Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

O mundo corporativo está cheio de exemplos de executivos que se manifestaram nas redes sociais e acabaram enrascados por baterem de frente com políticas das empresas para as quais trabalhavam. Ou por abordarem temas sensíveis de forma pouco cuidadosa.

Mas quando esses incidentes envolvem celebridades e jornalistas, o impacto é ainda maior, já que em muitos casos sua influência é planetária. E a paixão de seus admiradores faz com que as opiniões sejam extremadas.

Dois casos ocorridos nos últimos dias no Reino Unido são exemplos de como as redes são um campo minado, seja pelo que se fala nelas no presente ou pelo que se falou no passado.

No primeiro, uma infeliz troca de mensagens no Twitter sobre o nome da filha do casal Harry e Meghan, Lilibet Diana, saiu caro para uma advogada e uma jornalista.

A conversa era sobre o uso do apelido familiar da rainha Elizabeth, que provocou controvérsias e especulações sobre se ela teria autorizado ou sido consultada.

Joana Toch, sócia de um escritório jurídico, e Julie Birchill, colaboradora do Daily Telegraph, debateram sobre o nome, com comentários considerados racistas e ofensivos. Toch foi suspensa e Birchil foi “desligada” do jornal, embora não tivesse vínculo.

Ambas se desculparam, como de praxe, mas a visibilidade que a conversa ganhou por envolver Harry, Meghan e rainha deve ter ajudado a fazer com que as organizações agissem rápido e de forma implacável.

O passado que condena

Redes sociais nivelam passado e presente, mostram exemplos ingleses
Ollie Robinson

O peso da fama também contribuiu para a dimensão alcançada pelo drama vivido pelo astro do críquete Ollie Robinson desde a semana passada.

A crise repete um padrão que vem acontecendo com cada vez mais frequência: postagens antigas que voltam para assombrar seus autores.

Há dez anos o atleta tuitou mensagens racistas e sexistas, que reapareceram em seu primeiro dia jogando pela seleção inglesa no mais importante campo de críquete do país, o legendário Lord’s Cricket.

Robinson se desculpou, dizendo lamentar o que fez e ter vergonha dos comentários. Mas acabou suspenso pelo BCE, o Conselho de Críquete da Inglaterra e País de Gales. Muitos jogadores criticaram o colega.

Até aí o roteiro seguiu como esperado. O que foi inesperado é que em seguida ele foi defendido publicamente. E por ninguém menos do que o secretário nacional de Mídia e Esportes, Oliver Dowden, e pelo primeiro-ministro Boris Johnson.

Dowden pediu que o Conselho reavaliasse a punição porque o caso ocorreu quando Robinson “ainda era um adolescente”. Nem tanto, pois já tinha 19 anos. Johnson manifestou apoio ao secretário, mas o BCE até agora ignorou.

Redes sociais nivelam passado e presente, mostram exemplos ingleses

Essa reação do governo é coerente com um pensamento comum entre figuras proeminentes do conservadorismo britânico, como o jornalista Piers Morgan: críticas a “excessos” do politicamente correto.

Morgan foi o que deixou o posto de apresentador do noticiário matinal da ITV em março por ter se recusado a pedir desculpas por comentários feitos sobre Meghan Markle. Ele é autor de um livro chamado Wake Up, um trocadilho com a palavra “woke”, que que significa o comportamento politicamente correto.

A manifestação do oficial sobre o caso de Robinson evidencia também o quanto o tratamento a desastres nas redes sociais está longe de alcançar a unanimidade.

Erros do passado (ou do presente) são imperdoáveis? Ou desculpáveis se a figura pública não tem um comportamento racista ou sexista como padrão?

O caso de Robinson ainda está nas redes sociais e na imprensa. O atleta pode até se safar de punição, mas ficará marcado, tornando-se mais um exemplo do risco de imprudências nas redes para as carreiras.

Robinson ainda levou colegas junto. Esta semana emergiram tweets de três outros jogadores. Um deles, Jimmy Anderson, de 38 anos, usou o Twitter em 2010 para comparar o novo corte de cabelo de outro atleta ao de “uma lésbica de 15 anos”.

Ele até tinha removido a postagem. Mas não adiantou, mostrando que o passado condena mesmo quando se tenta apagá-lo.

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