Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

Ao suspender o apresentador Gary Lineker por um tuíte criticando a política do governo britânico para refugiados, a BBC calculou mal o tamanho da simpatia pelo ex-craque da seleção inglesa e da tolerância com atos vistos como censura.

Lineker despertou fúria do Partido Conservador ao escrever que a linguagem usada no projeto de lei enviado ao Parlamento seguia o estilo adotado na Alemanha nazista.

Foi suspenso de seu programa Match of The Day sob o argumento de ter infringido as regras de uso de mídias sociais da BBC.

Colegas do jornalismo esportivo, convidados habituais do programa, políticos de oposição e celebridades entraram em campo. O que se viu foi uma goleada de críticas e um boicote que praticamente paralisou a cobertura esportiva do fim de semana.

Nessa segunda-feira (13/3), o diretor-geral Tim Davie e Lineker anunciaram a paz, resultado de um acordo visto como capitulação. A analogia com o placar de um jogo − Lineker 1 x 0 BBC − virou clichê na mídia britânica.

Lineker nem tinha voltado ao ar e já tuitava novamente sobre refugiados, mantendo a bola da controvérsia em campo.

Gary Lineker (reprodução BBC Sports)

O caso abriu debates sobre questões importantes: imparcialidade da imprensa, independência do jornalismo de serviço público, influência de governos na mídia e o uso de redes sociais por figuras que representam companhias.

Essas questões não se restringem à BBC ou ao Reino Unido.

Nesse caso em particular, a BBC virou vidraça no início do governo de Boris Johnson, insatisfeito com o que julgava uma cobertura tendenciosa do então encrencado Brexit, ameaçado por movimentos em favor de um novo plebiscito.

Johnson ganhou de lavada as eleições gerais de 2019, que o entronizaram no cargo herdado com a renúncia de Theresa May. Mas ficou a mágoa com a BBC, traduzida em comentários regulares sobre a perda de imparcialidade, nomeações questionadas e interferências no modelo de negócio, reduzindo as receitas que levaram a rede a demitir e a cortar programação.

Como tantos políticos, Johnson e seus aliados não gostam de críticas. Mas seu escopo de interferência é menor na mídia privada, que em geral não depende de propaganda governamental  para sobreviver e seus dirigentes não são nomeados pelo governo.

Estrategicamente, interferências e reclamações contra a BBC não são associadas ao desconforto com a cobertura negativa, o que seria visto como censura. A narrativa é a imparcialidade esperada de uma empresa pública, que estaria em falta por lá.

O problema é definir imparcialidade. Há quem defenda o chamado bothsidesism, que garante espaço igual para opiniões opostas. Outros acreditam que não se pode dar espaço igual quando se trata de posições preconceituosas, nocivas à sociedade ou simplesmente erradas, como a noção de que o aquecimento global não existe.

Para políticos, críticas são desagradáveis, e tendem a ser tratadas como defesa do outro lado do espectro. O curioso no caso da BBC, como observou o ex-chanceler britânico Philip Hammond em uma entrevista sobre a crise, é que a rede é criticada pela esquerda e pela direita, um bom sinal.

Mas a mudança é visível no jornalismo da rede. A impressão atual é de que todos estão pisando em ovos, evitando temas polêmicos que irritem o governo e atraiam mais problemas. Quem perde com o chilling effect é a sociedade.

Outra bola dividida da crise é o uso de mídias sociais por pessoas que representam empresas, um problema que afeta qualquer corporação.

Gary Lineker expressou sua posição na conta pessoal e não no programa esportivo, que nem é vinculado ao jornalismo.

Ainda assim levou cartão, com base na política de mídias sociais aplicável a jornalistas, que gera desconforto entre profissionais de imprensa. Alguns que deixaram a BBC recentemente apontaram com um dos motivos a falta de liberdade de expressão.

Tim Davie anunciou uma revisão na política, a ser conduzida de forma independente. O modelo que a BBC encontrar para equilibrar liberdade de expressão e alinhamento ao discurso corporativo pode servir como inspiração para outras companhias. Se é que ela vai encontrar.


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