Elas por Elas registra casos de feminicídio contados por profissionais de comunicação

O Portal Metrópoles iniciou o ano com um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. O Elas por Elas conta histórias de todas as vítimas de feminicídio do DF.

Os perfis são escritos por mulheres jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas, com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres. O primeiro perfil foi contado pela editora do projeto Erica Montenegro. O segundo, em 24/3, por Carol Pires. Para os próximos já estão escaladas Ana Beatriz Magno, Juliana Nunes e Cristina Serra.

Até 22/3, 3.387 mulheres já haviam procurado delegacias de polícia para relatar casos de agressões. Este ano já foram registrados seis feminicídios e 16 tentativas. O Metrópoles propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no País.

Desde 1°/1, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados na região. Para a publicação, o mais importante é humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileiras. “Elas podem ser suas filhas, mães, irmãs, amigas, esposas. Elas, na verdade, podem ser você!”, finaliza o editorial de lançamento do projeto.

Lilian Tahan

Lilian Tahan, diretora-executiva do Metrópoles, falou a J&Cia sobre a iniciativa:

Jornalistas&Cia – Quando começou a veiculação do Elas por Elas? E como surgiu a ideia do projeto?

Lilian Tahan – Começamos no dia 1º de janeiro. Mas a ideia surgiu muito antes da virada do ano, no final de 2018, a partir da nossa percepção sobre o aumento dos casos de violência contra a mulher. São muitos, milhares, e estão fora do alcance de nossa produção diária de notícias. Se fôssemos nos dedicar a veicular todos os episódios, não faríamos mais nada. Essa certeza não nos impediu de buscar um jeito de reportar absolutamente todas as ocorrências, não importando o custo e o trabalho que essa decisão nos gerasse. O que poderia ser mais importante?

J&Cia – Sabemos que a maior parte da equipe do Metrópoles é composta por mulheres. Como o projeto impactou na dinâmica da redação?

Lilian – Houve uma pronta aceitação do projeto por parte das colegas. Sabíamos que a campanha nos demandaria muita energia de trabalho, mas sempre estivemos convictas da importância social que seria denunciar todos os dias, ao longo de um ano inteiro, as barbaridades que as mulheres passam no século XXI, mesmo acolhidas na capital de um país onde imagina-se que haja mais acesso à educação, às informações e, quando necessário, apoio do Estado. Assim, juntas, fizemos um mutirão para atualizar em tempo recorde o número de ocorrências dos atos violentos praticados contra as mulheres. Abrimos uma janela no site, em posição de destaque, justamente onde ficava um de nossos espaços publicitários mais rentáveis, para exibir esse contador da violência. Todas as vezes que alguém entra na home do Metrópoles é impactado por esse volume avassalador de vezes que mulheres do DF foram espancadas, quase sempre por seus próprios companheiros, com quem dividem a vida, os sonhos, a criação dos filhos.

J&Cia – A violência e os feminicídios são uma realidade cada vez mais frequente no País. Quais as razões de tantos casos surgidos em Brasília e no Entorno? Há políticas públicas de apoio a essas mulheres na capital do poder?

Carol Pires

Lilian – Se nem na capital do País estamos a salvo, onde estaremos? Essa conclusão é sintomática e nos leva à reflexão de como ainda estamos distantes de uma rede de proteção eficiente. Além do contador da violência e da publicação de matérias diárias sobre o assunto, tomamos também a decisão de enxergar, em profundidade, a história daquelas mulheres que morreram vítimas de feminicídio. Em menos de três meses, morreram seis mulheres. Se o Estado não é capaz de deter homens assassinos, quem poderá? Como os nossos braços seriam insuficientes para contar todos os episódios de agressões, decidimos estender a missão e dividi-la com colegas não necessariamente integrantes da redação do Metrópoles. Foi assim que a jornalista e roteirista Carol Pires escreveu, na última semana, o perfil da Diva, uma senhora de 69 anos que viu o próprio filho ser atingido a balas pelo marido e depois foi morta por ele. Na época do episódio, todos os jornais noticiaram a tétrica história, mas foi Carol quem nos trouxe o fato de que, antes de ser assassinada, Diva morreu um pouco por dia ao longo de 50 anos de um casamento opressor.

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