* Por Assis Ângelo

– Pois é, o mundo está cheio de problemas. Muitos desses problemas têm a ver com a visão. Gente que vê sem a luz dos olhos e gente que não vê mesmo com a luz dos olhos.

– Como é que é, Assis?

– Simples, Maria: tem cego que vê a vida com toda a sua beleza e complexidade. E, ao contrário, também: pessoas que veem tudo aparentemente com os olhos que têm e nada veem. Na literatura mundial encontramos o tempo todo personagens e histórias completas que falam de cego e cegueira de modo figurado, simbólico, metafórico.

– Bom, vamos para a segunda parte do rapaz de olhos míopes?

– Sim, vamos lá:

Damião Valente sobe as escadarias de um luxuoso prédio de dois andares tropeçando em seus próprios pensamentos, que são muitos e confusos. Numa sala de espera de escritório, no segundo andar, topa Damião com uma moça toda sorrisos que o deixa sem jeito. É a secretária do proprietário de uma grande organização comercial.
Damião vai pedir prazo para pagar uma dívida.
– Sr. Clóvis, aqui tem um senhor desejoso de falar consigo… Como? Sim, pois não… um momento!

Tapando o fone com a mão e virando-se para Damião:
– Qual o assunto que o senhor deseja tratar?
– Assunto particular, disse num fio de voz.
– Ah, sim… entendo. 

Novamente ao telefone:
– Sr. Clóvis, o moço diz que é assunto particular, deixo-o entrar?… Como? Perfeito. 

Para Damião:
– Sinto muito, meu senhor. Venha outra hora, outro dia. Hoje não será possível atendê-lo.
Damião Valente dá meia volta e retrocede sobre seus passos.

Os homens de empresas só conversam sobre o que lhes interessa. E quem era ele para interessar a esses homens? Nada. Não era ninguém, reconhecia.

Saiu matutando, chutando o vento, resignado.
Lembrava-se que uma noite estivera na casa de uma grã-fina como convidado.

Esquecera o motivo. Estava lá na hora marcada. Tudo cerimonioso. Gestos medidos, andar compassado… 

Além de sufocante, o clima na casa da grã-fina parecia ridículo, com aquele povo todo se fazendo de boneco. Isso mesmo: boneco. Pareciam de cera, uns bonequinhos vestidos numas roupas estranhíssimas. Um saco!

Eram pessoas inverossímeis. 

Damião lembrava-se de que as ficara olhando de um canto, por longo tempo. Que ficara
cubando aquelas feições trabalhadas e carregadas de artifícios. Sentia dó daquela gente, coitada. Eram caras lisas, polidas e coloridas de cosméticos. Puras máscaras em figuras andantes. “Desculpe, Damião”, ouvira o anfitrião dizer a meio tom. Teve pena.

– Assustado, Damião?

Dirigiu-se a um banco de praça e ficou pensando. E pensou. E pensou. 

 – Assustado, Damião?
Damião sabia por si próprio que o patrão era capaz de tudo. Pois não? Ali estava ele, impaciente feito louco.
O dr. Perez Gaioso, para conseguir seu objetivo, não pensava duas vezes. Era capaz de passar por cima de tudo e de todos.
– Assustado, Damião?
Não. Decididamente, não estava assustado, insistia. Já apanhara demais para assustar-se tão facilmente. Mas… estranho, qual o motivo de tamanha inquietação?
– Assustado, Damião?
Aquela indagação sarcástica, ferina e longe de ser cordial, o afligia. Isso era verdade. O afligia. Mas o danado disso era que aumentava a sua angústia. Tirante o leite do menino, ainda a comprar, a prestação dos móveis a pagar, o aluguel atrasado e outros probleminhas caseiros a serem resolvidos, estava tudo em ordem. Só lhe faltava dinheiro no bolso.
A frasezinha apoquentante continuava latejando em seu cérebro, atormentando-o insistentemente. Um inferno!
– Assustado, Damião?

Puta que pariu! Por que aquele espanhol feladamãe achou de fazer logo uma pergunta dessa? Cachorro!
– Assustado, Damião?
Não tinha jeito. O martírio brotava mais vigoroso que nunca naquelas duas palavrinhas aparentemente simples.
Como poderia ser uma coisa dessas?

Damião, a cada instante, tomava-se da certeza de que não resistiria por muito tempo.

A sua cabeça começara a doer, a latejar, querendo quase explodir desde que ouvira a torturante indagação à saída da fábrica. E agora a frase parecia ferver, arder. O cérebro, sabia, não resistiria mais tempo. Precisava se esforçar ao máximo para se pacientar, voltar ao normal e raciocinar direito para agir desenvolto como sempre agira.
Urgia fazer algo para não ser vítima de irremediáveis precipitações. O problema agora era… fazer o quê?

– Assustado, Damião?

– Poxa vida, você poderia ter tido futuro se continuasse a escrever coisas assim.

– Pois é, ter, tinha. Mas não tive.

– Falando sério, Assis: essa história que você anda a contar me faz lembrar de um personagem de Nelson Rodrigues com o mesmo nome do protagonista do seu conto.

– Sei, sei, Flor Maria. Você está se referindo ao Damião da bela peça O Beijo no Asfalto. Aquele não tem nada, nadinha, a ver com o meu Damião de olhos míopes.

– Assis, uma coisa e falando sério: o Nelson morreu cego?

– Não, mas voltaremos ao assunto. Continuaremos com o nosso Damião.


Contatos pelos [email protected], http://assisangelo.blogspot.com e 11-98549-0333

 

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