Por Álvaro Bufarah (*)
Se 2025 foi o ano em que o áudio digital consolidou seu espaço, 2026 começa com outra pergunta no ar: que tipo de ecossistema sonoro estamos construindo? Não é mais “rádio versus podcast”, “FM versus streaming” ou “áudio versus vídeo”. É tudo junto, misturado, conectado em telas, apps, assistentes de voz e algoritmos – e ainda assim profundamente humano naquilo que importa: histórias, companhia, informação e afeto.
A seguir, um mapa comentado do que quem gosta, estuda e vive rádio e mídia sonora precisa observar em 2026.
- Áudio não é nicho: virou hábito massivo – e o Brasil está no pelotão da frente
Nos EUA, o estudo The Infinite Dial 2025 mostrou que o podcast deixou há muito de ser “linguagem underground”:
70% dos norte-americanos com 12+ anos já ouviram podcast, 73% consumiram algum programa em áudio ou vídeo e 55% são ouvintes mensais, nível de penetração nunca antes registrado.
No mundo, estimativas recentes apontam algo entre 500 e 580 milhões de ouvintes de podcast e um mercado global na casa de US$ 40 bilhões em 2025, somando publicidade, assinaturas e apoio direto de fãs.
No Brasil, a fotografia é ainda mais sonora: a Inside Audio 2025 (Kantar IBOPE Media) indica que 92% dos brasileiros ouviram algum formato de áudio nos últimos 30 dias – rádio, música em streaming, podcasts ou rádios digitais. O rádio linear segue muito forte, alcançando 79% das pessoas nas principais metrópoles, com índices acima de 80% em capitais como Belo Horizonte, Porto Alegre e Fortaleza.
Ou seja: em 2026, discutir áudio não é falar de nicho geek, mas de comportamento de massa. Para quem pesquisa ou atua na área, isso muda tudo: o áudio volta a ser centro de estratégia, não rodapé de planejamento.

- Podcast em estágio de maturidade: menos hype, mais responsabilidade
A combinação de números do Infinite Dial e de relatórios de mercado mostra um quadro interessante: o crescimento absoluto de ouvintes começa a desacelerar, justamente porque o meio amadureceu e chegou ao tal “teto” de conhecimento da população. Mas, ao mesmo tempo, o envolvimento é mais profundo: ouvintes semanais dedicam em média de 6 a 7 horas por semana aos podcasts, e uma fatia relevante escuta mais de 10 horas.
Na publicidade, o estudo IAB U.S. Podcast Advertising Revenue projeta que a receita do setor deve passar de US$ 2 bilhões e chegar perto de US$ 2,6 bilhões até 2026, impulsionada por vídeo, programática e eventos ao vivo (IAB+1). Já análises independentes como o relatório da Owl & Co. sugerem que, se somarmos YouTube, Patreon e plataformas de apoio direto, o faturamento real do ecossistema de podcast nos EUA pode estar na casa de US$ 4,5–4,7 bilhões, quase o dobro das estimativas oficiais.
Tradução para 2026:
- Podcast deixa de ser “experimento” e passa a ser linha de negócio, com exigência de métricas, brand safety, retorno e profissionalismo.
- A “brincadeira de amigos” continua sendo bem-vinda, mas o espaço de destaque será ocupado por quem combina consistência editorial, dados sólidos e modelos de monetização claros.
- O áudio que se vê: YouTube, vídeo-podcast e a sala de estar inteligente
Outra fronteira importante: o podcast não é mais só aquilo que você coloca no fone. Metade dos americanos já assistiu a um podcast, e o YouTube consolidou-se como a plataforma primária de consumo, à frente de Spotify e Apple Podcasts.
A novidade é onde isso está acontecendo:
- o smartphone continua rei,
- mas a smart TV já aparece como quarto dispositivo mais usado para podcasts em alguns mercados, respondendo por cerca de 9% do consumo, com o YouTube dominando esse cenário.
Se olharmos para o Brasil, as análises sobre o centenário do rádio indicam uma expansão semelhante: o áudio migra para as “telas vivas” da casa – TV conectada, boxes de streaming, consoles – e mistura-se com vídeo, chat e redes sociais.
Para 2026, isso gera alguns recados práticos para quem faz e estuda mídia sonora:
- pensar o podcast apenas como arquivo de áudio é subaproveitar o formato;
- planejar presença em telas grandes (smart TV, CTV) e em formatos híbridos (talk + vídeo, bastidor, cortes) deixa de ser luxo e vira campo de disputa real por atenção;
- nas métricas, passa a ser obrigatório olhar não só para downloads, mas para tempo assistido, retenção em vídeo e comportamento por dispositivo.

- Digital first: o dinheiro segue o ouvinte – e o ouvinte está online
Enquanto a audiência se movimenta, o dinheiro faz o mesmo. Nos EUA, estudos de mercado indicam que o investimento em áudio digital e podcasts continua crescendo de forma consistente, mesmo em cenários de retração publicitária geral. Projeções recentes apontam gasto de US$ 2,5 bilhões em anúncios de podcast em 2025, com tendência de superar US$ 3 bilhões em 2028.
Relatórios setoriais mostram que grupos de rádio como iHeartMedia, Townsquare Media, MediaCo e Beasley já enxergam o digital como pilar central de receita, com algumas empresas tirando mais da metade do faturamento de plataformas digitais – streaming, podcasts, serviços de marketing digital, CTV.
Ao mesmo tempo, o cenário macro da publicidade global aponta crescimento de cerca de 6% em 2026, com o digital abocanhando mais de 70% do bolo e a inteligência artificial sendo uma das alavancas de eficiência em criação, segmentação e compra de mídia.
Para rádios e produtores de áudio, o recado de 2026 é direto: quem insistir em depender só de spot linear vai viver cada vez mais espremido. O caminho que se desenha é o das plataformas de áudio como hubs de serviços: inventário próprio + podcast + social + CTV + mídia programática terceira, sob uma mesma estratégia de dados.
- Convergência total: rádio, streaming, TV conectada e provedores regionais
Do ponto de vista de infraestrutura e distribuição, vimos amadurecer em 2025 um modelo que deve ganhar força em 2026: o das plataformas híbridas, que reúnem rádio digital, canais lineares de TV, vídeo sob demanda e streaming em um mesmo ambiente, muitas vezes operado em parceria com provedores regionais de internet (ISPs).
Plataformas como a Watch e a Awdio (no Brasil) são exemplos de como rádio, TV conectada e streaming estão se tornando serviços agregados de conectividade, e não produtos isolados. O ISP local oferece pacote “internet + entretenimento + rádios digitais” e passa a ser também curador de mídia, com impactos diretos sobre discovery e monetização.
Na prática, isso significa que em 2026:
- a batalha por atenção não será apenas entre emissoras, mas entre ecossistemas de distribuição;
- a emissora que não se articular com ISPs, plataformas de streaming e ambientes CTV corre risco de ficar confinada ao dial;
- para o pesquisador, passa a ser crucial estudar cadeias de valor e arranjos regionais – não apenas o conteúdo, mas quem entrega, empacota e mede.
- Interfaces de voz, smart speakers e a volta do rádio “ambiental”
Enquanto o vídeo avança, as interfaces de voz amadurecem em outra direção. Relatórios como The Infinite Dial mostram crescimento contínuo na posse de smart speakers, com países como Austrália registrando mais de 40% dos lares com pelo menos um dispositivo.
Ao mesmo tempo, a chegada de óculos inteligentes com áudio integrado, como os Ray-Ban Meta, aproximou ainda mais o som do corpo e da rotina – sem tela, sem fone in-ear, com comandos por voz e condução sonora que deixa o usuário ouvir o ambiente e o conteúdo ao mesmo tempo. As primeiras integrações nativas com apps como iHeartRadio transformam esses dispositivos em rádios pessoais portáteis, sempre ligados.
Para 2026, isso recoloca na mesa uma ideia antiga com roupa nova: o rádio ambiental – aquele que acompanha a pessoa enquanto cozinha, caminha, trabalha, dirige, mas agora acionado por voz, hiperpersonalizado e muitas vezes alimentado por IA.
- IA em tudo: da edição ao planejamento – e a tensão ética permanente
Não é mais possível falar de futuro do áudio sem falar de inteligência artificial.
Os grandes players de publicidade já projetam que parte do crescimento em investimento em 2025–2026 será puxado por eficiências geradas pela IA em criação, segmentação e compra de mídia (Wall Street Journal+1).
No ecossistema sonoro, isso aparece em várias camadas:
- ferramentas de transcrição, edição e mixagem automatizada;
- sistemas de recomendação e personalização de playlists e podcasts;
- voz sintética para vinhetas, spots, chamadas e até locução completa de programas;
- análise de sentimento e contexto para ajustar anúncios e conteúdos ao humor e à situação do ouvinte.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com direitos de voz, trabalho criativo e transparência. O caso de vozes clonadas sem consentimento, a necessidade de rotular conteúdos gerados por IA e a discussão sobre precarização do trabalho de locutores, editores e jornalistas estarão no centro do debate em 2026.
Para quem estuda o tema, há um campo fértil:
- modelos regulatórios,
- contratos de cessão de voz,
- ética na utilização de dados de escuta,
- impacto da automação nas rotinas de redações e estúdios.

- Então, o que observar em 2026?
Se você é ouvinte, vale prestar atenção em como seus hábitos mudam: você está ouvindo mais na TV? No celular? Pede conteúdo por voz? Assiste a podcasts? Essa auto-observação diz muito sobre o rumo do mercado.
Se você é profissional ou estudante, 2026 te desafia a pensar o áudio em três camadas ao mesmo tempo:
- Conteúdo – o que continua sendo profundamente humano, autoral, local.
- Plataformas – onde isso circula: rádio, app, YouTube, CTV, smart speaker, wearable, ChatGPT.
- Modelo de negócio – como isso se sustenta: anúncios, assinaturas, branded podcasts, serviços digitais, dados.
O futuro do áudio não está prometido a quem tem mais equipamento, mas a quem entende melhor seu ouvinte e sabe navegar esse mar de plataformas sem perder a essência da linguagem sonora.
Se 2026 traz alguma certeza, é esta: o rádio e a mídia sonora não estão morrendo. Estão, na verdade, se tornando a trilha sonora permanente de um mundo conectado – visível nas telas, invisível nos algoritmos, mas ainda reconhecível na voz que nos acompanha todos os dias.
Fontes de pesquisa:
1) Tendências de áudio, plataformas e comportamento para 2026
- Sounds Profitable & Signal Hill Insights. The Podcast Landscape 2025.
- Edison Research. The Infinite Dial 2025.
- Teleprompter. Podcast Statistics 2025 (Global Listener Growth & Trends).
- eMarketer / Insider Intelligence. Global Audio & Podcast Forecast 2026 (projeções de adoção de áudio digital).
- McKinsey. The State of AI 2025 – análise da adoção de IA em mídia e criação de conteúdo.
2) Mercado publicitário, programática e áudio digital
- IAB. Podcast Advertising Revenue Report 2024–2026 (previsões).
- GroupM. This Year, Next Year – Global Ad Forecast 2025.
- Publicis / Zenith. Global Advertising Expenditure Forecast.
- Inside Radio / Radio Ink. Sínteses sobre monetização digital, programática, CTV e “serviços digitais” oferecidos por grupos de rádio.
3) Ecossistemas híbridos: rádio + streaming + CTV
- Kantar IBOPE Media. Inside Video & Inside Audio 2025 (dados sobre migração para tela grande).
- Roku / Samsung Ads. Relatórios sobre crescimento do consumo de áudio em smart TVs.
- Watch Brasil – informações sobre integração de rádios, FAST channels e hubs de conteúdo para provedores regionais.
4) Smart devices, wearables e assistentes de IA
- Meta. Documentação dos Ray-Ban Meta AI Glasses.
- Apple. Relatórios sobre evolução do AirPods como “computador de ouvido” e uso em áudio espacial.
- Amazon. Estudos sobre Alexa, skills de rádio e consumo hands-free.
- The Verge / Wired. Artigos sobre expansão dos wearables e IA embarcada na escuta cotidiana.
5) Tendências tecnológicas em rádio global
- IBC 2025 – relatórios oficiais e análises RedTech / Radio World.
- Xperi — relatórios sobre DTS AutoStage (rádio híbrida + IA + automação no carro).
- EBU (European Broadcasting Union). Digital Radio and Hybrid Radio Trends Report 2024–2025.
6) Dados brasileiros
- Kantar IBOPE Media – Inside Radio e Inside Audio (2023–2025).
- Cenp-Meios – dados de investimentos em publicidade por meio (rádio + digital).
- Anatel – relatórios sobre rádio, espectro e audiência de rádio FM no país.

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.
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