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domingo, agosto 1, 2021

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Minhas cenas inesquecíveis

Por Flávio Tiné

Chego para trabalhar na Editora Abril e me deparo com algumas pessoas sentadas na sala de espera para falar comigo. Cumprimento-as. A representante da gravadora me apresenta uma nova cantora, Gal Costa, e me oferece seu primeiro disco. Aperto-lhe a mão e digo: encantado. Nos anos seguintes muitas entrevistas se sucedem, até o ponto em que ela nem sabe mais quem sou.

Fui entrevistar Muhammad Ali, nascido Cassius Marcellus Clay, um dos mais importantes pugilistas do mundo, no hotel San Raphael, avenida São João, São Paulo. Meu Inglês não dava para nenhuma pergunta, mas não precisava, ele só queria dizer que se convertera ao islamismo e a temática era notória. O importante era registrar o evento fotograficamente e gravar suas declarações. Década de 1970. Rolou uísque à vontade. Ao sair da entrevista bati meu Fusca quando o farol fechou e não percebi. Nada grave, felizmente. A revista Intervalo relevou.

Fotografei a apresentação especial da peça Julgamento em Novo Sol, de Nelson Xavier, no Palácio da Alvorada, década de 1970. Na primeira fila da plateia, a primeira dama Teresa Goulart, nem um pouco incomodada com o chato fotógrafo de Pernambuco, que a entrevistou em seguida para UH-NE. Na semana seguinte, quando o Movimento de Cultura Popular (MCP) apresentava a mesma peça no Teatro Nacional do Rio de Janeiro, roubaram minha bolsa de fotógrafo com filmes não revelados. A imagem da linda Teresa ficou apenas “em minha retina cansada”, como na canção Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo, imortalizada por Orlando Silva.

Quando o industrial pernambucano José Ermírio de Moraes era candidato a senador, acompanhava-o em comícios pelo sertão, a serviço da Última Hora-Nordeste. Anos depois, acompanhava o trabalho meritório de um de seus filhos, Antônio Ermírio de Moraes, como superintendente da Beneficência Portuguesa, que frequentava habitualmente o Hospital das Clínicas da FM-USP em busca de colaboração mútua. Muitos médicos do HC trabalhavam na Beneficência. Como assessor de imprensa, eu divulgava todos os eventos e atividades, como interlocutor e porta-voz das instituições. Ficou a cena de encontros marcados pela cordialidade.

Como repórter de UH-NE fui designado pelo chefe de Reportagem, Milton Coelho da Graça, para entrevistar o general Humberto Castelo Branco sobre o discurso de João Goulart no dia 30 de março de 1964. Ele me recebeu educadamente e em seguida, educadamente, apertou minha mão e me expulsou de sua sala, sem uma única palavra; nunca esqueci a cena. Era baixinho como eu.

Dácio Nitrini, editor-chefe da Folha de S. Paulo, combina comigo a produção de uma foto com as principais autoridades em Aids no País, ao meio-dia, na Secretaria de Estado da Saúde. Um dos convidados era o meu chefe no HC, que concordara em comparecer, mas havia dado ordens à secretária para não interromper “em nenhuma hipótese” a reunião de que participava. Quando a reunião acabou, todos os demais convidados já estavam no local combinado, menos meu chefe, que chegou ofegante e foi xingado de “estrela” pelos demais membros do grupo. De volta ao gabinete decretou três dias de suspensão como responsável pelo incidente, que considerou proposital. No domingo, a Folha publicou a tal foto, em página inteira.

Francisco Cuoco e outras estrelas globais faziam uma novela sobre garimpo no interior do Brasil e o repórter acompanhava tudo de perto por uma semana para a revista Intervalo. Comprou uma calça e juntou a nota fiscal à prestação de contas. Alguns dias depois a auditoria da Editora Abril glosou a despesa, que, embora pequena, era irregular. A empresa só pagaria hospedagem e alimentação, praxe nesses casos. De nada adiantou recorrer ao chefe de Reportagem, Giba Um, que tirou o dele da reta, como se diz vulgarmente. E o repórter famoso, Arley Pereira (1932-2007), foi demitido sumariamente por justa causa.

No auge do Aqui, agora, do SBT, o apresentador pediu para entrevistar médico que fazia cirurgia pioneira no Brasil. O cirurgião negou-se energicamente, alegando que não queria aparecer numa tevê que era vista apenas por empregada doméstica. Contou que quando passava pela cozinha, aos domingos, via de relance o pessoal preparando o almoço e assistindo ao Programa Silvio Santos. Após informar à administração superior sobre a recusa e explicar as vantagens de divulgar o pioneirismo, o cirurgião foi convencido a conceder a entrevista. Nos dias, meses e anos seguintes ele tornou-se grande amigo, sempre à disposição da imprensa. Até hoje me agradece pela insistência.

O escritor Hernâni Donato, da Academia Paulista de Letras, era Relações Públicas da Editora Abril. Quando não almoçava com Victor Civita, presidente da empresa, encontrava-o na fila do restaurante dos funcionários e sentávamos juntos, em conversação descontraída, quando ele tentava me convencer a mudar para uma cidade média do interior e criar um jornal, se lá não tivesse um. Argumentava que eu poderia arranjar um bom casamento e virar figura importante da cidade. Quando perguntei os motivos da inusitada sugestão ele foi sincero: eu não teria como progredir em meio a incontáveis gênios que criaram Quatro Rodas, Veja e Realidade. Talvez ele tivesse razão. Nunca passei de redator (copy desk) da revista Intervalo, que fechou por não dar lucro individualmente. Fui para o Estadão.

Como redator da revista Intervalo, era convidado para lançamentos de discos, estreias de espetáculos e eventos artísticos em geral. Também comparecia a restaurantes frequentados por artistas, para colher informações a serem utilizadas em reportagens e colunas de fofocas. Era assediado por empresários, insinuantes “secretárias” e até por mães de cantoras. Com o maior respeito, naturalmente. Tomava uísque com Antônio Marcos e Vanusa, com Altemar Dutra e Martha Mendonça, com Eduardo Araújo e Silvinha etc. Quem não gostava nada disso era a mãe de meus filhos, que acabou pedindo desquite.

Por duas vezes fui jurado do Troféu Imprensa. Entreguei o troféu a Ivan Lins, num ano, e a Altemar Dutra, em outro. Antes de me dirigir ao auditório, na praça Marechal Deodoro, fui buscar Altemar na rua Doutor Veiga Filho. Lá pelo fim da tarde, quando Silvio Santos nos chamou para a entrega do troféu, nenhum dos dois estava em condições de falar. Convidado a cumprimentar o cantor pelo merecido prêmio, informei que ele acabara de me mostrar dois cômodos da casa dele cheios de troféus. Aquele seria mais um. Silvio me tomou o microfone e chamou os comerciais.

Andava para lá e para cá nos estúdios da TV Record, proximidades do aeroporto de Congonhas, quando resolvo ir à sala do Dr. Paulo Machado de Carvalho, como de hábito, em busca de notícias. A secretária me barrou, assustada, pedindo “pelo amor de Deus” para não entrar. Achei que seria algo inusitado, no mínimo uma boa notícia. Ela então me explicou: Hebe Camargo estava chorando porque lera um desagradável comentário sobre o programa dela. A crítica impiedosa a chamava de várias coisas, menos de inteligente. O crítico impiedoso, do jornal A Gazeta, era Zé Flávio, ou seja, nada menos que meu pseudônimo. Saí de mansinho.

Passava as tardes observando quem descia dos aviões no Aeroporto dos Guararapes. Ao avistar D. Hélder Câmara fui correndo perguntar o motivo de sua viagem e ele não se fez de rogado. Disse que iria assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife e me explicou sua prioridade: os mais humildes, claro. Dia seguinte, a entrevista saiu em Última Hora – Nordeste, onde eu era foca.


Flávio Tiné

Reproduzimos nesta semana algumas reminiscências jornalísticas que Flávio Tiné publicou em seu blog. Ex-Última Hora, Abril, Estadão e Diário do Grande ABC, entre outros, aposentou-se em 2004 como assessor de imprensa do Hospital das Clínicas de São Paulo. Como ele próprio diz, com problemas de locomoção, já estava confinado quando começou o confinamento.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para [email protected].

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