E se Eliane Brum não tivesse escrito esse texto?

* Por Wilson Baroncelli

 

Eliane Brum é conhecida pela sensibilidade ao fazer reportagens sobre gente simples do nosso País, e foi muitas vezes premiada por isso. Mas a cada novo texto ela parece querer se superar, o que frequentemente faz com maestria.

Esse é o caso de E se a classe média de Pinheiros tivesse se omitido?, que publicou em 24/7 no site de El País, para o qual escreve atualmente. Tendo como subtítulo A reação diante do assassinato do carroceiro risca um limite no país sem limites, ela faz uma análise profunda das implicações do movimento deflagrado em São Paulo a partir da execução do catador de material reciclável Ricardo Silva Nascimento, de 39 anos, negro, no último dia 12/7, no bairro de Pinheiros, por um policial militar branco, de 24 anos, e das raízes da violência por parte de agentes públicos que grassa em nosso país, principalmente contra pessoas mais humildes. Ela também aborda a omissão das pessoas em lutar contra a usurpação de seus próprios direitos, afirmando que não basta agir nas mídias sociais, “é preciso botar o corpo na rua”.

O protesto contra a morte de Ricardo uniu a classe média local e moradores de rua, com direito a passeata e missa de sétimo dia na Catedral da Sé, que teve como um dos articuladores Audálio Dantas. Em 1975 ele liderou um movimento de resistência à ditadura a partir da morte, sob tortura, do jornalista Vladimir Herzog, cujo marco inicial foi justamente um culto ecumênico de sétimo dia na Catedral.

Ato diante da Catedral da Sé contra o assassinato do catador Ricardo Nascimento pela PM – Foto: Lilo Clareto

Em seu texto, Eliane compara os dois episódios:

“Se lá a instituição que representava a repressão era o Exército, hoje, a instituição que representa a repressão é a Polícia Militar. E este é um dado fundamental para compreender o atual momento do país, assim como as semelhanças e as diferenças dos personagens e da aliança conservadora que comanda o Brasil.

Herzog foi assassinado no DOI-Codi, num país comandado por generais, com o apoio de parte significativa do empresariado nacional. Ricardo foi executado pela PM do governador Geraldo Alckmin, num país comandado por uma aliança conservadora que inclui o PSDB, partido fundado por ex-exilados da ditadura, com a participação significativa do empresariado nacional. Michel Temer (PMDB) ou Rodrigo Maia (DEM), seu sucessor, caso Temer não consiga barrar o processo de denúncia no Congresso, são peões de um jogo muito mais intrincado.

O mais significativo ato de potência num país interditado foi ignorado ou tratado como algo menor pela grande imprensa, num noticiário dominado pela Lava Jato, pela condenação de Lula, pelo aumento da gasolina e pelas barganhas no Congresso. Sobre a missa na Sé, muito pouco. Mas talvez nada seja mais importante hoje do que enxergar onde está o movimento. Ou onde estão as pequenas rachaduras nos muros. É assim que as transformações profundas, as estruturais, começam ou continuam. A potência hoje e já há algum tempo está em outros lugares e em outros atores.

É importante fazer a pergunta pelo avesso: e se os moradores de Pinheiros tivessem se omitido, como faz a maior parte da população mais rica e mais branca?

Se os moradores de Pinheiros tivessem se omitido, algo invisível e terrível teria acontecido. Numa camada mais profunda, foi isso que algumas pessoas que entrevistei relataram. O que provocou o movimento foi também a percepção de que, caso ficassem caladas, estariam todas perdidas. Testemunhar a execução de alguém que conheciam, em plena rua, no horário de pico, sem nada fazer, porque era negro e porque era pobre, teria tornado impossível voltar a riscar qualquer limite. Estariam todas além de qualquer retorno, e com elas o país.” (Confira a íntegra do artigo)

Ainda como desdobramento do episódio, está marcada para esta sexta-feira (28/7) missa no Largo de Pinheiros em memória a Gilvan Artur Leal, conhecido como Piauí, principal testemunha da execução do carroceiro Ricardo. Pouco dias depois de presenciar o crime, Piauí, que era morador de rua, morreu de AVC. A missa será às 18h na paróquia Nossa Senhora de Monte Serrat – Largo da Batata/Estação Metrô Faria Lima.

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