A revista Encontro

Por Virgínia Queiroz

O idealismo não sai de moda. É a mola propulsora do empreendedorismo, capaz de promover grandes transformações. Hoje me lembrei dos meus anos de mocidade e dos meus contemporâneos que se dedicaram a promover a melhoria de vida dos moradores do Norte de Minas. Realizamos projetos arrojados para a nossa época. Destaco a fundação do Diário de Montes Claros e da revista Encontro, tema de hoje neste espaço.

A revista Encontro surgiu das minhas conversas com Waldir Senna Batista, Enock Sacramento e Lúcio Marcos Bemquerer. Juntaram-se ao grupo Haroldo Lívio – bancário, advogado, jornalista, escritor, contista e historiador – e Konstantin Christoff, médico cirurgião, artista cuja personalidade, vida e obra marcaram de maneira feliz e definitiva o cenário cultural de Montes Claros. Todos muito jovens, menos de 30 anos, Konstantin, um pouco acima dos 40 anos. Sentíamos a necessidade de ter uma revista que representasse o pensamento e as aspirações do Norte de Minas. Que contasse as nossas histórias e promovesse o progresso da região, que falasse das nossas aspirações, conquistas, que desse foco nas realizações e no progresso da região norte mineira.

Ideias na cabeça, tínhamos a barreira do capital para começar, formar a equipe de jornalistas e colaboradores, as dificuldades de logística para a impressão, a distribuição, como conquistar os leitores… e muitos outros senões que aparecem quando se quer empreender, pôr uma empresa na rua. Mas a juventude tem de bom a força do experimentar, de não ter medo de ousar, acertar ou errar.  E o projeto saiu da iniciativa para as bancas de jornais.

O nome Encontro foi ideia do Konstantin. A despeito de suas funções no hospital e no consultório, ele encontrou tempo para participar da iniciativa. Fizemos inúmeras reuniões para definir o projeto, a missão, os temas, as colunas e todo o projeto gráfico e editorial. Depois de meses de planejamento, a iniciativa virou realidade.

O primeiro número circulou em junho de 1960. As reportagens, entrevistas, crônicas, contos, política e os artigos eram escritos pelos fundadores. A seção humorística era de responsabilidade de Haroldo Lívio, sob o pseudônimo de Parsifal de Almeida, rico de humor e de gostosas gargalhadas. Algumas reportagens foram escritas por Humberto Santos. As caricaturas e ilustrações de anúncios eram saídas da pena de Konstantin Christoff. Ele editava as cartas dos leitores. Mas Konstantin não sabia datilografar. O que ele fez? Comprou um livro, Método de Datilografia. O autor recomendava uma lição por dia num período de 60 dias. Konstantin tinha pressa de aprender. Um dia e uma noite inteiros ele treinou em uma máquina de escrever, copiando as lições. Ao parar o treino, tinha os punhos inchados, mas se tornou datilógrafo.

Os anunciantes prestigiaram e viabilizaram o começo da revista. Bastava levar aos industriais e comerciantes a prova de um anúncio bolado pelo médico e era aprovado incontinenti.

O processo de impressão e distribuição merece ser contado. Todo o material ia, por correio, para Belo Horizonte. Lá os pacotes com nossos textos eram recebidos por Lúcio Bemquerer, que se encarregava de contratar a gráfica pra fazer a impressão. Lúcio morava na capital e estudava Economia na UFMG. Ele se dividia entre o curso e as tarefas de editor. Revistas prontas, voltavam pra Montes Claros para a distribuição entre os anunciantes e os leitores. Nas minhas contas, eram 5.000 exemplares impressos. Quem ajudava na distribuição era o Ducho, dono da Agência Thais, um dos primeiros distribuidores de jornais e revistas do Norte de Minas.

No primeiro ano, a periodicidade da revista se manteve. A receptividade era muito boa. Mas os custos aumentavam, tinha inflação e o faturamento deixou a desejar. A revista precisava de continuar com o apoio do comércio, das associações e da sociedade pra bancar pelo menos a impressão. Mas os custos cresciam, o comércio enfrentava dificuldades, cancelaram anúncios e a revista Encontro parou de circular em setembro de 1962.

Ainda existem exemplares da revista, mas estão nas mãos de poucos. Não me lembro a data, mas o Lucio Bemquerer se encarregou de mandar fazer a  encadernação de toda a coleção e entregou um exemplar pra cada um dos principais colaboradores. A encadernação em poder deste escriba está quase inteira. Faltam algumas páginas arrancadas e outras rabiscadas pelos filhos e netos que sempre frequentaram o meu espaço de trabalho. Foi um feito ter conseguido publicar a revista Encontro nessa época áurea do nosso jornalismo no Norte de Minas.

Folheando a coleção da revista, encontrei textos marcantes e campanhas que ajudaram a promover o progresso do Norte de Minas.  Entre elas, a destinação correta de 3% da renda tributária em favor da população, a campanha pela criação da Unimontes e da inclusão da nossa região na área da Sudene.

Virgínia Queiroz

A contribuição é de Virgínia Queiroz, da Infinity, que trabalhou por 25 anos na TV Globo-SP e teve uma rápida passagem pela Band. Em homenagem ao pai, Décio Gonçalves de Queiroz, falecido em maio de 2018, ela separou algumas histórias que ele publicou na coluna Canto de Página do Jornal de Notícias, de Montes Claros, no Norte de Minas, e enviou a este J&Cia. Vale lembrar que ele próprio dirigiu por décadas o Diário de Montes Claros, além de ter sido revisor no Estadão, nos anos 1950. A história que reproduzimos é da edição de 26 e 27/2/2017.

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