Os desafios da comunicação em tempos de coronavírus

Vírus leva a mudança de nome de newsletter

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Naquela que está sendo tratada pelos jornais britânicos como a maior interrupção das atividades cotidianas em tempos de paz na história do país, organizações buscam alternativas para continuar se comunicando sob as restrições impostas pelo coronavírus. Afinal, não é uma situação passageira. O Governo estima que a crise pode durar até um ano.

Embora a busca por notícias seja intensa, com emissoras de TV batendo recordes de audiência, o jornalismo movimenta-se para atravessar o período de isolamento. Títulos como i, Daily Mirror e The Times anunciaram entrega domiciliar gratuita para não perder os leitores que compram jornal em bancas. Um grupo de livrarias independentes seguiu o modelo e está entregando livros nas residências para quem não pode sair.

O Time Out, especializado em agenda cultural, foi ousado. Na segunda-feira (16/3) mudou o nome para Time In, em sintonia os tempos de diversão dentro de casa. A newsletter traz uma lista dos eventos cancelados em Londres e dicas para passar o tempo entre quatro paredes, como filmes disponíveis para streaming.

Já os títulos gratuitos distribuídos no transporte público temem pelo futuro. Evening Standard, Metro e CityAM perderam leitores porque parte da população das grandes cidades está em casa. As edições digitais atraem visitantes, mas a principal receita vem dos anúncios veiculados nas versões impressas, muitos deles de espetáculos artísticos.

Este é outro setor afetado, com museus, teatros e centros culturais fechados. Algumas instituições, como a Union Chapel, igreja que promove shows beneficentes com grandes nomes, está pedindo ao público que já comprou ingressos para considerar a possibilidade de abrir mão da devolução do dinheiro em prol da causa.

O país está sensível, cheio de iniciativas voluntárias para ajudar idosos ou pessoas solitárias. E todo o cuidado é pouco para não entrar em controvérsia. Richard Branson, fundador da Virgin Atlantic, foi alvo de protestos em redes sociais ao anunciar a decisão de colocar os funcionários em licença não-remunerada. Mais cautelosa, a Nespresso enviou e-mail avisando sobre o fechamento das lojas e ressaltou que os empregados continuarão recebendo salários.

Tecnologia substitui contato pessoal – Ferramentas tecnológicas podem ser aliadas quando multidões de profissionais de todos os setores trabalham em home office e reuniões estão suspensas. A FPA (Foreign Press Association), que promove briefings na sede para os correspondentes baseados em Londres, manteve o lançamento de um livro sobre a BBC programado para terça-feira (17/3), mas fez o evento online, com transmissão pelo YouTube.

O Tortoise Media, prestigiado veículo digital que realiza encontros presenciais chamados ThinkIn para os membros, igualmente não se rendeu ao coronavirus. Fez esta semana o primeiro encontro online, usando o Zoom. É uma inspiração para profissionais de comunicação que precisarem fazer apresentações para a imprensa enquanto houver barreiras para reuniões.

Com funcionários em casa, cresce o uso de recursos como Slack, Microsoft Teams e Zoom, que permitem reuniões e acompanhamento de projetos de forma remota. O uso desses serviços disparou nos últimos dias.

E não apenas para reuniões. Uma empresa funerária criou no Slack uma comunidade reunindo empresas e profissionais do setor para trocar experiências e promover ajuda mútua. Tristemente, este é um segmento beneficiado pela crise. As ações da empresa funerária britânica Dignity estão entre as que mais subiram na Bolsa de Valores de Londres nos últimos dias.

Home office bom para o planeta – E em um país em que o ativismo ambiental é bem organizado, capitaneado principalmente pelo grupo Extinction Rebellion, um efeito colateral do home office compulsório pode acabar sendo o aumento de gente trabalhando em casa e de viagens de negócios substituídas por reuniões online mesmo depois que as restrições caiam.

Um estudo da OCDE publicado pela Bloomberg apontou que em 2018 seis em cada dez europeus nunca tinha trabalhado remotamente. Mas com o coronavirus o hábito será criado. E já começam a sair notícias sobre redução da poluição atmosférica na Itália e na China por causa da redução no uso de transportes.

O coronavirus causa medo e transtorno. Mas ao mesmo tempo tem o potencial de fazer repensar práticas e simplificar processos.

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