Fake news instiga britânicos a rejeitarem vacina, mas maioria pede regulação

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

“Vacina para o Natal” foi a manchete de vários jornais britânicos nessa terça-feira (21/7), traduzindo a esperança de que o pesadelo do coronavírus esteja chegando ao fim, no embalo de previsões animadoras sobre a eficácia da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford. Ao mesmo tempo veio uma notícia preocupante: um em cada quatro britânicos pode recusar a imunização, ainda que informado sobre a sua segurança.

Parece até que os que advogam por controle sobre as plataformas digitais para estancar a proliferação de fake news estavam adivinhando. No mesmo dia, o Comitê de Digital, Cultura, Mídia e Esporte do Parlamento publicou o longo, esperado e duro relatório sobre desinformação na pandemia, instando o Governo a apontar de imediato um órgão regulador para as redes sociais.

O perigo do movimento antivacina − A pesquisa feita pelo empresa ORB mostra o alcance da desinformação propagada nas redes. O movimento antivacina é um exemplo. Ele começou para valer após um artigo publicado em 1999 na insuspeita revista médica The Lancet, sobre o qual falamos aqui.

Levou dez anos para que o artigo fosse removido por falta de evidências. Tempo suficiente para alavancar uma das maiores − e agora mais perigosas − fake news da história.

É certo que o fato de ser uma vacina nova para uma doença nova pode despertar insegurança. Mas os partidários do movimento souberam aproveitar o clima de incerteza. A pesquisa indica que 23% dos britânicos não tomariam a vacina.

Pode parecer pouco diante dos 73% que pretendem se imunizar − o restante não sabe. Mas para a contenção da doença que transformou vidas e derrubou economias, faz diferença. O vírus continuará fazendo estragos mesmo após a ciência ter conseguido domá-lo.

Também impressiona o fato de o Reino Unido ser um país escolarizado e com imprensa sólida. Além da vasta gama de veículos privados, o país tem uma das melhores redes públicas de comunicação, a BBC, que atinge todo o seu território com canais de TV, emissoras de rádio e noticiário online.

Se em um país bem informado a fake news da vacina prospera, assusta pensar o que acontece em nações sem as mesmas condições. De todas as notícias falsas que passaram a circular pelas redes a respeito da Covid-19 − algumas bizarras como a sugestão do presidente Trump de injetar desinfetante no corpo para eliminar o vírus −, a da vacina está entre as que pode ter mais consequências práticas, porque alimentou-se de um movimento anterior e pela sua abrangência.

Relatório cobra ação do governo − No Reino Unido, as pressões na direção de regular as plataformas são fortes. O relatório da comissão parlamentar publicado esta semana faz uma detalhada análise do problema e cobra a designação de um órgão de controle, alegando que isso havia sido prometido há 15 meses, na sequência do White Paper sobre danos online.

Odocumento sustenta que a legislação atual é atrasada e não trata dos danos causados pela desinformação. E que as empresas de tecnologia usam modelos de negócio que desestimulam ação contra informações erradas, oferecendo oportunidade para pessoas mal-intencionadas  ganharem dinheiro com conteúdo falso.

Diante do risco de a desinformação neutralizar parte do efeito que a vacina contra o coronavírus pode ter sobre a saúde pública global, cresce a responsabilidade da imprensa e de outros atores da sociedade − governos, corporações, ONGs − de ajudar a conter esse outro vírus: o das fake news relacionadas à imunização contra a Covid-19. E de agir para reverter seus efeitos.

Já as plataformas digitais têm nas mãos a oportunidade de utilizar os meios tecnológicos de que dispõem para demonstrar que os benefícios por elas trazidos não são menores do que seus efeitos colaterais. A pandemia é uma ótima hora para isso.

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