Memórias da Redação – Mário Eugênio morreu

* Por Eduardo Brito

 

Mário Eugênio Rafael de Oliveira, repórter policial conhecido apenas como Mário Eugênio, era a grande atração do Correio Braziliense no final dos anos 1970 e começo dos 1980. Era alto, elegante no porte, atrevido e absolutamente irresponsável no que se referia à sua segurança pessoal. Sim, ele corria perigo permanente pela ousadia. E, sim, para falar a verdade, era irresponsável também no que escrevia e no que dizia em seu programa de rádio, o Gogó das Sete, na Rádio Planalto, que pertencia aos Diários Associados assim como o Correio Braziliense.

Certo dia, apareceu na redação do Correio um homenzarrão enfurecido. Queria porque queria falar com Mário Eugênio. Certamente não era para entregar-lhe flores. Estava furioso porque sofrera um roubo e, ao contar a história na sua página, Marão se referira a ele várias vezes como “o otário”. O secretário de Redação Renato Riella e o editor de Economia levaram mais de uma hora para demover o cidadão, que era serralheiro, nessa época uma raridade em Brasília. Depois de muita história conseguiram convencê-lo de que o repórter não fizera por mal. O serralheiro se enturmou e fez trabalhos para muitos dos jornalistas do Correio.

Visitas como essa eram comuns. Mário Eugênio não primava pela discrição. Contou em detalhes como a viúva de uma vítima de homicídio, bissexual, referia-se à dupla vida do marido, inclusive com pormenores, digamos, anatômicos. Veio daí mais uma ameaça agressiva na redação, agora dos filhos. Isso era o dia a dia do repórter. De tanta encrenca, Marão passou a andar armado.

Ao que se sabe, a única vez em que a arma disparou foi na redação do próprio Correio Braziliense. Mário Eugênio sentava-se na mesa mais próxima à entrada, a dois metros da parede que separava a redação da sala do diretor Ari Cunha. Ao chegar, tirou o coldre e jogou-o sobre o tampo da mesa após manipular a arma. Ninguém sabe o que ele tinha feito, mas ao bater na mesa o revólver disparou. O buraco da bala, na altura da barriga de um colega, ficou por lá durante anos, como um registro da maluquice do repórter.

Os colegas não sabiam, porém, que Mário Eugênio estava comprando brigas muito maiores. Supunham, e estavam corretos, que ele contava com uma rede de informantes no meio policial, o que lhe rendia também certa cobertura. Marão denunciava ocasionalmente abusos de autoridades, assim como malfeitos de policiais, mas havia a presunção de que contava com mais amigos do que inimigos nessa área. Não se contava, porém, com a inata audácia do repórter que, como dissemos, beirava a irresponsabilidade.

Em meados de 1984, Marão andava em grande forma. Sua página no Correio Braziliense era frequentada por figuras impressionantes, como a Loura do Trezoitão, que comandava assaltos por todo o Distrito Federal. Nunca se soube se a Loura existia ou não. Suspeita-se que fosse um travesti, que acabou preso. O programa de rádio era campeão de audiência. O Gogó das Sete normalmente era gravado, pois Mário Eugênio não gostava de acordar cedo, mas procurava dar-lhe o máximo de atualidade, aparecendo no estúdio quando fechava seu espaço no Correio, tarde da noite.

A essa altura, Marão começou a falar em um esquadrão da morte. Seria financiado por comerciantes locais para liquidar assaltantes pés-de-chinelo, que invadiam lojas e, principalmente, furtavam carros em zonas nobres do Distrito Federal. No jornal e principalmente na Rádio Planalto, o repórter dizia que estava cada vez mais perto de descobrir os integrantes do esquadrão e prometia revelações estrondosas para os dias que se seguiriam.

Na noite de 11 de novembro de 1984, Mário Eugênio deixou o Correio Braziliense, no Setor Gráfico, pelas 22h e foi para a Rádio Planalto, que ficava em um edifício isolado, perto da W3, zona central da cidade. A essa hora, a área ficava deserta. Gravou o programa e deixou o prédio às 23h55. Foi assassinado com sete tiros na cabeça.

O secretário de Segurança, Lauro Rieth, era um coronel do Exército. Prometeu apuração severa e rápida. Claro, nada aconteceu. O Correio Braziliense contratou um bravo advogado, Aidano Farias, só para acompanhar o caso. Mobilizou, claro, toda a equipe. Mas a coisa não andava. A polícia aparecia com uma série de pistas, todas conduzindo a lugar nenhum.

Foi então que o Correio trouxe a Brasília um grande jornalista policial, Octávio Ribeiro, conhecido como Pena Branca, por ter uma mecha branca em sua cabeleira escura. A essa altura Pena Branca já tinha certa idade, que não revelava, e uma experiência inigualável. Saiu a campo e horas depois encontrou o fio da meada. Em questão de dias, tudo estava esclarecido.

O esquadrão da morte denunciado por Mário Eugênio era comandado por policiais, que recrutavam soldados do Exército como peões. Os tais bandidos pés-de-chinelo que volta e meia apareciam em desovas eram recolhidos nas celas de delegacias onde aguardavam ser colocados para “puxar” veículos. Após um tempo eram mortos.

O primeiro peixe grande a ser pego foi o policial civil Moacir Loiola. Foi preso em Luziânia, vizinha a Brasília, chegou a prestar depoimento e foi encontrado morto logo depois, na delegacia. Suspeita de suicídio, nunca provado. Apesar de todas as tentativas, não se conseguiu mais barrar o inquérito policial. Com base nesse inquérito, o juiz Edson Smaniotto decretou a prisão de ninguém menos do que o delegado coordenador de Polícia Especializada, Ary Sardella, e do próprio secretário Lauro Rieth, além de outros policiais e recrutas do Exército.

O coronel Rieth entrou com sucessivos habeas corpus. Foram negados, mas o Supremo Tribunal Federal acabou decidindo que ele deveria ser julgado em foro especial. O procurador-geral evitou apresentar denúncia. Rieth não chegou a ser condenado, mas nunca mais teve cargo público. Virou uma espécie de fantasma a circular por Brasília. Os peixes menores foram condenados.

O assassino, autor dos disparos, era o policial Divino José de Matos, o Divino 45. Estava afastado, com um atestado de insanidade. Entrou-se em uma batalha judicial que ilustra a fragilidade do sistema policial brasileiro.

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) só foi condenar Divino a 14 anos de prisão em março de 2001. Pena confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em maio do mesmo ano. No entanto, o ex-policial passou dois anos foragido. Em 2004, enfim, foi levado por colegas de profissão para o Complexo Penitenciário da Papuda. Mas ficou atrás das grades, dividindo cela com outro acusado em uma ala só para policiais, somente até o início de 2008, quando ganhou direito ao regime semiaberto. Logo em seguida, recebeu a liberdade condicional.

Um conjunto de reportagens do Correio Braziliense, reunido sob o título O Esquadrão da Morte em Brasília e o assassinato do jornalista Mário Eugênio deu ao jornal o Prêmio Esso de Jornalismo em 1985.

 

* Eduardo Brito (edubrito@senado.gov.br) é editor executivo do Jornal de Brasília.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *