O homem que amava as mulheres

Ari (dir.) com o filho Tupac

Por Gilvan Ribeiro

Imagino a despedida do meu amigo Ari Borges como a cena de abertura do filme O homem que amava as mulheres, de Truffaut: um enterro em que só há figuras femininas presentes, em profusão, todas elas chorando em coro a mesma dor da saudade.

Uma bobagem, evidentemente, uma mitificação, posto que o dom dele da conquista não se limitava apenas a elas. Nós, homens, também lhe devotamos um amor que poucos caras são capazes de despertar.

A genialidade, cultura, humor, leveza, irreverência e loucura, combinados na medida certa, eram admiráveis. Mas talvez por eu invejar, mais do que tudo, a sua capacidade de encantar as fêmeas, me vem essa idealização. Ele era amado tanto por suas companheiras, como pelas ex – algo raro –, e também por sogras, colegas de redação, funcionárias da manutenção, faxineiras, garçonetes, telefonistas… e quantas mais se possa supor. Até as cadelas vira-latas lhe abanavam o rabo na rua. Juro, sem exagero.

Além de ter sido um personagem irresistível e engraçado, Ari Borges foi um dos melhores repórteres e editores com quem já trabalhei. Na reportagem, chegamos a ser concorrentes, quando ele estava no Estadão, e eu na Folha (depois no Diário Popular). Era mestre em fazer matérias memoráveis quando não havia qualquer notícia relevante. Certa vez, ao escrever sobre um jogo ruim, discorreu sobre a lua cheia que embelezava a noite e inspirava um clima romântico no estádio – só na última linha registrou que a partida terminara sem gol. Uma ousadia para poucos. Como também, salvo engano, coube a ele revelar a obsessão de Telê Santana no combate às terríveis paquinhas, espécie de grilo que danificava os gramados dos campos do CT da Barra Funda e do Morumbi, em uma matéria saborosa e original.

Na década de 1990, o então presidente corintiano Alberto Dualib voltou de uma viagem ao Japão, onde pretensamente iria fechar uma parceria financeira para o clube. Por meio da assessoria de imprensa, eu e o Ari fomos avisados de que teríamos primazia para entrevistá-lo, na véspera da coletiva para o restante da imprensa. Fomos atendidos juntos pelo cartola, que havia disposto sobre a mesa, meticulosamente, dezenas de cartões de visitas que colhera em sua peregrinação pelo Oriente. O intuito era demonstrar o quanto sua viagem havia sido frutífera, com a exposição dos potenciais patrocinadores, e oferecer uma boa imagem para foto. Mas o bom e velho Ari desmontou a estratégia assim que lançou o olhar sobre a escrivaninha: “Presidente, estou vendo aqui o cartão da Andrea Fornes (então correspondente da Folha em Tóquio). Ela pode ser a futura patrocinadora do Corinthians?”, disparou. Dualib gaguejou muito mais do que o Ari, que era levemente gago, e limitou-se a ficar vermelho. A partir daí, uma verificação mais apurada dos símbolos e desenhos contidos em outros cartões, permitiu-nos detectar que o dirigente passara por farmácias, tinturarias, bancas de frutas… sei mais lá o quê.

Em 1995, já trabalhávamos juntos na ESPN/Brasil e pude constatar sua criatividade e múltiplos talentos. Como editor do programa 30 Minutos, juntamente com Roberto Salim, outro gênio, o Ari me ligou logo de manhã na segunda-feira. “Acorda, mortão!”, brincou, usando o termo como costumava referir-se a todos os amigos. “Vem pra cá agora gravar uma nova passagem para a matéria do clássico!”, convocou. Na véspera, eu havia feito a reportagem do jogo entre Palmeiras e São Paulo, no Pacaembu, em que Rivaldo e Júnior Baiano trocaram socos e acabaram expulsos. A ideia do Ari era tirar a passagem tradicional que eu fizera, ainda no gramado, e gravar outra no estúdio, na qual eu vestiria roupa de gala e emularia o estilo de Tony Auad, tradicional apresentador de lutas de boxe. O problema é que não havia gravatas-borboleta no guarda-roupas da emissora. Ele mandara a produção comprar, mas já se aproximava o horário em que o programa iria ao ar, e nada. De repente, o Ari pegou uma lata de lixo da redação, despejou tudo que estava dentro e usou o saco plástico preto que forrava a lixeira para confeccionar uma gravata-borboleta. Ficou perfeita. No vídeo, ninguém poderia perceber a improvisação. Quando queria algo, sempre dava um jeitinho.

Nos últimos tempos, morávamos perto e vínhamos nos encontrando com frequência, até mesmo por acaso, quando ele saía para passear com o cachorro. Às vezes, íamos a um barzinho descolado do bairro que toca som variado: blues, rock, soul, bossa-nova, choro, samba… desde que tenha qualidade. Incrível como o Ari sempre tinha uma história interessante pra contar sobre a música, a gravação, o cantor, o compositor, o escambau.

Assim que foi internado para tratamento do câncer no estômago, lhe telefonei no hospital e perguntei sobre o resultado dos exames. Debilitado, com a voz fraquinha, mal tinha forças pra falar, mas não perdeu o humor: “A porra desse câncer parece meu pau, quando eu tinha 20 anos: é grande e agressivo!”, foi o seu boletim médico.

Chegou a sair e ir para a casa do Tupac, seu filho. Em nossa última conversa, no seu aniversário, que coincidiu com o Dia dos Pais, estava falante e animado. Conversamos longamente e demos muita risada. Ari acabara de receber Travessia, meu mais recente livro com o Casagrande, em que há uma passagem na qual ele aparece. “É a melhor parte do livro, mortão! Mas você vai fazer eu passar para a história como o cara que endemoniou o Casão! Kkkkkkk”, divertiu-se, por ter dado de presente ao amigo um livro de arte alemão com a reprodução de pinturas em que demônios são retratados. Em 2007, no auge dos surtos psicóticos, e julgando que as visões demoníacas saíam daquelas páginas, Casagrande enterrou a publicação em um terreno baldio.

Combinamos que eu iria quebrar a quarentena para visitá-lo na casa do Tupac naquela semana. Prometi levar um pão de nozes, com fermentação natural, da padaria Santiago. Não deu tempo. Ao fazer exames de rotina, descobriu que estava com Covid e foi hospitalizado novamente. Passou dias de sofrimento e tinha ímpetos de fugir da internação. Felizmente, acabou recebendo alta e teve a chance de passar momentos preciosos com a família na casa de praia, em São Sebastião, onde sempre sonhou terminar os seus dias.

Valeu, Ari, você partiu em boa hora. Esse mundo dominado pela ignorância, pela violência, com essa gente brega e tacanha no poder, não combina mesmo com você e sua elegância. Au revoir, irmão!


Gilvan Ribeiro

A história desta semana é de Gilvan Ribeiro, que trabalhou em veículos como Folha de S.Paulo, Folha da Tarde, Diário Popular, Diário de S.Paulo, ESPN/Brasil e Agora, como repórter, editor e colunista. É autor dos livros Casagrande e seus demônios, Sócrates e Casagrande, uma história de amor e Travessia, em parceria com Walter Casagrande Júnior.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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