. Desde bons almoços no melhores restaurantes, pagos por empresários interessados em operar seus interesses, até viagens internacionais, nos melhores hotéis. Não poucos utilizaram também a profissão como fonte de faturamento paralelo. O suborno vinha na forma charmosa e acima de qualquer suspeita de convidar para proferir palestras. O cara ganhava em duas horas o equivalente a outro salário mensal, ou até mais. Depois passava o resto do ano escrevendo a favor daquele setor, sobretudo na pressão ao governo por renúncias fiscais. O suborno é relevado nas redações. Leva o divertido nome de jabaculê, ou simplesmente jabá, para os íntimos. Que atire a primeira pedra quem resistiu a eles, não importa o valor. Conheci jornalistas, não provindos de famílias ricas, vivendo com um padrão de vida totalmente incompatível com a realidade dos salários praticados no mercado. Então, essa é uma classe curiosa, integrada pelos mais diferentes perfis humanos. E que desfruta de todas as aspirações típicas da classe média alta, o que não é nenhum desdouro, digo isso apenas para mostrar seu modo de ser. E mais: independentemente de suas convicções ou inclinações ideológicas, o jornalista é um ser que assume a bandeira da empresa onde trabalha. Enche a boca para dizer que trabalha em tal jornal, revista, rádio ou tevê de grande audiência. Faz horas extras sem ganhar para isso. Alguns se ofendem com críticas à instituição a que servem. E não poucos veneram seus patrões com fidelidade canina. Até o dia em que levam o solene pontapé na bunda. Mesmo assim nunca aprendem. No próximo emprego já estão novamente puxando o saco do patrão. São todos assim? Claro que não. Alguns são apenas mais ou menos assim. Outros, certamente a maioria, são de independência intelectual e dignidade impecáveis. Mas do jabazinho, vamos dizer a verdade, ninguém escapa… Agora imaginem o que seja fazer uma greve numa categoria assim. É claro que não pode dar certo, como não deu em 1979. A categoria paulista já tinha feito uma greve antes, em 1961. Existe até uma foto famosa, tomada na frente dos Diários Associados, de um piquete sendo atingido por jatos de água de uma mangueira dos bombeiros. Essa greve foi vitoriosa, mas vale lembrar que os salários eram realmente de fome. A greve dos jornalistas de São Paulo durou oito dias (incluindo o final de semana), de 22 a 29 de maio de 1979. No dia 28 o TRT julgou a greve ilegal. A desobediência, nesses casos, submete o sindicato a pesadas multas diárias. O nosso Sindicato é pequeno, não tem como suportar algo assim. O único caso que se conhece na história, de algum organismo sustentando uma greve, foi no Chile, onde a CIA bancou os mais de seis meses da greve dos caminhoneiros, para ferrar com a economia do país, e assim fomentar condições ideais para a derrubada do democraticamente eleito Salvador Allende, em 11 de setembro de 1971. Em 1979 eu chefiava a redação, com meia dúzia de repórteres, da Sucursal do ABC do Grupo Estado, então integrado por Estadão, Jornal da Tarde, Agência Estado e Rádio Eldorado. Fiquei lá quatro anos e tinha muito a perder: trabalhava com total liberdade; estava satisfeito com o salário; tinha prestígio na empresa e orgulho do cargo; me dava ao luxo de ter uma sala exclusiva e com telefone direito; escolhia minhas próprias pautas; saia quando bem entendia para as ruas para fazer matérias ou ficava na redação coordenando; estava fisicamente a 45 km das cobras criadas das grandes redações da matriz e sem nenhum superior hierárquico por perto. Enfim, o que mais poderia querer? Resposta: que nunca tivessem inventado aquela greve. A inspiração para o movimento, ninguém poderá negar, veio do sindicalismo metalúrgico do ABC, com vários grandes líderes, e que tinha em Lula sua principal estrela. Eles tinham peitado a ditadura em 1978, quebrando um jejum de muitos anos sem greves. Com planejamento e organização impecáveis, a primeira foi uma impressionante greve sem piquetes: os trabalhadores entravam nas fábricas e simplesmente não ligavam as máquinas, permanecendo ao lado de braços cruzados. Eu tinha na minha equipe uma excelente jornalista, a Valdir dos Santos, que roubei do Diário do Grande ABC. Era encarregada da cobertura sindical. Quando a greve começou, primeiro na Scania, foi a única repórter lá dentro, percorrendo a fábrica ao lado do delegado do Trabalho. Ele entrou anunciando aos gritos a prerrogativa do cargo e arrastou a Valdir junto. Naquele dia fizemos cabelo, barba, bigode e depilação, mostrando a qualidade da Sucursal, que já tinha uma tradição de excelentes equipes e chefes, como Enock Sacramento, Dirceu Martins Pio, José Maria Santana. Foi José Marqueiz, repórter da Sucursal, o detentor de um famoso Prêmio Esso. É longa a lista de ótimos jornalistas que lá trabalharam. Pio foi quem me indicou para a Sucursal, ao Raul Martins Bastos, que chefiava a fantástica e inesquecível rede de sucursais e correspondentes, de uma qualidade que o jornalismo brasileiro nunca mais verá. Em 1979, os metalúrgicos mudaram a estratégia: a greve passou a ser com piquetes nos portões das fábricas. Agora já esperando, a ditadura, aliada com a Fiesp, montou um forte aparato repressivo. Ocorreram assembleias memoráveis no Estádio de Vila Euclides, uma delas sobrevoada por helicópteros do Exército, com atiradores apontando metralhadoras. O prefeito de São Bernardo, Tito Costa, dava apoio e suporte logístico aos grevistas. A Igreja Católica guardava o Fundo de Greve, estocando mantimentos na casa paroquial da matriz. O arcebispo Dom Claudio Hummes apoiava Lula e fazia o meio de campo nas negociações. Teve a intervenção militar no Sindicato, numa madrugada, e a prisão de Lula, pelo Deops, dirigido por Romeu Tuma. Tudo isso ocupava as manchetes dos jornais e capas das revistas semanais. Lula foi capa da Time e da Newsweek, revistas internacionais. O ABC era o centro de todas as atenções no País. Outras categorias poderosas, como os químicos e petroleiros, ou desprovidas de charme, como os motoristas de ônibus, também fizeram suas greves. Todo o sindicalismo brasileiro estava inoculado pelo vírus da greve. A interpretação, naqueles dias, era a de que sindicato bom era o sindicato capaz de fazer uma grande greve. O resto era visto como sindicato pelego e bundão. O Sindicato dos Jornalistas não precisava nem deveria, cometendo um grande erro de avaliação, mas inventou que teria que ter também a sua greve. No fundo, era uma forma de afirmação política da liderança sindical. O grande problema é que um jornal não é como uma fábrica de parafusos… Mas, ao contrário do que muita gente fez depois da derrota, não culpo totalmente o então presidente, David de Morais. Culpo apenas parcialmente. Ora, todo mundo era maior, vacinado, consciente dos seus atos. Ele não fez nada sozinho. Mesmo levando em conta que toda assembleia envolve táticas de manipulação. A grande prova é que antes de qualquer votação, nas grandes assembleias metalúrgicas, a gente, com boas fontes, já sabia o que seria decidido. Era raríssimo, quase impossível, a multidão confrontar a posição de suas lideranças. Jamais, por exemplo, ouvi de um palanque um discurso de alguém contra a greve. Esse tipo de democracia era impensável no ABC. Entre jornalistas não funciona assim. A gente cobra espaço à opinião, afinal é o que fazemos a vida inteira. E foi o que fiz na primeira assembleia, na Igreja da Consolação, emprestada ao nosso Sindicato, porque seu pequeno auditório não comportaria os cerca de dois mil jornalistas presentes. Já iam começar a votação, praticamente sem discussão, todo mundo claramente intimidado (a mesa havia oferecido encaminhamento contrário e ninguém se inscreveu), quando levantei uma questão de ordem, sob forte tensão. Fui ao microfone e ponderei, sob vaias de radicais, que não se poderia decidir uma greve por aclamação e sem ampla discussão. Aí foi a rebordosa: um monte de gente, finalmente pedindo a palavra, debates pró e contra, incluindo baixarias e até palavrões, inevitáveis nessas horas. Depois do aterrador silêncio inicial, quebrado por minha questão de ordem, a assembleia se transformou numa grande confusão. A mesa teve grande dificuldade para conduzir os trabalhos. O corredor central que divide os bancos da igreja em duas alas foi transformado em fronteira. Solicitou-se que os favoráveis à greve ficassem à esquerda, os contrários à direita. Um nada sutil simbolismo. Nossa ala, a dos contrários, era maciçamente ocupada por pessoal do Estadão, incluindo a turma do Jornal da Tarde. As discussões avançaram a madrugada e ficou célebre a intervenção do jornalista Emir Macedo Nogueira, da Folha, dizendo: “O meu maior medo é ver amanhã nossa greve como manchete dos jornais”. Os patrões e os fura-greve adoraram a deixa e, quando a greve finalmente aconteceu, lá estavam as manchetes. Incluindo, claro, a famosa frase. Era o primeiro passo para desmoralizar a greve dos jornalistas. A divisão entre os dois grupos era tão clara que tiveram que contar cada pessoa antes da proclamação da decisão final. Vencemos por reduzida margem. A greve estava rejeitada pela categoria. Ou, como alguns diziam, pelo Estadão. No dia seguinte, na Sucursal, recebi várias ligações telefônicas de jornalistas da matriz, principalmente editores, me cumprimentando pela atuação na assembleia. Mas não foi nada agradável. Esses embates são desgastantes, nos deixam muito expostos. Tem a turma sem argumentos, e covarde, porque não se apresenta para a discussão, só sabe vaiar, escondida na multidão. Radicais de esquerda que não são de nada, na hora H se borram nas calças, como já cansei de ver. E tem o outro radical, de direita, pensando que você é cretino como ele. A única razão que me colocou contra a greve é que tive a percepção de que aquilo era uma aventura juvenil, sem a menor chance de vitória. E que colocaria nossos empregos em risco. Os fatos provaram que eu estava certo. As greves de outras categorias, politizadas e bem organizadas, quase sempre tiveram a minha simpatia e, quando possível, apoio.
Morre Roberto Civita
Exatos cinco dias após a morte de Ruy Mesquita, do Grupo Estado, aos 88 anos, morreu em São Paulo na noite desde domingo, 26 de maio, aos 76 anos de idade, no mesmo Hospital Sírio Libanês, Roberto Civita, presidente do Grupo Abril. Civita estava internado havia três meses para a correção de um aneurisma abdominal, mas o rompimento da veia aorta e uma hemorragia de grandes proporções, durante a cirurgia para a implantação de um stent, tornaram o quadro grave, a ponto de já naquele momento a empresa ter anunciado a transferência interina da Presidência Executiva do Grupo para o filho Giancarlo Civita, o Gianca. Desde então, embora representantes da empresa tentassem mostrar algum otimismo, garantindo que em alguns meses Civita voltaria ao comando, já se sabia que isso seria quase impossível pelo seu estado de saúde. Rumores, à época, davam conta de que ele recebera 17 litros de sangue até que a hemorragia fosse estancada, não sem as consequências que se seguiram. Nota no site da Abril (www.abril.com.br) informa que Civita deixa a mulher Maria Antonia, os filhos do primeiro casamento Giancarlo, Roberta e Victor, além de seis netos e enteados. O corpo foi cremado nesta segunda-feira, 27 de maio, no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, São Paulo. Morte de Civita é destaque nos principais portais informativos A morte de Roberto Civita entrou para as manchetes dos principais portais de notícias já na noite do próprio domingo. Embora todos trouxessem um pouco da história de RC, caso de sua origem italiana (nasceu em Milão), da saída da família da Itália para fugir do nazismo, do período em que viveu e estudou nos Estados Unidos, da volta ao Brasil quando convenceu o pai a bancar lançamentos editoriais que mudariam a face da Abril, como Veja, Exame e Playboy, há em cada matéria curiosidades que se complementam. O G1 (Globo.com), por exemplo, lembra que no ranking da revista Forbes, publicado em março, Roberto Civita e família aparecem como a 11ª maior fortuna do Brasil e a 258º maior do mundo, com um patrimônio estimado em US$ 4,9 bilhões. O UOL, do Grupo Folha, destaca a entrevista que Civita deu ao Valor Econômico em 2012, quando falou sobre a agressividade da revista Veja: “Se você não está gerando reações fortes, está fazendo algo errado. Não acredito em imprensa que quer agradar a todo mundo. Por que você faz uma revista? Só para ganhar dinheiro? Eu acho que vem junto uma responsabilidade. Eu falo isso há 50 anos… Para todo mundo. Para os meus filhos. Eles não gostam, mas eu falo. Se você não quer ter a responsabilidade, vai fazer álcool, vai plantar batata”. Ainda no UOL, Carlos Costa, que trabalhou por 23 anos na Abril, lembra que “RC, como Roberto Civita assinava os bilhetes, foi o primeiro filho de Sylvana Alcorso, da nobreza romana, e de Victor Civita, fundador da Editora Abril, casados em 1935”. Ele também diz que Roberto “sempre foi reservado, mais reflexivo, talvez marca da convivência com o pai, pouco efusivo com o primogênito e mais aberto com Richard, seu irmão, que também era o preferido de Sylvana – “os olhos azuis da mamãe”. Prudente, ouvia e se aconselhava quando se via frente a decisões complexas – como publicar a entrevista de Pedro Collor, detonadora do impeachment de Collor”. No texto especial para o UOL Carlos Costa diz ainda que o ano de 1982 marcou o racha entre Roberto e seu irmão Richard, e que, por decisão do pai, Roberto passou a cuidar da linha editorial, enquanto Richard ficou com a administração. Ou seja, daquela vez o pai se alinhara ao lado do primogênito, que ficou com a Abril, deixando para Richard a divisão de livros, fascículos, frigoríficos e hotéis. “Com um perfil mais técnico – diz Costa em seu texto –, Roberto contrastava com os arroubos criativos do pai. Era RC quem conseguia plasmar as intuições de VC, tornando-as sucessos editoriais. Se Victor era um excelente relações públicas, Roberto implantou na empresa uma visão profissional de gestão editorial, nos moldes americanos. A independência editorial e a separação dos interesses comerciais do trabalho jornalístico foram obras de RC. Por ocasião da morte do pai, Roberto se reconciliou com seu irmão Richard”. O Estadão.com, em meio às informações sobre a morte de Roberto Civita e sua trajetória, destaca que “em seu mais recente balanço, a Abril S/A registrou receita de R$ 2,975 bilhões em 2012, queda de 5,9% sobre o ano anterior. O lucro líquido foi de R$ 64,2 milhões no ano passado, ante os R$ 185, 9 milhões registrados em 2011”. A matéria do Estadão aborda os altos e baixos dos vários empreendimentos do Grupo Abril sob a gestão de Roberto Civita, como a criação da MTV, da TVA, do BOL, da ESPN, entre outros. Diz o texto do Estadão.com: “O cenário piorou com a desvalorização cambial, em 1999. A companhia viu sua dívida em dólares disparar. Civita, então, viu-se forçado a iniciar um processo de venda de ativos, como sua participação na ESPN Brasil e no próprio UOL. Somente em 2006 a companhia conseguiu vender a TVA para a empresa espanhola Telefônica”. E acrescenta: “Numa tentativa de melhorar a situação financeira do grupo, Civita vendeu, em 2006, 30% da Abril para a companhia de mídia sul-africana Naspers. Com o aporte dado pelos estrangeiros, a companhia conseguiu uma redução de sua dívida líquida, alongando o perfil para cinco anos e diminuindo juros. Em 2007, o saldo da dívida líquida era de R$ 178 milhões, abaixo dos R$ 681 milhões de 2006”. Ao tratar do atual perfil de controle do Grupo, diz a nota do Estadão.com que “atualmente, a Abrilpar, holding da família Civita, controla a Abril S/A e detém o comando do capital da Abril Educação S/A – empresa líder em conteúdo para alunos e professores dos níveis infantil ao fundamental. A Abril Educação inclui as editoras Ática e Scipione (compradas por Civita em 1999) e os sistemas de ensino Anglo e SER (adquiridos pelo empresário em 2010 e 2011), além dos colégios pH, do Rio de Janeiro, e ETB, de São Paulo. Em 2010, a Abril Educação passou a atuar separadamente da Abril S/A por meio de uma reorganização societária. No mesmo ano, 20% das ações da Abril Educação foram vendidas para o fundo de private equity BR Investimentos. Também naquele ano, o Grupo Abril fez a aquisição de 70% da Elemidia, empresa de mídia digital em elevadores e painéis. Os 30% que haviam permanecido com a família Forjaz, fundadora da empresa, foram comprados em 2012. Em 2011, a Abril anunciou a contratação de Fábio Barbosa, ex-presidente do conselho de administração do Santander Brasil, como presidente da companhia. Barbosa respondia diretamente ao presidente do conselho, Roberto Civita”. O próprio Portal do Grupo Abril (www.abril.com.br), ao destacar que RC “dedicou 55 de seus 76 anos à paixão de editar revistas”, destaca uma das coisas que ele sempre costumava dizer aos recém-chegados à empresa: “Ninguém é mais importante que o leitor, e ele merece saber o que está acontecendo. Veja existe para contar a verdade. A fórmula é muito simples. Difícil é aplicá-la o tempo todo”. “Risonho, cordial, otimista, Roberto Civita sempre acreditou que nenhuma atividade vale a pena se não for praticada com prazer”, diz a nota do site da Abril, acrescentando a pergunta que ele sempre fazia aos profissionais com os quais convivia: “Você está se divertindo?”. A nota da Abril conclui dizendo que ele “mantinha-se otimista mesmo quando contemplava a face sombria do País. Para ele, o Brasil só conseguiria atacar com eficácia seus muitos problemas se antes aperfeiçoasse o sistema educacional, modernizasse o capitalismo nativo, removesse os entraves à livre iniciativa e consolidasse o estado democrático de direito. ‘O que Veja defende, em essência, é o cumprimento da Constituição e das leis’, repetia. Também essa fórmula parece simples. Difícil é colocá-la em prática. Foi o que o editor de Veja sempre soube fazer”.







