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sábado, maio 25, 2024

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#diversifica – Especial: Subjetividades – Transcrição: Ep. 1 – Entrevistado: Caê Vasconcelos

Luana Ibelli

Olá!

Sejam muito bem-vindas e bem-vindos ao #diversifica, um podcast sobre Diversidade, Equidade e Inclusão no Jornalismo.

Eu sou Luana Ibelle, sou apresentadora e editora do Portal dos Jornalistas, que produz esse podcast. A gente estreia como uma série de seis episódios, o especial Subjetividades. Eu vou conversar com profissionais que estão engrandecendo redações pelo Brasil com seus trabalhos e as suas experiências como pessoas diversas. O que a gente quer nesse espaço é abrir um debate que a gente acha muito necessário no jornalismo, uma mudança que a gente quer ver acontecer porque as redações ainda são muito pouco diversas, muito pouco inclusivas, e a gente acha que isso acaba contribuindo pra gente ver coberturas que não retratam a realidade com respeito com profundidade, principalmente quando a gente fala da realidade de pessoas invisibilizadas, pessoas vulneráveis. 

Então, pra gente abrir esse episódio, a gente tem um convidado notável, muito especial, que para mim representa muito a diferença que faz ter pessoas diversas construindo as narrativas. 

Caê Vasconcelos, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.

 

Caê Vasconcelos

Obrigado Luana, é uma honra e tô bem feliz para esse papo, acho que vai ser um papo bem massa.

 

Luana Ibeli

Ai que bom. Também tô feliz! 

Caê, começa então se apresentando pra gente, contando o que que você tá fazendo hoje e um pouquinho da trajetória que formou esse jornalista que você é. 

 

Caê Vasconcelos

Bom, sou Caê Vasconcelos, 31 anos, dizem que parece que eu tenho menos então fico feliz com esse elogio. Eu sou cria da Vila Nova Cachoeirinha, né?! É uma das quebradas da Zona Norte de São Paulo. Eu morei lá 28 anos da minha vida, eu tenho três que eu estou morador do centro, mas não sou um morador do centro. Aprendi muito isso com as meninas do Nós, Mulheres da Periferia, né. O ser e o estar, acho que são coisas diferentes. 

Eu sou homem trans, bissexual, me formei na faculdade em 2017 por conta do ProUni, né, que entrei na universidade pagando, saí com o ProUni, que foi com certeza assim que mudou muito a minha realidade também, sendo uma das primeiras pessoas da minha família a chegar na universidade, né, que ainda avançou muito nos últimos anos para cá, mas ainda é uma coisa difícil, né, a gente ter um diploma universitário.

Em 2017 fazendo o meu TCC, que foi um livro sobre pessoas trans no mercado de trabalho, né, que foi lançado pela Dita Livros, o Transresistencia. E escrevendo ele pela primeira vez, conversando com os primeiros meninos trans que eu percebi que não era sapatão e sim um homem trans, e isso mudou assim minha vida completamente. Não só pessoal, mas profissionalmente também.

Hoje eu tô na ESPN, sendo editor no SportsCenter, que é um dos jornais diários que tem lá, fui repórter da Ponte Jornalismo por três anos e meio que foi a minha bagagem, né? Acho que o jornalista que eu sou hoje foi por ter sido criado ali no jornalismo independente. Ainda faço parte da Agência Mural, que foi o primeiro lugar que eu escrevi a primeira matéria lá em junho de 2017. Ainda tô colaborando com eles e escrevendo para outros vários lugares aí né, sempre com a temática de direitos humanos, que para mim não dá pra você ser jornalista não pensar no Direitos Humanos. As duas coisas têm que caminhar sempre juntas.

 

Luana Ibeli

Eu acho que isso tem tudo a ver com o tema que eu queria introduzir agora, né. O nome do nosso especial é Subjetividades, fazendo um contraponto com a questão da objetividade jornalística, que é esse paradigma que a gente aprende desde a faculdade e muitas pessoas falam ser possível ou não ser possível. Então queria que você comentasse dessa perspectiva. É possível a gente fazer um jornalismo neutro, imparcial, principalmente quando a gente fala dessa abordagem da realidade de pessoas vulneráveis, invisibilizadas?

 

Caê Vasconcelos

Acho que tudo na sociedade não dá pra gente ser neutro, né? Qualquer coisa. Acho que é muito doido assim, que enquanto sociedade no geral, não pensando muito no jornalismo, a gente acha que dá para ser neutro, que dá para ser imparcial, que tudo não é político. Tudo é política! Tudo que a gente decide fazer no nosso dia, o que você decide consumir, o que você decide não consumir, não só em quem você vai votar. As pessoas acham que a política fica muito em quem são os candidatos, mas não, política é tudo, é se você vai consumir de pessoas negras, periféricas, pessoas LGBTS, isso também é falar de política. 

E para mim, eu dou muita palestra em faculdade, ainda bem, o que hoje é muito doido, né? Formei em 2017, nunca tive palestra com nenhuma pessoa trans, e hoje eu tenho sido essa pessoa que tá indo nas universidades falar. E a primeira coisa que eu falo pros jornalistas é que não existe imparcialidade no jornalismo, tudo é decisão. Se a gente vai fazer uma matéria sobre sei lá, qualquer tema, e a gente escolhe só ouvir homens cis-héteros brancos de classe privilegiada, é um uma parcialidade que a gente tá trazendo, porque aquela pessoa não vai ter talvez aquela realidade. A gente tá falando por exemplo, pensando em segurança pública, né, que foi uma coisa que eu cobri durante tanto tempo. 

Tem um título que eu acho que ele é muito emblemático, né, que é aquele, não vou citar o portal, quem leu à matéria vai saber qual é, que a Maré é um bunker de bandidos. Por que que a Maré e o complexo de favelas da Maré é um bunker de bandidos e não Ipanema, Copacabana? Ou trazendo pro contexto de São Paulo, né, porque em Paraisópolis a polícia pode entrar e matar vários jovens que estavam curtindo lazer, porque o funk é um lazer, querendo a sociedade ou não, é a forma que esses jovens periféricos encontram ali para poder, sei lá, extravasar, pensar em outras coisas que não só trabalho e a violência que a gente acaba vivendo nas quebradas.

Por que que ali a polícia pode entrar, mas nas ruas ali dos bares da Mackenzie, que também tem tráfico de drogas, a polícia não faz dessa forma. Então cada palavra que a gente escolhe colocar em um título, cada pessoa que a gente entrevista, é a gente que está sendo parcial. 

Eu acho que a diferença é que de 2013 para cá, quando nasce o jornalismo independente, está se assumindo um papel, né? Então sim. Esse site é de direitos humanos, tem esse viés, então aqui a parcialidade está mais dita do que nos veículos que tentam sempre ser imparciais, né, porque para mim, muito do que a gente vive na sociedade ainda pensando na sociedade extremamente patriarcal, machista, racista, lgbtfóbica e classista, é culpa do jornalista também, que durante anos não eram pautas que a gente estava falando e agora está sendo falado, e ainda bem, porque a gente tá chegando nas redações, né, a gente tá pensando putz, isso é importante para mim então pra quantas outras pessoas com a minha realidade não seriam importantes a gente estar falando sobre isso.

Eu tive o privilégio de conseguir estar trabalhando na Ponte Jornalismo quando eu conto publicamente da transição. E aí tudo que vinha de dúvidas, por exemplo, quando eu fui me alistar no Exército, que é uma obrigatoriedade, né, todo homem trans, depois de retificar o nome, precisa se alistar no Exército, que a gente passa a ser visto também na sociedade enquanto homem, eu fiquei: Como que faz isso? O que que vai acontecer? Aí eu falei, gente, quero escrever um texto porque se eu tenho essa dúvida, quantos outros meninos trans não podem ter. Então eu enxerguei que talvez usar esse privilégio, ter esse lugar que me deu todo o espaço pra poder fazer as pauta seria bom não só pra mim, mas para os outros meninos, e o feedback sempre é positivo, né, tipo nossa, estava aqui pesquisando, cheguei nessa sua matéria, eu estou muito mais tranquilo agora para poder fazer isso porque é assustador, né, eu fiquei pensando, imagina com 30 anos de idade você ter que alistar agora pro exército e ser convocado sei lá, né, mas depois eu entendi que não, não era possível porque eu uso óculos também (risadas), várias questões, mas dá os medos, né, como a gente não sabe o que está acontecendo.

 

Luana Ibeli

E você passou por esse processo trabalhando, né, e a gente, uma questão, que quando eu vi essa história, você contando em outros locais, eu fiquei pensando que a gente que é jornalista, tem a questão da nossa assinatura, né, que é associada as coisas que a gente faz, e você teve que passar por esse processo enquanto era jornalista e mudar sua assinatura, como que as pessoas iam enxergar. Você teve esses medos durante esse processo?

 

Caê Vasconcelos

Eu acho que uma das coisas que me travou, que eu demorei, é que assim eu demorei uns dois anos e meio né, do momento que eu percebi a primeira vez ali que, hum, acho que eu sou um homem trans, como esse meninos que eu estou entrevistando, até eu ter coragem de começar a contar. E esse começar a contar foi, sei lá, a pessoa que eu me relacionava na época, meus amigos mais próximos, aí isso era dezembro de 2019, quando eu comecei a contar. Março eu comecei a contar um pouquinho mais pra minha família, que foi minha irmã, outros amigos, e na Ponte eu acho que foi mais ou menos em abril de 2020. Em maio eu já fiz esse texto, e ainda bem que eu tava num veículo que é isso, né, não só me deram todo o espaço mas falaram você vai decidir como que você quer falar. “Você quer fazer um texto? Você quer fazer um vídeo? Você não quer fazer? A gente só troca assinatura e aí quem entender entendeu?” 

Só que aí eu voltei nisso, né, eu falei putz, eu acho que é uma oportunidade de escrever um texto sendo didático, né, pras pessoas, explicando porque que é importante a gente respeitar o nome e respeitar o pronome, porque que eu demorei tanto tempo, né, para poder me entender um cara trans e ter coragem de falar, porque é isso né, em 2017, quando eu começo a escrever o meu livro, eu só tenho experiências ruins na imprensa, principalmente.

Muito recentemente a imprensa começou a lembrar que pessoas trans, travestis, pessoas não binárias têm vidas. A gente não é só morte e violência, né, a gente é muito mais do que isso. Então sempre foi uma cobrança muito forte que eu fazia na Ponte. Ok, a gente é um site de Segurança Pública, mas eu quero trazer vida também, porque Direitos Humanos é isso, né? 

Então, eu só tinha experiências ruins ali então eu pensei: putz vou contar agora que eu sou um cara trans, com quase 27, 28 anos. Foi quando a minha ficha realmente caiu: vou perder meu emprego, vou perder o afeto da família, vou perder tudo que eu tenho ao meu redor. Será que eu preciso disso? Então eu falei: não, acho que é uma oportunidade de trazer esse texto para mostrar porque que é tão doloroso, e porque que foi tão difícil pra conseguir contar pras pessoas. E teve um medo assim, né?

Tanto que é assim, eu sou super a favor daquilo, nome morto é nome morto. O nome que me deram no meu nascimento não importa. A gente pega, joga ele fora e começa a falar desse nome a partir de agora, mas como eu já era conhecido por um nome, eu lembro que no começo do texto eu começo assim: “vocês me conhecem por esse nome, mas a partir de agora é esse outro nome”, porque eu pensei: “bom, nunca se falou sobre isso na Ponte, né”. Eu acho que eu nunca tinha visto uma transição acontecer midiaticamente dessa forma, e eu poder escrever um texto, acho que também é um privilégio que eu abracei pensando que para mim tudo é coletivo. Claro que a gente está no momento que pessoas acabam chegando. Um chega, outro chega, mas é pensando que outras pessoas têm que vir depois, né, então se não for coletivo, o avanço pra mim não existe. Então eu pensei como que eu consigo fazer esse texto para que outras meninas, outros meninos, outras pessoas se empoderem também. Ainda bem que eu fiz esse texto porque imagina, eu já estava há quase dois anos como repórter da Ponte, muitas fontes que eu tinha, sei lá, que falar semanalmente, então eu só pegava esse texto e mandava: “tipo, antes de falar sobre essa pauta, lê esse texto aqui..”. Aí a galera já trocava o nome, me mandava o print.

 

Luana

Mais para quem você mandava?

 

Caê Vasconcelos

Eu mandava para as minhas fontes, pra não ter que ficar, imagina, sei lá, 100 pessoas que eu falava no meu mês, na minha semana, ter que explicar para cada uma delas. Então eu pegava esse texto e já encaminhava, e sempre assim, o feedback ‘super’ “Nossa! Que bom! Tô feliz por você!”. E quando eu decidi que eu ia assinar como Caê Vasconcelos, né, eu não tinha decidido que nome ia tá no documento. Aí teve todo um processo, assim eu retifiquei Caetano, né, então no documento eu sou Caetano, mas foi todo um processo que acho que foi muito bonito porque muitas pessoas ao meu redor, não só família e amigos, mas fontes também, pessoas que eu conheci por conta do jornalismo, que nunca estiveram tão perto de uma pessoa trans, e eu meio que deixei a galera participar desse processo. Eu fiz enquetes no Instagram e no Twitter, por exemplo: e aí, retifica o Caê? Retifica o Caetano? O que que eu faço? E aí começou uma galera: “não tem que ser Caetano”, “tem que ser Caê”. Aí a maior parte da galera falou “meu, fica com os dois”. No documento você é Caetano, mas você assina como Caê, porque a gente tem esse privilégio também, de poder escolher o nome da assinatura. 

Mas foi, eu digo que a paciência que eu tive lá atrás, quando eu percebi que eu era um cara trans em 2017, ainda bem que eu consegui contar para as pessoas quando eu estava psicologicamente bem, né, porque assim a saúde mental nessas horas acaba, né, se você não tá pronto. Obviamente que eu enfrentei transfobias, né, não só como jornalista, mas como Caê também. Eu sempre digo assim, “que frequência que a transfobia acontece? Todo tempo”. Eu coloco o pé na rua a pessoa dependendo, agora que a gente tá conseguindo andar um pouquinho sem máscara, né, e eu tô com uma barba bem pequenininha, mas tô, a galera tem começado a respeitar um pouco mais, mas a minha voz ainda é uma voz de criança, né, acho que sempre vai ser assim. 

Eu já desisti de mudar ela porque também acho que eu tenho que amar quem eu sou, do jeito que eu sou, mas ainda hoje né, 2022, eu com essa expressão de gênero depois de fazer a mastectomia, que eu achava que a cirurgia era importante eu fazer por exemplo para me respeitarem, então é todo um processo, né, então ainda sofro assim muitas transfobias, mas essa paciência que eu tive de já ser um pouquinho reconhecido, né, porque assim, tinha a sorte também e o privilégio de trabalhar na Ponte, né, que é um veículo mega reconhecido no jornalismo. 

 

Luana Ibelli

Isso é importante, né? Você acha que se você tivesse em algum outro veículo, assim, mais tradicional o processo seria mais difícil, talvez?

 

Caê Vasconcelos

Com certeza. Eu tenho amigos, né, Pessoas trans, a Gabryella Garcia, por exemplo, foi demitida quando contou da transição, quando pediu o nome social numa filial de uma televisão que ela trabalhava, então isso, sei lá, de dois, três anos atrás, né, a gente não tá falando de 10 anos atrás. Então, com certeza não teria tido essa acolhimento, até porque é isso, né, na Ponte eu já estava há quase dois anos ali e era uma família. A galera tinha esse acolhimento, esse cuidado.

Então quando eu contei pra eles foi assim, “você vai contar da forma que você quiser contar. Não precisa sentir pressionado”. Então, acho que eu não teria tido todo esse acolhimento. E é isso, né, será que eu teria tido a liberdade criativa também? A Ponte sempre me deu assim toda liberdade, “você vai falar da forma que você tiver confortável”.

Eu que construi a editoria LGBT lá. Eles sempre cobriram muito bem o assunto. Eu sempre achei dessa forma, que pensando como a imprensa tradicional cobria, por ser um veículo de Direitos Humanos, tinha um errinho ou outro ali, mas já era uma galera mais aberta para ter esse diálogo. Se eu tivesse numa grande redação também, Acho que não teria esse cuidado, né, que a Ponte parece que é muita gente ali, mas sei lá, é um grupo de 10 pessoas que faz a Ponte acontecer, né. Então é muito mais intimista, então cuidado assim, foi muito mais sensível, para agora eu estar numa redação gigantesca que é ESPN e eu me sentir tão bem acolhido quanto, né. Porque eu acho que eu fui bem treinado também ali no afeto e no acolhimento, então jornalisticamente, a melhor coisa que eu fiz na vida foi ter feito a transição. Eu achei que fosse a primeira coisa que eu ia perder, né. Ia perder todo o espaço no mercado de trabalho. 

 

Luana Ibelli

E aí você teve um retorno importante de outras pessoas trans, que viram o seu trabalho? Porque você falou que isso foi muito importante, né, para você decidir tornar o seu processo público. Deu esse resultado que você esperava?

 

Caê Vasconcelos

Nossa, até hoje. E quando eu vou avançando, né, por exemplo, esse texto da transição me trouxe um amigo muito especial, que é o Liel Marín, que também é jornalista. Ele trabalha hoje no audiovisual do UOL. Eu lembro que assim que saiu esse texto, eu não sei se ele já me seguia, não lembro, se ele me seguiu por conta desse texto, a gente começou a ser muito próximo e isso deu um pouquinho de coragem também de certa forma para ele contar da transição.

Hoje mesmo, né, vai ter o lançamento de um documentário que eu fui um dos entrevistados, né, de um menino Gabriel Belle, que tá se formando agora no Mackenzie enquanto jornalista, e o TCC dele foi sobre homens trans. E toda vez que o Gabriel fala, eu falo “para que eu vou chorar”. Ele falou que sofreu muitas transfobias na universidade, né, porque eu não tive essa vivência, por exemplo. Eu me percebo um cara trans só TCC já, e eu só conto para as pessoas dois anos depois quase, então ser um corpo trans na universidade, eu não faço ideia de quanto isso pode ser violento. E ele sofreu essas transfobias, né. E por conta da Patrícia Paixão, que não foi minha professora, mas acho que muitos alunos do jornalismo foram. Ela é maravilhosa, ela apresentou o meu nome para ele algum momento e ele falou, “isso que fez eu continuar a graduação”.

E agora o TCC dele é um documentário sobre homens trans. Ele falou “tem que ter você nesse documentário”. Eu falei então, beleza vai, eu topo ficar na frente das câmeras, né. Muito acostumada a ficar por trás, mas eu falei “bora então”. Tem muitos meninos que me procuram, não só meninos trans, mas pessoas trans no geral, né, que falam que eu sou uma inspiração, eu fico “gente, que louco sabe?”. Eu não consigo me ver nesse papel, mas acho que pouco a pouco a gente vai tentando entender, né.

Quando eu participei do Roda Viva, por exemplo, com a Érika Hilton, que foi o maior visibilidade que eu tive até hoje na minha carreira…

 

Luana Ibelli

Primeiro jornalista trans na bancada, importante dizer, né…

 

Caê Vasconcelos

…e a Érika sendo a primeira travesti daquele espaço, né, porque a Laerte tinha ido antes da transição, e eu e a Helena [Nota da Redação: Helena Vieira, escritora e dramaturga], os primeiros corpos ali de pessoas trans entrevistadoras, e eu o primeiro jornalista trans, então imagina a responsabilidade. Eu sabia que seu estava chegando naquele espaço, eu tava ali representando muita gente que veio antes, que infelizmente não está aqui para ver, né. Quantas pessoas transvestigêneres né, que é uma palavra cunhada pela Érika Hilton, e que eu gosto muito porque eu acho que representa né, que a gente não dá para apagar a identidade de travesti, mas a gente também traz a pauta trans. Então transvestigênere para mim é um palavra linda, que a gente devia usar muito mais para normalizar, né? Para naturalizar.

 

Luana Ibelli

É bom falar essa palavra, até falando de jornalismo, porque eu vejo ainda que muitos jornalistas ainda usam o transexual, né, por exemplo, e não estão por dentro assim, né, das palavras. É legal mesmo a gente poder saber né, o histórico dessas palavras, eu vejo que você usa bastante, né?

 

Caê Vasconcelos

Uso. Principalmente na Ponte. Não acho que, sei lá, eu vou chegar na ESPN e escrever essa palavra transvestigênere porque o público não vai estar pronto, mas na Ponte, como já tem um tempo que eu tenho usado, dá. Mas assim, transexual, realmente já é uma ótima dica. Não usem gente, porque isso confunde. Porque as pessoas acham que as pessoas trans, sei lá, acham que eu sou um cara trans porque em algum momento me identifiquei enquanto sapatão, sendo que hoje eu sou um cara transbissexual, né, que gosta de pessoas. Não é o gênero ali que tá sendo colocado em xeque, mas como a gente traz isso, de transexual no nome, parece que a gente tá remetendo a uma sexualidade. Então, sempre que der para usar o transgênere, né, para falar da pauta mais aberta. 

Isso é uma outra coisa também, né, o quanto eu acho que…agora a gente tem internet, né? No celular dá pra gente dar um Google e entender as coisas, então acho que muitas pessoas não querem realmente escrever da forma correta. Eu tenho vários textos artigos explicando como não ser transfóbico, né, não reproduzir as transfobias no jornalismo. A gente entra no Instagram e tem um monte de gente fazendo conteúdo de graça sabe, didático, e tem gente que ainda erra. É 2022, e as vezes eu ligo a tevê, principalmente quando a gente pensa em pautas que tem a ver com o corpo, né? Menstruação, gravidez, aborto. Sempre associam com o corpo feminino.

 

Luana Ibelli

Isso tá direto no jornalismo, né?

 

Caê Vasconcelos

Nossa, isso é uma coisa que me incomoda muito. No ano passado teve o veto do governo Bolsonaro ao absorvente. E assim, é muito importante falar de pobreza menstrual, porque tem pessoas hoje que usam papel de pão, sabe, porque não tem grana para ter um absorvente. Mas dá pra gente falar de pobreza menstrual, de aborto, de gravidez, de menstruação no geral sendo inclusivo, né, usando o termo “pessoas”, porque no fim das contas mulheres sim são pessoas, eu acho né, não sei porque as pessoas ficam assustadas quando a gente usa o termo pessoas [risos]. Nós, homens trans, somos pessoas, e mulheres cis também.

 

Luana Ibelli

E especialmente nessas pautas que falam de saúde, né, em que você realmente está excluindo pessoas de entrarem é de acessarem o seu direito à saúde, né? Mas aí eu fico pensando também que, justamente conforme a representatividade vai crescendo atrás das redações e também do público que vai demandando isso, a gente vai vendo esse jornalismo melhorando, né? E aí eu queria que você falasse um pouco, de algo que você já falou um pouquinho, outros jornalistas trans que estão aí, e que estão multiplicando. Que também vem aí depois do seu trabalho, ou até mesmo antes, e se encontram também no que você tá fazendo, eu queria que você falasse um pouco. Como que você vê hoje a representatividade trans nas redações?

 

Caê Vasconcelos

Ainda é muito pequena. Acho que existem muito mais jornalistas trans do que eu conheço, mas é isso, né, como que a gente consegue se acessar? Como que a gente consegue se encontrar? Eu lembro que, acho que uns dois anos atrás eu falei “meu não é possível que só tem eu”, sabe, escrevendo nu site. Deve ter alguém aí que, ou não tá escrevendo num site, mas é jornalista. 

Vamos tentar achar. 

Consegui chegar em 10 pessoas transar, mais ou menos, mas ainda é muito difícil isso. Tem muitas pessoas trans que estão dentro de grandes redações e que não conseguem emplacar uma pauta ali, por exemplo. Ou vêem uma pauta reproduzindo transfobia e não tem essa voz. Tá ali, sei lá, porque é importante ter esse funcionário aqui, né, porque se fala muito de diversidade, mas essa pessoa bai ser ouvida?

Eu lembro que assim, até hoje, vários títulos saíram. Teve um título que marcou muito, foi do G1, nessa época da pobreza menstrual, que tava lá “Bolsonaro veta absorvente feminino para mulheres e meninas de baixa renda”.

Absorvente não tem gênero, gente. E aí durante o texto é isso, né? O fantástico mesmo, eu lembro que eu até recebi muito ataque de ódio quando eu fiz esse tuíte, e foi um tuíte super simples assim: “Nossa, Fantástico. 2021 e vocês falando que a menstruação é uma coisa do corpo feminino”. Porque existem corpos femininos no plural e corpos masculinos no plural também. Meu corpo não é o corpo de uma mulher. É um corpo de um homem trans. Porque existem corpos no plural. 

E aí foi um tuíte super simples assim, e eu devo ter caído em algum lugar assim obscuro da internet, de pessoas de extrema direita, e eu recebi 1.000 replys de ódio. E assim, eu li os primeiros e falei “eu vou silenciar, não vou mais entrar aqui porque preciso preservar minha saúde mental”. Então quando a gente se posiciona agora, e até uma crítica as redes sociais também. Por exemplo, durante a pandemia o Twitter verificou muito jornalistas, porque a gente precisa ter essa credibilidade, né pensando que o Governo Federal descredibiliza a nossa palavra, então jornalista deixou de ser importante na sociedade, então foi importante dar esse selinho pra gente, mas a população no geral acha que o selo de verificado é muito doida essa lógica, que é para pessoas famosas. “Como assim você tem poucos seguidores e tem um selo?”. Gente, é questão de credibilidade de quem tá fazendo aquele conteúdo.

Então, sei lá, 50% dos ataques de ódio era de gente perguntando quem é essa pessoa verificada que ninguém conhece. Sou jornalista. Estudei para estar falando o que eu tô falando e som um corpo trans, né? Então para falar de menstruação, de aborto e de gravidez, eu sou uma pessoa que posso estar falando sobre isso que o meu corpo ainda é um corpo capaz de gerar. Mas é muito difícil, sabe, quando a gente vê que o próprio jornalismo, pessoas que poderiam estar dando um Google, sabe. Não precisa falar “corpo feminino”. Que que é menstruação? Corpos que tem útero, menstruam. E nem todos os corpos que tem útero menstruam porque tem mulheres e homens trans, e pessoas com útero que tomam remédios, por exemplo, né? Quantas mulheres cis não têm útero mais, porque tiveram que fazer cirurgias, por alguma doença. Elas deixam de ser mulheres porque elas não têm útero? Então é uma conversa que daria muito pra gente incluir, mas a galera ainda quer excluir, né…

 

Luana Ibelli

E dentro das redações, esse debate é muito difícil. Eu lembro que eu comecei a trabalhar com jornalismo em 2012, mais ou menos, e foi quando justamente você falou em 2013, que é mais ou menos quando começa a ver o jornalismo independente e o auge das redes sociais, que os grupos começam a demandar os temas. E eu lembro que eram muitos embates, e na questão trans, por exemplo, tinha muito embate de pronome. De falar com o editor “olha, a pessoa não quer o nome dela de batismo aqui”, como vocês falam, o nome morto. Tem toda uma questão e era muito difícil convencer os editores. E aí eu fiquei pensando como você falou, né, muitos jornalistas trans estão nas redações, mas não ocupam posições em que eles podem ter essa palavra final. Hoje, você por exemplo é editor, né, então isso faz diferença também. Não só você trazer esses jornalistas para a redação, mas também eles estarem em posições em que eles possam realmente interferir naquele conteúdo, porque o editor pega a nossa matéria e ele pode mudar algumas coisas. Como que você vê isso? Como que a gente pode fazer isso ser efetiva, né, porque acho que a gente tá falando de inclusão mais do que de representatividade, né? 

 

Caê Vasconcelos

Acho que a primeira ter mais jornalistas trans. Eu acho que a gente tá num momento em que a gente olha para as redações e ainda é muito cis-hétero branca, e de pessoas que sei lá, né, estudaram em faculdades caras e muito provavelmente não são periféricas, ou um ou outro conseguiu, por uma questão de Prouni, ou alguma bolsa, chegar naquele lugar. E é difícil, né, a gente conversar com pessoas que, sei lá, 2022 anos de mundo que as pessoas pensam daquela forma. E quem decide ainda são homens cis-héteros brancos, que dominam as redações, né? Então acho que tem que ter mais pessoas negras, indígenas, LGBTS, periféricas. 

Eu sempre digo que, a Mural para mim, é a redação mais diversa do Brasil, porque só tem pessoas periféricas. Então já começa daí né? Já tem uma questão de classe muito bem determinado. E nas quebradas a gente tem essa pluralidade de corpos, né? Eu nem gosto muito da palavra de diversidade. Trago muito mais a pluralidade porque é isso. Acho que foi uma luta muito esvaziada, né, “ai, porque a gente é diverso”, e tem uma pessoa negra na redação inteira. Isso não é ser diverso, né, gente, até porque é uma pessoa que vai estar sozinha. Ser uma pessoa trans sozinha numa redação é muito difícil, se os seus colegas não estão prontos para esse debate. 

Acho que a Angela Davis, que para mim é uma das melhores representatividades que a gente tem. Aquela frase que ela traz, que não basta não ser ser racista, tem que ser anti-racista, serve para pauta LGBT também. Não fui eu que criei a transfobia, não foi nenhuma pessoa trans, foram as pessoas cis, então a gente precisa que o jornalistas realmente se engajem nesse tema. “Putz, não é meu lugar de fala”. Ok, você não pode dar uma palestra sobre a questão trans, mas você pode escrever um texto. Eu acho que é muito doido pensar que tem jornalista que não é sensível para as pautas, né? 

Gente, o nosso papel é escutar as histórias e trazer elas, né? Como que eu posso trazer essa história sem tá invalidando e machucando aquela pessoa. Ter um nome morto numa matéria, não existe nenhum motivo jornalístico para isso. Nem se a matéria for sobre nome social, porque se for sobrenome social, você vai estar falando sobre a importância de respeitar o nome daquela pessoa. Até hoje tem muitas pessoas trans que me falam que perguntam se elas fizeram cirurgia ou não.

 

Luana Ibelli

Isso é uma das outras coisas complicadas, que é essas perguntas de intimidade, né? Foto de quando era criança, por exemplo. Quando eu tava na redação, que a gente ia fazer pauta, o editor pedia isso, sabe, e eu era mais novinha assim, eu já convivia com esses grupos. Eu acho que isso também é importante, né? A gente como jornalista buscar tá mais em contato com esses grupos, né? Porque jornalista, e agora falando da diversidade, de uma forma geral de diversidade e de inclusão, as redações ainda são super homogêneas, um indica o outro, então as pessoas que você conhece são as pessoas do seu círculo. O que tinha de editor que falava, “vai lá no meu bairro filmar, lá em Higienópolis. Vai lá filmar porque que choveu e alagou”. E aí você fala “nossa, quem são essas pessoas também da rede dele?”. 

Então é importante a gente estar em contato com a rede de pessoas que estão discutindo isso. Você que é jornalista, você segue pessoas trans? Você tá vendo o que eles estão falando? Na época eu seguia eu via. “Olha, ela não quer”. É um absurdo você colocar justamente o nome de batismo, e fazer perguntas, se a pessoa fez cirurgia ou não, tem nada a ver, sabe.

 

Caê Vasconcelos

A não ser que a matéria foR sobre cirurgia e olhe lá. “Você conhece alguém que já fez cirurgia?”, nesse sentido, e não “e aí, o que é que você tem entre as pernas?”. Olha que coisa invasiva, sabe, e ainda acontece.

 

Luana Ibelli

E quando me pautavam, era uma coisa “não, mas você não pode deixar de perguntar isso”.

 

Caê Vasconcelos

Por isso que eu sempre falo, né, tem que ser coletivamente porque o meu individual pode ser tudo bem. Sei lá, acho que chega um momento assim que é tanta opressão que a gente não dá para brigar todas as lutas, né, a gente tem que abrir mão de alguma coisa e outra, então pode ter pessoas trans que não se importam de vocês chamarem o nome morto ou erra o pronome. Mas como que o geral, como que a militância tá lidando com isso, né?

Esses tempos, o Pedro Borges, do Alma Preta, acho que ele tava no Profissão Repórter na época. Eles estavam fazendo uma matéria super legal sobre cirurgias de pessoas trans no SUS. Como que estava funcionando, que é uma coisa que demora anos. Por isso que a gente vê tantas pessoas trans fazendo vaquinha. Eu fui uma dessas pessoas. Eu tive que fazer uma vaquinha coletiva, né, pras pessoas me ajudarem a fazer a mastectomia, porque é uma coisa muito cara, muito inacessível ainda. No SUS é 10 anos na fila, e a matéria era sobre isso. Ele falou “olha, um dos personagens mandou foto de antes da transição, mas eu fiquei aqui pensando que tudo bem para ele, mas como que tá para a militância?”. Eu falei “olha, ele te autorizou, ok, mas para a militância a gente prefere que não”. 

Não importa como eu era antes da transição, a não ser que eu queira postar no meu Instagram para fazer aquele antes e depois, a gente não pode pegar aquilo e colocar num veículo só porque tá no Instagram. 

 

Luana Ibelli

Isso é uma questão que é muito intrigante assim, né? Como que a gente escolhe com responsabilidade quando a gente está falando desse tema, né? Porque é isso, tudo é escolha. Pra gente construir a narrativa, a gente vai escolher, então a gente pode escolher um representante, uma pessoa trans para minha reportagem, eu posso escolher e essa pessoa ela necessariamente representa todo o grupo? Como jornalista, como que você vê isso? Como que você recomendaria a gente ter responsabilidade de chegar numa fonte e abordar um tema que por mais que a gente aborde com uma pessoa individualmente, a gente tá falando de um coletivo que é mobilizado, que tem demandas, que tem lutas de um bom tempo? 

 

Caê Vasconcelos

Acho que o primeiro passo é a gente entender que não. Uma pessoa trans não representa todo mundo. Eu consigo, sei lá, por conta dos estudos que eu faço e de tá ligado em várias coisas ter uma visão um pouco mais ampla da coisa, mas o que eu tô escrevendo não tá escrito em pedra, né, porque eu sou um homem trans, bissexual, periférico, mas eu sou um homem trans branco, então eu não sei o que é associar o racismo a minha luta, e outros meninos vão ter outras demandas. 

Esses tempos eu estava dando uma palestra no SESC, que tinha eu e mais duas pessoas trans. Duas pessoas negras. Era uma travesti e um boy tans. Cada um veio de um lugar diferente, a gente tinha demandas diferentes e em alguns momentos as histórias se cruzavam, porque tem transfobias que toda pessoa trans sofre, e tem algumas coisas que são paralelas, mas tem muita coisa que é muito diferente. Então é plural, né pessoas trans são plural, assim como pessoas negras, assim como mulheres. Então, nesse caso, por exemplo, será que é legal eu ter ali uma foto daquela pessoa antes da transição? Tenta procurar as associações que a gente tem, né? Por exemplo, seguir a Antra, a Associação Nacional de Travestis e Transgêneros. Seguir também a Fonatrans, que é específica de pessoas trans negras. Seguir a Casa Chama

Várias outras associações que a gente tem. A Casa 1, por exemplo, faz um trabalho super legal também. Então ali sempre vai ter o que não fazer e o que fazer. E tentar conversar com o máximo de pessoas possíveis, né? Tipo, ok, a matéria vai ser focada nessa pessoa, mas deixa eu consultar outras pessoas trans. Principalmente pessoas trans um pouco mais velhas. Eu sempre falo que respeitar a ‘transcestralidade’. Alguém me falou essa palavra outro dia e eu falei mesmo, que essa palavra é a palavra chave do negócio. É respeitar a nossa ‘transcestralidade’. Quem veio antes e que ainda está vivo. 

A gente tá num país que a gente tem a Neon Cunha viva, sabe. Muitas pessoas não conhecem a história da Neon. Se eu consigo retificar o meu nome hoje, uma coisa que ainda é cara. É quase R$ 1 mil dependendo, para você conseguir ter só um nome ali no documento. É uma coisa que é um pouquinho burocrática, porque você retifica a certidão, aí vai atrás do RG, aí vai atrás do CPF, vai atrás de não sei que. Até hoje não consegui retificar meu INSS, por exemplo. Eu não consigo entender e eles não conseguem entender. Sabe, a gente não tem um sistema interligado no Brasil, mas antes, tinha que ser por ordem judicial. Você tinha que ter feito a cirurgia e o juiz poderia escolher se ele ia te dar um nome ou não. Então tem muitas pessoas trans mais velhas que tem o nome ali no documento, mas o gênero não foi retificado. Ou atualizou o gênero e não o nome. Umas coisas muito subjetiva. E a gente sabe que nosso judiciário, né, são homens cis-héteros brancos que ainda dominam aquele espaço.

Então toda a nossa vida estava na mão daquela pessoa, uma coisa que demorava anos. Aí a Neon, por ser essa pessoa, né, que “nossa”. Digita aí no Google Neon Cunha e vamos seguir essa mulher, porque é uma das maiores ativistas que a gente tem viva, e ainda bem que ela ainda tá aqui viva para a gente poder referenciar ela, né. Ela foi e pediu morte assistida ao estado brasileiro. Ela disse “ok, vocês querem que eu comprove que eu sou doente, então não, não quero mais viver”. Tem até uma frase muito forte, mais ou menos assim que ela falou: “se eu não posso viver como eu sou, eu não quero viver”. Por conta disso começou aquela mobilização do STF, que em 2018 tirou a obrigatoriedade, tanto de ser uma ordem judicial quanto da cirurgia, e eu consegui retificar tipo, sei lá, dei entrada julho e mais ou menos, e em outubro tava com meu RG retificado, sabe. Três meses apenas e antes eram três anos e olhe lá.

Então, tem muita história ainda que não tá escrita, né, porque antes a gente não tinha pessoas trans escrevendo. Quando as pessoas cis escreviam era nesse lugar de…

E principalmente quando uma pessoa more, né. Acho que eu fico muito mais assustado quando a gente está falando de pessoas trans que foram assassinadas, o quanto o jornalismo faz aquela segunda morte, né? Então vai ter aquele nome morto daquela pessoa.

Outra coisa, assim, muito importante. Uma outra dica que eu sempre dou para jornalistas cis. Não é a gente. Eu não consigo olhar para aquela pessoa e falar “essa pessoa é trans”, “ela é travesti”, “é um homem trans”, “é uma pessoa não binária”. Sempre pergunte. Nesse caso você pode perguntar, “qual o seu nome seu nome?”, “qual a identidade eu posso colocar na matéria?”. Porque as pessoas acham que, sei lá, ou travesti é quem fez cirurgia e mulher trans, não. O que é o maior mito, a maior fake news que a gente não sabe da onde que surgiu isso, mas ainda é muito forte, ou que é sinônimo. Não é sinônimo, é uma questão de luta. Algumas pessoas vão preferir uma identidade, e outras, outras. Então é simples. Isso você pode perguntar, não se a pessoa fez cirurgia ou não, que é uma coisa 100% dela. Ela vai falar se ela quiser, para quem ela quiser.

 

Luana Ibelli

Pois é, né, a gente tá falando aqui da importância de ter pessoas diversas por trás das narrativas, mas isso não vai ser sempre possível, e na verdade o nosso papel de jornalista é conseguir contar histórias, mesmo que a gente não esteja nesse meio, e aí que você falou, né, da importância de seguir, de ir atrás, de ver quem tá aí por trás né? A transcestralidade, gente, que palavra linda, eu amei isso. Então essa é uma dica assim que eu acho importante marcar, de ir atrás, de ver quem são as pessoas, os ativistas, enfim, quem são as pessoas que estão falando porque isso dá um norte pra gente abordar esse tema né? 

E aí falando em abordagem, eu queria muito entrar agora nos trabalhos que você tem feito na ESPN. Você fez a série Reflexões e a Atletrans. Então conta um pouco pra gente como que são essas séries, enfim, como que foi o processo de fazer? Os desafios, enfim, e o que que vocês conquistaram com esses trabalhos que estão incríveis. Inclusive, eu super recomendo, quem não conhece, vai lá no YouTube, tem uns episódios.

 

Caê Vasconcelos

Eu sou o primeiro jornalista trans da história da ESPN, né, então mais uma vez, 2022…

 

Luana Ibelli

Internacional?

 

Caê Vasconelos

Brasil. Brasil a gente pode afirmar. Tinha uma pessoa trans no administrativo, que é o Pedro, que também foi um desafio para ele entrevistar o Marcelo no Reflexões, mas eu falei, vamos, nem que eu seguro em sua mão, mas você vai conseguir. Então acho que ele abriu muitas portas que institucionalmente a ESPN já tinha, e ele passou pela transição já trabalhando lá. Então foi o que eu passei na Ponte, mas na ponte tinha 10 pessoas, a ESPN 200, 300, não sei quantas são no geral, pensando em todo o contexto do Brasil, mas ele passou por esse processo, então quando eu chego a galera realmente está muito mais pronta, muito mais aberta.

Eu tô numa equipe assim, que realmente é muito mente aberta, que tudo que a gente consegue dialogar ali é muito incrível. E é isso, né, eu falei “bom, não tenho obrigatoriedade de estar aqui para cobrir as coisas porque eu sou o editor de texto do SportsCenter, né, então os textos que vão pro ar e os VTs, os editores de texto que escrevem, então, não necessariamente precisaria estar nessas outras produções, mas calhou também que é o momento que a empresa tá pensando muito na real em diversidade, que é uma coisa global das ESPN, Grupo Disney e tudo mais, e aproveitamos. É uma coisa que eu até falei pra eles, “beleza esse ano veio em junho, mas ano que vem tem que ser o ano inteiro”. 

Eu entendo que ainda é importante demarcar ali aquele mês, mas gente, eu não deixo de ser LGBT em julho, né? Primeiro de julho, o pessoal vai lá e tira a bandeira. Gente, eu continuo defendendo essa luta, mas eu acho que era um momento propício. Então eu acho que eu entro num momento, assim, que a galera tá muito mais aberta. A série Reflexões já ia acontecer sem mim. Foi uma coisa que eu fui convidado para ser um dos entrevistadores e acabei sendo um editor de texto de todo rolê, então tudo o que foi pro ar, erros e acertos, a conta é minha, porque eu que decidi ali o que entrar no ar ou não. 

E foi uma experiência incrível, porque quando a gente pensa em pessoas LGBTs no esporte, pessoas trans principalmente é muito mais difícil, mas agora a gente viu que em junho o Richarlison teve essa coragem, que meu, para ele até hoje, foi um ato de coragem em 2022 ele assumir a bissexualidade da forma que foi.

 

Luana Ibelli

Eu como são-paulina lembro muito bem como que ele era avacalhado assim, né, e a importância depois de tanto tempo, enfim, só fiz esse comentário que eu lembrei…

 

Caê Vasconcelos

E é isso, né? Ele ganhou todos os títulos possíveis pelo São Paulo, e ele não é ídolo nem pra torcida, sabe. Isso é muito absurdo. É porque ele é LGBT, não tem outra explicação, porque se ele fosse um cara cis-hétero, com certeza ele teria. Seria lá ídolo, teria um busto dele feito lá no Morumbi e no CT, e tudo mais. Então, é um cara que sempre sofreu lgbtfobia e só agora ele conseguiu, porque eu imagino o quanto é psicológico dele não foi danificado ao longo desse tempo, né? 

Então ainda é muito difícil e quando a gente olha pro esporte feminino tem muito mais pessoas. A Seleção Feminina ali é que, né, as mulheres realmente são o futuro. Deus é uma mulher, principalmente uma mulher negra. Eu sou dessa cultura, porque você olha pra Marta, pra Cristiane, pra Formiga, nunca foi uma questão para elas. Elas sempre foram muito “eu sou isso e pronto”, sabe. 

Só que aí também o futebol é muito associado a isso: “ah, mulher-homem”, que não sei o que. Uns termos bem machistas e lgbtfóbicos, mas o vôlei feminino também tem muitas atletas lgbts. Então o desafio nosso, quando a gente sentou para olhar os atletas: “cadê os homens gays e bissexuais do nosso esporte”. Tem que ter, não é possível que não tem. 

Aí a gente conseguiu separar certinho, né, três homens e três mulheres entrevistados. Dentro da redação foi mais fácil entender quem seriam as pessoas que eu iria entrevistar. Então a gente começou com a Laís Souza, que tem uma questão também de ser pcd, né? Nossa, tem uma frase que a Laís falou que na hora eu falei, “meu a gente tem que começar, tem que estrear o Reflexões com a Laís”, porque originalmente a ideia era estrear com o meu episódio com a Tiffany, que foi o primeiro que a gente gravou, mas foi tão impactante a conversa da Laís, que ela mencionou, que quando ela teve um acidente, que fez ela ser hoje uma pessoa tetraplégica, foi na mesma época que vazou a informação que ela estava namorando uma mulher. E a imprensa, na época, deu mais visibilidade por ela estar beijando uma mulher, do que ela ter quebrado do pescoço e quase ter morrido. E ela fala isso na entrevista: “foi mais importante com quem eu estava amando do que o acidente que eu passei”. Então, olha mais uma vez a imprensa sendo lgbtfóbica.

E a gente conseguiu achar três meninos, cada um na sua área. A gente teve o Washington Duarte, que é um lutador de MMA, primeiro assumidamente gay do Brasil; o Marcelo que foi um cara que nossa, ele teve que abandonar o futebol por conta da transição, porque antes ele jogava no Corinthians feminino, e ele fala muito isso. Ele falou “meu eu tava jogando”, porque o Corinthians feminino ainda é muito o monopólio do futebol feminino, agora realmente, eu enquanto torcedor do Corinthians feminino, tá difícil agora, né? Vi o meu time perder para Palmeiras pela primeira vez, estou começando a ficar preocupado com esse negócio, mas ainda bem né, que a gente tá investindo e a gente tá vendo outro time chegando, assim, é isso, pode ser que Corinthians não ganhe o Brasileirão feminino esse ano, então é muito bonito pela categoria, mas como torcedor eu fico triste, né, obviamente. Mas o Marcelo teve que decidir, “ou eu continuo jogando nesse time, ou escolho ser quem eu sou”. Porque não dava.

Eu fico imaginando quantos anos vai demorar para a gente ter um homem trans jogando no futebol masculino. Acho que pode ser que a gente nunca tenha, porque é um ambiente extremamente lgbtfóbico.

E aí a gente teve também a Tiffany Abreu, que até hoje é a única atleta trans do esporte de alto rendimento. Não existe no Brasil outra pessoa que consegue, e consegue a base de muito ódio, né? O discurso de ódio que é Tiffany recebe até hoje. 

 

Luana Ibelli

Eu ia entrar nesse episódio, porque eu assisti, né. Assisti parte do episódio da Laís, assisti esse especialmente, que você é o entrevistador, e a conexão entre vocês é muito legal. Eu ia perguntar tanto dessa questão, porque eu vi que a maioria dos comentários são comentários de ódio. Então eu queria saber de você: primeiro, como é lidar com isso? Você é um Jornalista trans numa redação de esporte, falando numa época em que esse tema tá, assim, fervilhando, né? Como que você sente essa responsabilidade? E e essa oportunidade também, de ser um jornalista falando, disso nesse momento?

 

Caê Vasconcelos

Acho que começou quando eu fui convidado para trabalhar na ESPN, né? Nossa, uma pessoa trans ser convidada para trabalhar no lugar e tipo “meu Deus do céu”. O Pedro dos Anjos, que é o gerente de conteúdo, ele me seguia no Twitter e um dia falou: “bora marcar uma reunião”. “Bora”. Aí era o momento para eles. Eu também falei para ele que eu nunca me imaginei sendo um jornalista esportivo, porque enquanto uma pessoa que sempre foi LGBT, já entrei na universidade sabendo que eu era um corpo LGBT, é uma coisa que eu pensei “não, não é pra mim. Nunca vou poder ocupar esse lugar”, então quando tem essa oportunidade de ocupar eu falei “ok, então vamos tentar”. Principalmente com a série Atletrans, eu acho que primeiro foi meio que ao mesmo tempo que a gente já tava gravando o Reflexões, né que eu gravei com a Tiffany em abril, por exemplo, e só foi pro ar agora em junho. Então foi tipo, dois meses antes, porque é todo um processo pra gente conseguir conciliar com a agenda de um atleta, que é uma loucura. A Tiffany tava jogando a superliga, Carol Gattaz foi aos 48 do segundo tempo, que é o episódio que vai para o ar terça-feira que vem também, que tá lindo.

É muito doido, assim. Eu sendo essa pessoa que tem o privilégio de editar, eu vou dar um spoiler. No final da entrevista da Carol Gattaz, que é uma das maiores atletas do vôlei brasileiro e uma das que assumiu primeiro enquanto bissexual. Tem tipo, 20 anos que a Gattaz é assumida uma LGBT. Durante as Olimpíadas viralizou muitas brincadeiras dela com a Rosa Maria, né? As ‘cantadas de pedreiro’ que ela ficava dando na Rosa, então a Natalie, que é uma das meninas da produção da ESPN, da uma cantada pra Gattaz usar com a Rosa Maria. Então termina assim o Reflexões, pra cima, leve, descontraído. Porque é isso, né, não tem como a gente pensar em falar de pessoas lgbts no esporte, sem falar de dor. A gente vai estar romantizando uma coisa que tem dor, tem luta, tem sofrimento, mas tem que ter mais gente. Nossa, tem uma frase que eu amo que a Tiffany falou, quando a gente tava falando de pioneirismo, é que às vezes é isso: eu sou só o jornalista trans e ela é só uma jogadora trans. E ela falou: “hoje, eu precisei ocupar esse lugar, de ser a primeira, vou ser para sempre a primeira e eu vou ser para sempre a jogadora trans, mas eu espero que as próximas não precisem disso”. Porque é isso. Claro que é importante demarcar. São nossos demarcadores sociais, mas a gente não é só isso.

E outra coisa também que ela falou que doeu muito, enquanto o torcedor do Osasco. Eu torço para o time que a Tiffany tá jogando agora. O Paulista eu fui em todos os jogos. Na Superliga, na segunda fase eu não consegui porque eu já estava trabalhando na ESPN e os horários são doidos. E até Osasco é longe também, mas sempre que dá, principalmente depois que ela veio para o Osasco, eu falei que é importante que ela veja que tem pessoas trans ali também naquela arquibancada por ela. Porque antes da final do Paulista, eu não vou nem citar nomes, porque eu tenho ranço dessa pessoa, mas tem uma jogadora que jogava no Osasco, que é extremamente lgbtóbica, e antes da final ela deu uma entrevista num podcast e falou. “Eu ainda acho injusto”. Por conta de pensamentos como esses, né, foi a Ivana Negrão, que é uma das maiores jornalistas que a gente tem na ESPN, a gente estava naquela semana que Lia Thomas ganhou um circuito de natação nos Estados Unidos e jorrou ódio. Todo aquele ódio que a gente viu de 2017 para cá, com a Tiffany, foi destinado para a Lia Thomas. E a Joana Maranhão, que eu não vejo a hora de poder abraçar essa mulher. Que essa sim é realmente uma pessoa aliada, sabe, ela fez uma sequência de stories falando sobre o quanto ela achava absurdo esse ódio que estavam colocando em cima da Lia. Porque assim, não tem essa questão de injustiça. Acho que no Atletrans a gente conseguiu, em quatro episódios curtíssimos, de cinco ou seis minutinhos, explicar que não tem. 

Porque a gente foi atrás de pessoas trans que estão nos esportes, especialistas. Então tem médico endócrino falando, tem pesquisador, a própria Joana que é referência na natação, uma campeã olímpica, e nos stories da Joana, ela já falava sobre isso.

A gente não entrou tanto assim na questão do dopping, mas a Joana trouxe muito isso nos stories. Injusto, é quem usa doping, que você tá burlando o sistema. A pessoa trans não tá. Tem uma regra ali, ela tá seguindo aquela regra, e por isso ela consegue competir. E aí a Joana ela fala muito sobre isso, que o esporte no geral já é injusto. É que assim, a entrevista bruta dela, eu falei, “gente, vamos só fazer. Sei lá, tem o Atletrans, mas deixa disponível essa entrevista na íntegra”, porque que mulher incrível. E ela fala muito sobre isso. Ela falou “com três anos eu fui para a escolinha de natação, e tem muitas pessoas que não vão ter as mesma condições que eu tive que vão, sei lá, só com 10 anos entrar na piscina pela primeira vez”. Então, ela já sai na frente, que desde os três ela já tá treinando. Então o esporte de alto atendimento sempre foi injusto. Acho que essa é a chave, né? 

 

Luana Ibelli

E vocês conseguiram trazer isso na série. Você acha que com essa visão vocês conseguiram sensibilizar o público? Porque apesar de todos aqueles comentários, e não é só aquilo, eu acho que muita gente vê também e às vezes não se manifesta, mas tem um impacto muito positivo…

 

Caê Vasconcelos

Sabe que é mais doido? Essa galera que comenta, eles não se dão nem ao trabalho de dar o play. Porque se você assiste, você não vai ter aquele pensamento. Principalmente a forma que a gente conduziu, a gente pensou: “a gente tá falando que o público geral”, assim a pessoa que nunca viu uma pessoa trans, que acha de fato que, sei lá, que fisiologicamente pode ter alguma vantagem. Vamos explicar então. E foi muito legal a gente ter conseguido fazer o fio condutor narrativo com um time de homens trans. Que a gente é tão invisibilizado que quando você pensa em pessoas trans no Esporte, pensam na Tiffany. Nunca vão pensar em um cara trans porque a gente não tem homens trans em lugar nenhum. A gente tá pouquíssimo na tevê, pouquíssimo nos jornais, em todas as coisas. Até na música mesmo, atores trans… A gente tem pouquíssimos homens trans que estão conseguindo visibilidade. 

O Elliot Page, para mim, é uma mega representatividade, porque ele tá conseguindo. Não só conseguiu fazer a transição, mas o personagem dele transicionou no Umbrella Academy. Outro também que eu preciso muito abraçar um dia.

Mas a gente não é visto, né? Então, a gente é invisível dentro de uma pauta que já é invisível. Conseguir mostrar a dificuldade que os meninos têm ali, a questão da cirurgia, que pode ser um impacto psicológico para eles, a questão da grana que não tem grana, então eles fazem a rifa, juntam grana para conseguir vir para São Paulo.

Quase ia dar um spoiler, né? Mas tem lá uma final, e aí quem tem que assistir para saber se eles ganharam a final ou não, mas foi muito bonito conseguir amarrar tudo, e acho que sei lá, né, o Universo conspira quando a gente faz o trabalho bem feito, porque por um outro motivo a Sheilla Castro foi lá na ESPN para gravar um outro programa, aí eu pensei, “pô, em 2017 ela foi uma das atletas que foi contra a presença da Tiffany”. Por ignorância, né? Ela reconhece hoje que foi por ignorância. Eu falei “vamos perguntar, vai que ela topa falar”. E ela topou. Então é muito bonito ver também ela falando: “quando eu me aproximei da Tiffany e comecei a entender a realidade, fui pesquisar e vi que a expectativa de vida era super baixa, a quantidade de pessoas trans mortas, como que você vai ser contra a presença do corpo da Tiffany ali”, sendo que é isso, né, como a Joana Maranhão bem disse: “se ela tá ali, ela tá cumprindo as exigências que estão determinadas para ela”. Qualquer coisa que fuja disso é transfobia. E tem uma frase que a Joana fala sobre isso. Então acho que a gente conseguiu amarrar de uma forma tão bonita que quem se der ao trabalho…

Tira 20 minutinhos do seu dia, sabe, assiste. Não tem como você ser contra. E o Léo, que é um pesquisador que eu sou muito fã, o Léo Pessanha, ele fala isso. Como que é vantagem, sendo que só tem uma, só tem a Tiffany no esporte brasileiro. 

Se a gente tivesse sei lá, eu espero que daqui uns 10 ou 15 anos, tenha uma seleção feminina do vôlei que seja só de mulheres trans, aí a gente pode estar falando, talvez mesmo assim não é vantagem, né? Porque se hoje é só mulheres cis, então é muito difícil a gente mencionar e dimensionar isso de vantagem ou não, porque é transfobia. E de toda a equipe, eu fui a única pessoa trans do processo, porque eu sou a única pessoa trans por trás ali das câmeras da ESPN, mas todo mundo que fez, desde a pessoa que me ajudou ali, que é a Ivana, que me ajudou a idealizar aquela série, a Claudinha que foi comigo pra poder fazer os dois trabalhos de gravação que a gente fez, né, que foi no Rio. A gente foi até o Rio para poder fazer entrevista com os meninos lá, e aqui eles jogando. O Wagner Patti, que fez toda a parte do roteiro também, os meninos que fizeram a edição… Todo mundo abraçou e falou “É isso. Essa tem que ser uma luta nossa também”. 

E aí no dia do orgulho, eu fiz um texto também para o site da ESPN falando sobre isso. Não dá mais pra gente achar que é normal ter gritos homofóbicos, lgbtfóbicos da torcida. Não dá pra gente achar normal a Tiffany ser a única, e ela sofrer tanto ataque de ódio. 

E aí nesse meio tempo, a gente percebe que tá avançando, né? O que o Vasco fez, por exemplo, agora no mês do orgulho, foi incrível. No dia do orgulho mesmo ali, o jogo deles que eu pensei: “ah, vai ter umas bandeiras lgbts que foi anunciado”. Meu, teve fogos de artifício com as cores da bandeira, teve fumaça. E é isso, né, não pode mais ser lgbtfóbico nas arquibancadas do Vasco, porque a torcida organizada tá fechada com a diretoria de que isso não vai mais ser permitido. 

Queria que o meu time tivesse feito isso. Que os outros times abraçassem. A gente percebe muito assim, quando o Richarlyson contou, por exemplo, quem foram os times que postaram. O São Paulo não postou, por exemplo, e foi o time que ele fez história. E aí o Corinthians postou com a camiseta do Brasil, porque eu concordo, né, não tem que postar com a camiseta do São Paulo, porque é rival, mas enaltecendo isso, o quanto ele enquanto atleta, mesmo depois de aposentado, tá fazendo história. 

Com certeza tem muito atleta no futebol masculino que é gay ou bissexual. Com certeza. Não tem como, essa conta não fecha, a gente só ter atletas héteros. Mas eles não vão conseguir. Será quantos anos que vai demorar pra gente ter um outro? E às vezes é isso. Não é que a gente tem que sair do armário para defender essa luta, mas que essa pessoa possa se sentir confortável. Gente, é o trabalho dela, ela não vai poder ser ela?

 

Luana Ibelli

Pois é tem tudo a ver com a inclusão, né? 

Agora eu quero entrar… (gente já tá quase no final, são tantos assuntos e tá tão boa conversa). Eu queria que você falasse um pouco dessa experiência. Você falou da sua equipe, de como você teve todo apoio para fazer esses conteúdos. Eu queria que você falasse um pouquinho dessa experiência. Eu acho que eu vi uma entrevista sua no Vida de Jornalista, inclusive podcast maravilhoso. Vou falar um pouquinho mais, da Rádio Guarda-Chuva daqui a pouco. Você falou que tem um núcleo de diversidade na ESPN, que o acolhimento foi super legal, então compartilha um pouco com a gente como que foi essa experiência, para outros jornalistas, para outras redações, quem sabe né, se inspirar um pouco. 

 

Caê Vasconcelos

Eu acho que às vezes é importante a gente demorar para ter uma pessoa trans na redação, porque é isso, para essa pessoa trans chegar, a equipe tem que estar pronto. E não é chegar: “olha gente, a partir de amanhã vai ter um jornalista trans aqui”, mas começar a mudar aquela mentalidade, né? Eu tava até esses dias falando com o Pedro dos Anjos, que é o chefe de Redação. Eu falei: “Pedro pra mim é muito doido saber que ninguém em, quase cinco meses de redação presencial, que já é o primeiro lugar que eu estou presencialmente depois da transição, porque na Ponte a gente não tinha sede fixa, e tudo mais, então já dá um baque, que foi a primeira vez que eu pisei numa redação, já dá um sustinho de como vai ser, e ninguém nunca errou o meu pronome. A galera me enxerga 100% como homem que eu sou. porque eu não preciso, sei lá, tá dentro de um padrão cis pra ser respeitado como um cara. Então lá eu tenho totalmente esse acolhimento. Eu, não sei se é por conta dos gatilhos e das dores da vida, eu me sinto muito mais confortável com as meninas, que são minhas amigas. Os meninos têm aquela relação profissional, mas eu não sei se eu considero os caras amigos e tal, pra levar pra vida, mas nunca rolou assim, nem me sentir constrangido em alguma conversa, sabe? 

Porque são pessoas que estão com essa mentalidade mesmo que tipo ó, “a gente tá aqui nessa luta”. Então quando a gente começou a produzir também o Reflexões e o Atletrans, que eu vi que a minha palavra era muito final ali pra gente decidir um caminho, eu ficava “cara, que doido, sabe, eu tenho só quatro meses de empresa. A galera que tá, sei lá, 20 anos, e a minha palavra vale tanto quanto a deles”. 

Porque aí sim o lugar de fala eu acho que faz sentido, né, porque, bom, “é importante a gente ter essa frase aqui ou essa frase aqui?”. Porque eu, mais do que ninguém, sei o que pode impactar não só pra gente, mas para outras pessoas cis. Então foi um processo muito bonito. Tem sido.

Eu lembro muito que na primeira conversa lá com o Núcleo de Diversidade, antes de eu começar efetivamente, eles perguntaram o que eles poderiam mudar. Eles falaram: “hoje a redação é assim, a lógica funciona dessa forma. O que que a gente pode mudar para você sentir mais confortável”. Aí pintou o assunto banheiro na conversa. Eu falei “olha, eu não faço ideia como vai ser usar o banheiro”. Vamos deixar eu usar a primeira vez, se eu sentir que teve olhar, algum constrangimento eu falo, e assim, zero problemas sabe. Pelo contrário, a galera me acolhe muito.

Até um pouco é isso, né, uma sociedade que é transfóbica, e ninguém nunca errou meu pronome? Que loucura é essa que tá acontecendo? Parece que é uma pegadinha, mas deveria ser assim, né, a gente não deveria ter medo de estar no mercado de trabalho de ser a gente.

 

Luana Ibelli

Pois, é, e eu acho que que essa questão da inclusão, por exemplo, o fato de você ter tido esse acolhimento, faz com que você tenha leveza de ser bom profissional que você é. De ser jornalista, porque tudo se trata disso. É óbvio que a gente tá falando aqui de levar as nossas experiências, as nossas vivências para redação, mas também seria muito ruim se o tempo todo a gente tivesse que estar preocupado com o básico, da dignidade, e aí você não consegue exercer aquilo, e isso até deixa a gente um pouco atrás às vezes dos outros, né, porque você está com preocupações que os outros não estão. E aí você não consegue ter um prestígio, não consegue evoluir, não consegue trabalhar numa narrativa, porque além de tudo, de falar do conteúdo, você tá pensando no formato, enfim. Então eu acho que com certeza isso influenciou no trabalho que você está trazendo, que é de muita qualidade, né? 

 

Caê Vasconcelos

Sim. E lá, por exemplo, eu não tenho obrigatoriedade de ter que falar da pauta LGBT, o que eu acho que é muito importante, né? Porque é isso. Na verdade o SpostsCenter, que é o jornal que eu faço parte da equipe, é 100% futebol masculino o foco. 90% de futebol masculino, vai. Aí eu faço parte ali do núcleo que é team futebol feminino, com as meninas ali a gente tem tentado trazer cada vez mais, porque pra mim é isso, sabe, uma pessoa que fala que é fã de futebol e só vai ver o masculino, tem alguma coisa errada aí né, amigos. Ainda mais pensando sei lá, pensando no Corinthians, que é o time que mais tem títulos do futebol feminino. Por que que não dá para encher a Arena com tanta facilidade quando o futebol feminino e quando é o masculino a galera se estapeia para o ingresso, né? 

Então tem que mudar essa lógica, sabe. Hoje as meninas jogam muito. Sempre jogaram muito bem, né, mas agora elas têm minimamente uma estrutura para isso. Às vezes não tanto. Tem uns jogos, assim, que você fala “meu Deus, isso nem treino deveria ser nesse lugar”. Ainda tá muito longe da realidade, mas a gente tem conseguido muito trazer o futebol feminino. Lembra que lá na primeira conversa, que eu tive antes de entrar, eu falei “ó, eu sou muito fã de futebol feminino, de vôlei e de skate. Vai dar para trazer essas pautas?”. “Ah, normalmente o futebol é o foco, mas dá”. 

Então é isso. Tem que semana que, sei lá, eu fico o tempo inteiro pensando e só fazendo coisas do futebol masculino e feminino, e não necessariamente trazendo a pauta LGBT, o que é muito bom. 

 

Luana Ibelli

Isso é muito importante, né, porque às vezes, também, as pessoas pegam os jornalista diverso, né, vamos usar esse termo, e coloca no cercadinho. “Ah, o jornalista negro na editoria de diversidade, de negritude”. E sim, isso é muito importante, mas eu também acredito que a gente vê a diversidade na prática quando você está realmente integrado na redação, né, um monte de gente pensando várias questões, e enfim, eu acho que aí sim que a gente vê.

 

Caê Vasconcelos

E as vezes é até subconsciente isso. Porque durante muito tempo eu só me via como repórter especialista na pauta LGBT. Que durante um ano e meio foi isso que eu fiz na Ponte. Quando eu fui realmente contratado, comecei a cobrir Segurança Pública, eu fiquei com medo. Eu falei: “será que eu sou capaz?”, porque eu só sei falar sobre essa pauta. Aí foi todo um trabalho. Ainda bem que a Maria Teresa Cruz era a editora na época, que ela tem uma sensibilidade absurda, ela falou: “o que que você não souber, eu estou aqui para te ajudar, porque você nunca cobriu Segurança Pública”. 

E realmente. Ler um B.O. é diferente, ler um processo judicial é diferente, e entender quando eu tô na pauta, onde que eu tô indo sem me colocar em risco, porque acho que isso, principalmente pensando em jornalismo independente, que eu já fui para muita pauta sozinho, sem nem fotógrafo, indo de ônibus, de Uber, do que dava pra gente chegar na pauta, é importante a gente ter esses coisas que é com a prática, né? Se não for na prática, você não vai entender. Como que eu abordo esse delegado para ele me falar alguma coisa? Como que eu chego naquele lugar e consigo ter algum relato de alguém que vai estar com medo?

Eu lembro que, no dia seguinte da Massacre de Paraisópolis, eu fui. Nunca tinha ido para Paraisópolis, e assim, é uma região que é muito infelizmente acostumada com a violência policial. Então a população tem medo obviamente, né, e a gente sabe que tem muito jornalismo ainda sensacionalista, policialesco, que só vai ouvir a versão da polícia. Então, vários lugares na verdade, que eu já fui fazer pauta, que sei lá, chegava pra gente que algum jovem negro foi morto naquela quebrada e sempre no boletim de ocorrência, ele só trocam um nome, é muito absurdo. É sempre troca de tiro, a pessoa era suspeita, tava “eu não sei o quê, não sei quem lá”. Você chega naquele território, cinco minutos e você já percebe que não era aquilo que estava naquele B.O. Só que como você consegue a confiança daquela pessoa? Porque assim, é um site que não é tão conhecido para o público, mas tem muita credibilidade. 

Então eu lembro que assim, vária pautas, por exemplo, no final, eu tinha feito a entrevista só com gravadorzinho e com bloquinho de nota, e a pessoa “em qual canal que vai passar na tevê?”. Aí eu “não, não é tevê, é um site”. Só que aí depois, quando você manda o link para aquela pessoa e você vê que sei lá, a corregedoria foi atrás, ou alguma coisa do estado se mexeu depois da matéria, a galera começou a ter carinho. Tipo, “prefiro mil vezes falar com esse site, que não é tão alcance quanto a tevê, porque aqui eles vão respeitar”. 

Cobrir sistema prisional, por exemplo, eu lembro que as primeiras vezes que eu cobri, as mães já se colocavam aquela culpa. Eu sei que meu filho errou, eu sei que ele tem que pagar, mas eu não acho justo ele passar por isso que ele passa. Então, eu acho que sei lá, na décima entrevista, eu falei “meu, porque que eu já não abordo dessa forma”. “A gente não quer saber o que o seu filho fez, o sistema prisional não é para reproduzir tortura, ele não tem que estar comendo comida estragada, apanhando e as famílias sendo tratadas mal”. E aí a pessoa já fica muito mais confortável para falar com você, que vai pensar, “Putz, minimamente essa pessoa entende a minha dor. 

 

Luana Ibelli

Pois é, né, acho que essa conexão com a pauta entra muito nessa questão da subjetividade…

 

Caê Vasconcelos

Sim, isso é 100% sensibilidade, sabe. Eu não preciso ser preso para entender que uma pessoa não tem que apanhar no sistema prisional. Eu sempre sou assim. Sou aquela pessoa que chora às vezes na pauta.

 

Luana Ibelli

Eu também… Eu choro! Eu fico pensando: “nossa, em algum momento eu vou chorar aqui gente”.

 

Caê Vasconcelos

Acho que uma das entrevistas até hoje mais difíceis da minha vida foi quando eu fui lá na casa que a Marielle dividia com a Mônica Benício. Que foi assim…A Marielle morreu em março, a gente foi em julho pra lá e a matéria saiu em agosto. Então tinha quatro, cinco meses que a Marielle tinha sido assassinada, e na semana eu falei pra minha psicóloga “eu não vou. Eu vou desistir da viagem, eu não tô pronta, eu vou fazer ela chorar, eu vou chorar”. Aí na época, foi antes da transição, então eu me identificável enquanto sapatão, aí minha psicóloga falou “quantas pessoas você acha que, da mesma realidade da Mônica, que a entrevistaram, porque você também é um corpo periférico, você não cresceu na favela do Rio, mas você cresceu na quebrada de São Paulo. E você sabe o que é sofrer lgbtfobia”. Ela falou “vai. Se tiver que chorar, você chora. Ela vai ver que você é um ser humano assim como ela”.

E a pauta né? Isso também, se eu tivesse em qualquer outro veículo do Brasil, não teria sido essa pauta. A pauta foi sobre a história de amor delas. Porque assim, claro que é importante falar da Marielle enquanto vereadora, principalmente a pauta racial dela e periférica, mas ela era uma mulher que tinha um relacionamento com outra mulher e era a luta dela enquanto vereadora. Então eu falei, “meu, eu quero saber como elas se conheceram, eu quero saber como foi o primeiro, como ela se apaixonaram”. E essa foi a entrevista. Aí teve uma hora muito bonita que a Mônica falou que na semana ela tinha achado uma carta que ela tinha escrito pra Marielle na semana que elas se mudaram para aquela casa, que foi assim que a Marielle se tornou parlamentar. E a Mônica leu aquela carta. Nesse momento ela se emociona, ela chora. Eu que tava longe, chorei também. Porque é isso, né, fala sobre essa história de amor. O título é até isso: Uma história de amor interrompida.

Por elas, elas morreriam velhinhas, porque era uma história de amor incrível sabe, que infelizmente foi interrompida pela violência. Dá para a gente falar da violência, mas pensando nisso. Eu falei, “como que vocês conheceram? Como que foi o primeiro beijo? Quero contar isso sabe? Vamos contar a história de amor também”.

 

Luana Ibelli

E você estava por dentro, porque você vivenciava isso.

 

Caê Vasconcelos

Sim

 

Luana Ibelli

Você contou essa história na Vida de Jornalista, e eu vou aproveitar esse gancho para fazer aqui uma recomendação para quem tá ouvindo e assistindo a gente, enfim. Porque nós temos o selo da Rádio Guarda-Chuva, que tem o podcast de vida de jornalista, né, que o Caê participou. A gente recomenda, que vocês vão lá conhecer. E tem vários outros podcasts incríveis, inclusive tem reconhecimento de prêmio de jornalismo. Então, se vocês quiserem conhecer é só acessar o site. Vou falar o site daqui a pouco. Eu vou indicar um podcast em especial que tem tudo a ver com o tema que a gente tá falando aqui, que é a visibilidade é da população LGBT+. O podcast é o Dissidentes, apresentado pelo Renan Sikevicius, e que discute diversidade de gênero, afetiva e sexual, a partir de histórias de LGBTs de todo o Brasil.

Então, se você ficou interessada ou interessado no Dissidentes ou em todos os outros podcasts do catálogo, vou falar aqui rapidinho. Tem o Põe na Estante, o Finitude, a Rádio Escafandro, o Afluentes, o Vida de Jornalista, que o Caê deu mais de uma entrevista inclusive por lá, tem o Pauta Pública. Então vale muito a pena. Os podcasts são maravilhosos. O site para conhecer é radioguardachuva.com.br.

Caê, agora eu vou fazer uma última pergunta, para a gente ir pro final, infelizmente. Eu tinha tanta coisa ainda que eu queria te perguntar, mas enfim, né, o tempo, ele é escasso, é um recurso escasso, ainda mais pra gente que gosta de falar. Quando a gente fala de inclusão, tem muito a ver com sonho, sabe? Porque é isso, você pode ser representativo em uma redação, convidar pessoas para trabalhar, mas se não tem inclusão você não consegue prosperar, você não se sente confortável para construir, e para prosperar. Então eu queria que você falasse pra gente dos seus sonhos.  

Não precisa ser necessariamente no seu ativismo, mas o que que você espera pra sua carreira profissional e se você vê possibilidade de isso acontecer na sua vida?

 

Caê Vasconcelos

Nossa, acho que eu tenho conquistados sonhos que eu nem tive, sei lá, a audácia de sonhar. Pensando enquanto um corpo trans, periférico, bissexual. Mas acho que não tem mais um limite. Aonde eu consegui chegar, eu vou chegar. Eu quero muito mesmo ver não só eu ocupando esse lugar, mas outras pessoas transa ocupando a televisão na frente da tevê. Estar ali, apresentadoras trans, comentaristas, nas bancadas dos jornais, em qualquer lugar, até enquanto atores e atrizes, que a gente vê muito pouco ainda na tevê. Porque eu acho que a presença da Lina no BBB desse ano foi muito demarcador, né? A importância dela estar ali naquele lugar. 

Foi muito doloroso, e eu que conheço a Lina, entrevistei ela desde 2018, a primeira vez que a entrevista ela. É uma pessoa que ver o documentário dela foi crucial para eu conseguir ter coragem de me entender um cara trans. Então ela sabe, eu já cansei de falar isso para ela, o quanto ela é importante para minha a trajetória, vê ela passando tanta transfobia foi doloroso, mas foi importante porque a gente passa aquilo todo dia. Não basta a gente está escrito na testa o nosso pronome, a gente tá, querendo ou não, reproduzindo alguns estereótipos de gênero para ser aceito, a gente ainda invalidado por ser quem a gente é, então foi muito doloroso, mas olha o impacto disso sabe.

Essas entrevistas, até do próprio Big Brother mesmo, senhorinhas falando que estavam torcendo pela Lina. Então ela conseguiu chegar num lugar, que a gente não sabe que lugar é esse, né? 

E quanto mais a gente consegue ocupar os lugares realmente, um lugar que a gente vai ser escutado, a gente vai ter visibilidade, a gente vai estar ali para ocupar uma cota. É importante a gente estar nos lugares, mas a gente tem que estar ativo naqueles lugares. Então assim, sei lá, eu quero ser apresentador, comentarista. Estar na frente da tevê. E eu quero que daqui…antes eu falada, que eu não ia estar aqui para conseguir ver todo esse fruto dessa luta que a gente está plantando. Aí eu tenho um amigo, o Denis Pacheco. Sempre agradeço ao Denis por ter me dado essa bronca, que foi uma bronca muito importante. Ele é um cara gay, negro e periférico, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ele me falou: “Caê, pelo amor de Deus. Não dá mais pra gente esperar 50 anos, tem que ser agora a mudança. A gente tem que estar aqui para ver”. Claro que não vai ser amanhã. Não vai ser depois das eleições que tudo vai melhorar, mas vamos construir realmente um mundo melhor.

Esses dias mesmo, acho que eu tava dando entrevista para um TCC e me perguntaram o que que me motiva continuar a luta. São as crianças trans. Porque eu não tive a chance de ser uma criança trans, mesmo já sendo, que agora eu olho para o passado eu falo “meu, com certeza, eu era uma criança trans”, mas não se falava sobre isso. Minha família não tinha ideia dessa possibilidade, mas hoje a gente tem o Gustavinho, tem a Ágata, tem a Maria Joaquina, e todas essas famílias que eu já tive a chance de conversar e entrevistar, falam a mesma coisa: “porque que hoje elas conseguem olhar para aquela criança trans e acolher”. Porque é só isso que a criança precisa: acolhimento, respeito, afeto e amor.

Porque a gente vive num mundo que ainda expulsa as crianças e adolescentes trans de casa. E aí quando você é expulso de casa você não consegue terminar o ensino, os estudos, você não vai conseguir chegar no mercado de trabalho, você vai virar estatística. Então essas mães, principalmente, que são muito mais mães do que pais, me falaram que agora eles elas ligam a tevê e tem, tipo a Érika Hilton. A mulher mais bem votada do Brasil é uma travesti negra. Tem a Lina ocupando aquele espaço no BBB. Por isso a importância do jornalismo e da imprensa. Vamos trazer histórias positivas. 

Claro que o Brasil ainda é 14º ano consecutivo, ou 13º, o país que mais mata a população trans, mas vamos dar outras alternativas. A gente tá chegando a ser vereador, a gente tá conseguindo ser ator, atriz, jornalista, vamos ocupar cada vez mais lugares, a gente consegue ser jogador, de vôlei, futebol, seja qual a categoria. Então vamos mostrar exemplos positivos, pro Gustavinho olhar e falar: “quero ser jornalista. Tem o Caê ali, então se o Caê conseguiu, eu também posso conseguir”. 

Tem que ser pensando nisso. Honrando a transexualidade, mas pensando nas crianças trans, eu quero que o Gustavinho, ele tá com sete agora, com 20 anos ele não precise estar lutando para usar o banheiro, para ter o nome respeitado, o pronome respeitado, e simplesmente poder ser ele. Porque imagina a potência que as nossas crianças trans não vão chegar, se elas estiverem no mundo com um pouco mais de equidade. 

Eu não sei se a gente vai realmente erradicar todos os males, mas um pouquinho mais avançado, acho que a potência vai para um lugar que ninguém imagina aonde a gente vai conseguir chegar. 

 

Luana Ibelli

Ai que bom. Adorei Caê. Muito obrigada por essa conversa. Eu espero que tenha servido pra evidenciar esse tema, principalmente para o público do Portal do Jornalistas, que estão nas redações, tem muitos gestores, que podem fazer a diferença trazendo mais pessoas trans, incluindo mais pessoas trans nas redações, e eu tenho certeza que quem te ouvir, pois como você falou, não tem como não ser sensibilizar com a pauta e mudar a cabeça mesmo.

Pra gente finalizar é faz um um “merchan” aí, do que que você quer anunciar das suas redes sociais, do seu livro, fica à vontade.

 

Caê Vasconcelos

Meu Instagram é cae.vasconcelos e o Twitter caevasconcelos. tudo junto. Lá tem um linkezinho do linktree, que tem vários links, tem um para o meu livro, que tá disponível na Dita Livros, @ditalivros nas redes sociais. Uma editora independente que só publica pautas LGBTs, então tem o Mama, que fala sobre amamentação de um casal de mulheres, tem o Vem Cá, que fala sobre a saúde sexual de mulheres lésbicas e bissexuais, e agora esse meu livro, né que fala sobre pessoas trans. Lá também tem os links para o Atletrans, pro Reflexões, que ainda dá tempo também de quem puder visualizar lá. Vai para o ar ainda o da Gattaz, mas tá lá Star Plus, YouTube, tudo disponível. E vamos divulgar esses trabalhos, principalmente o Atletrans. Se ver alguém falando “não, mas tá Tiffany tem vantagem”, então vem cá assistir esses quatro episódios e depois você fala as coisas porque não, não tem vantagem, a gente tem que estar incluso em tudo.

 

Luana Ibelli

Tá ótimo. Obrigada Caê, espero que a gente tenha outras oportunidades de conversar aqui com o pessoal do Portal do Jornalistas. 

 

Caê Vasconcelos

Obrigado, foi uma honra!

 

Luana Ibelli

Gente, então vamos encerrar, e para a gente encerrar de uma vez, para valer, eu quero fazer os agradecimentos. Primeiro, quero agradecer a nossa equipe maravilhosa, a equipe do Portal dos Jornalistas: A Anna França, estagiária, Fernando Soares, editor, Victor Félix, repórter. Também quero dizer que esse episódio teve patrocínio do Itaú. A gente também tem os nossos apoiadores: a Ajor (Associação de Jornalismo Digital), o ICFJ (International Center for Journalists), a Meta Journalism Project, a Imagem Corporativa, e a Rádio Guarda-Chuva. Tem também os nossos parceiros institucionais, a Énois Conteúdo e a Oboré Projetos Especiais. 

A gente fica por aqui, e até o próximo episódio!

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