Por Assis Ângelo
– Então é verdade que sua história Obsessão de um Rapaz de Olhos Míopes foi publicada em livro?
– Sim, resumidamente. Foi publicada numa coletânea reunindo obras de outros autores. É isso. Não minto. Aliás, lembro-me do mestre Luís da Câmara Cascudo dizendo que não mentia. Melhor dizendo, hora ou outra contava uma mentirinha, daquelas beeeem pequenas, que mal nenhum a ninguém fazem.
– Isso dá samba. Melhor, dá um poeminha.
– Hummm… Bom, vamos lá:
Ei, moço, olhe aqui
Mocinha, preste atenção
Cego vê tudo que quer
Através do coração
Através do pensamento
E da imaginação
Eu mesmo juro que vi
Boneca de pano brincar
De cabeça pra baixo
E de pés pra cima, no ar
De olhos fitos em mim
Sorrindo sem nem piscar
Mais e mais eu também vi
Rato pegando gato
Gato papando sapo
Sapo parindo pato
E até um cego pintor
Pintando o meu retrato
Após retrato feito
Pedi ao caro pintor
Que pintasse um passarim
Com pinta de beija-flor
Pipilando satisfeito
Loas para seu senhor
Confesso que também vi
Jacaré sem pés correr
Um papa sem fé em Deus
Um sábio sem o saber
Um papagaio cego
Fazendo tudo pra ver
Agora é bom dizer
Que mentir eu não sei, não
Eu sou pela verdade
Não minto nem sob pressão
Verdades podem doer
Mas são elas o que são
O que vi devo contar
Para nunca esquecer
Eu vi Lampião de saia
Atrás dum macho correr
E que diacho queria?
Ah! Isso eu não vou dizer
– Poxa, gostei! E a história do rapaz de olhos míopes que você escreveu?
– Calma, calma. Antes quero dizer que ando lendo muita coisa boa, muitos livros bons. Li Carmen, Uma Biografia, Olhai os Lírios do Campo e O Alienista.

– Eu gostei muito d’O Alienista, do velho e bom Machado.
– Pois é, na história não há um cego propriamente dito. Porém, Simão Bacamarte, o personagem central, tem olhos que fazem tremer aqueles que são mirados. Olhos penetrantes. Quando está na biblioteca, olha como um cego para o teto e para o livro tanto concentrado fica. Ele constrói na cidadezinha onde vive, Itaguaí, um hospício onde enfia grande parte da população local. Muita gente boa é por ele tomada por louca. Dessa onda não escapa poeta, barbeiro, vereador. Até a mulher dele dos seus olhos não escapa.
– Aliás, Assis, nem ele mesmo escapa do hospício que criou.
– No livro Olhai os Lírios do Campo, de Érico Verissimo, há também um Simão. Esse é judeu pobre de marré, marré. Apaixona-se por uma jovem de família muito rica e tal. Dora. Tem um personagem chamado Ângelo, “de vista curta”, que é pai de um jovem médico de nome Eugênio. Um dia o médico atende uma paciente quase cega. E por aí vai a história. Lindíssima, diga-se de passagem.
– E o livro Carmen, Uma Biografia?
– O autor é Ruy Castro e a biografada é a portuguesinha Carmen Miranda (1909-1955). Entre os músicos que a acompanhavam estavam os irmãos Stênio e Armando, ambos cegos de um olho.
– E o rapaz de olhos míopes, hein?
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