Vá buscar a linotipo!

Por Virgínia Queiroz

A Redação do Diário de Montes Claros era um espaço de aprendizado e de muita descontração. Na década de 1970, a secretária era Suely, que estava à frente do atendimento aos assinantes, cuidava de toda a parte de venda avulsa de assinaturas e dos meninos que saíam pelas ruas para vender a edição do dia. Havia o time de cronistas, que publicava suas colunas, o time dos repórteres, que diariamente cobria as notícias da Câmara de Vereadores, da Prefeitura, da Justiça e da página de polícia.

Na venda de anúncios, tínhamos Valdemiro Miranda, Wilson Castro Brito e Aristeu de Melo Franco. E havia também a turma da oficina, encarregada de montar as edições, rodar os exemplares e arrumar tudo para a distribuição.

Num ambiente dominado por homens, surgiam sempre histórias engraçadas e a gozação era geral. O clima era descontraído, uns mais sérios, outros mais brincalhões. E a Redação sempre recebia novos colaboradores. Quem chegava era introduzido no universo do Jornalismo com um “batismo”, uma brincadeira, sem muitas consequências. Apenas pra ficar na história dos “casos da Redação do DMC”.

Os apelidos só pegavam quando o apelidado dava bola. Trabalhava na oficina o “Marcha Lenta”, um linotipista que era muito devagar e minucioso com as suas tarefas. O outro era o “Grampão”, um sujeito muito alto. E o João ”Lefú” foi outro apelido que pegou. O João Miranda é irmão do Waldemiro Miranda e chegou para trabalhar no jornal por indicação do irmão. Era magro, desengonçado e logo a turma começou a chamá-lo de João “Lefú”. Ele ficava muito bravo. E a turma pegou no pé dele. João trabalhava como cobrador e atendia aos telefonemas na Redação. Quando era alguém que já sabia que ele odiava o apelido invariavelmente perguntava:

– Quem é que está falando?

– É o João.

– Qual João?

(pausa). João respirava e aos berros dizia:

– É o João “Lefú”, seu FDP!!!

Quando os veteranos do jornal se encontram, sempre lembram, com saudades, das histórias que vivenciamos nos mais de 20 anos de funcionamento do Diário de Montes Claros. Lembro-me de muitas outras. Agora vou contar para os mais novos o que é a linotipo.

O jornalista Felipe Gabrich era um dos que gostavam de dar as boas-vindas, dando tarefas para os “focas” daquela época. Eram telefonemas com notícias para serem apuradas e que muitas vezes não tinham um fundo de verdade. Mas o novato ia atrás e todos esperavam o retorno do “foca” da vez pra saber o resultado da apuração…

Certo dia, o novato recebeu uma encomenda:

– Vá à oficina e peça ao Tião, o chefe do setor, pra te entregar a linotipo, que preciso dela aqui.

O novato atravessou a porta que ligava a Redação e a oficina e foi procurar pela linotipo. Tião, muito espirituoso, apontou para a máquina onde era feita a composição do jornal e disse:

– Pode apanhar e levar! É aquela ali!

Para espanto do “foca”, a linotipo era uma máquina de 1.700 quilos que ocupava uma parte do galpão onde era impresso o jornal. Devia ter uns três metros de altura, toda em ferro preto, por onde os lingotes de chumbo passavam e iam se formando as linhas de texto, a base para a impressão do jornal.

O nosso “foca” da vez voltou pra Redação e foi recebido às gargalhadas pela turma que já esperava pela resposta do jovem aprendiz de jornalista.

Voltando ao assunto da máquina linotipo, que me inspirou a escrever essa coluna. Em poucos anos, ela deverá estar nos museus que contam a história da imprensa. Ainda temos gráficas espalhadas pelo Brasil que adotam o antigo sistema de impressão. Hoje, os jornais de todo o mundo, estão passando pelo processo do digital. Os grandes jornais brasileiros, como o Estado de Minas, O Estado de S. Paulo, O Globo, a Folha, só pra citar os maiores, já têm suas versões e assinantes online. E já surgem redações e projetos que já publicam desde o início somente em suas páginas web, palavra que aprendi nos últimos meses. As edições impressas estão sendo substituídas pelas versões online, sem hora certa para fechamento, com páginas recheadas de matérias coloridas, textos com vídeos que dão outros detalhes da história. Gráficos para atrair a atenção dos leitores, que passam pelas notícias rapidamente, com o simples toque do dedo. As atualizações são constantes. O jornalista já não se preocupa mais em apurar todas as informações para depois voltar à Redação e escrever as reportagens. Hoje, com seus celulares smartphones vão apurando e publicando, em tempo real milhares de notícias. E, ao longo do dia, vão corrigindo informações e acrescentando outras.

Nesse mês de junho de 2017, registro dois fatos históricos. O primeiro foi a decisão sobre o Diário Oficial do Estado de São Paulo, que agora só existe na versão online. Economia de milhões por ano com papel e impressão. O conteúdo publicado na página do jornal, na internet. O segundo fato é o novo modelo de jornalismo da Gazeta do Povo, do Paraná, que substituiu a versão impressa pela online. ”Mobile first“ (ou traduzindo: primeiro você vai ler no seu celular ) é a nova modalidade de consumo de notícias. As edições impressas da semana do centenário Gazeta do Povo não circulam mais… Acho que por amor à história ou pelo ”faturamento” e em respeito aos leitores mais antigos mantiveram a edição de domingo. Mas a gráfica foi fechada e a edição dominical é terceirizada.

Estou com 86 anos de idade. Sou jornalista desde sempre. Publiquei um jornal estudantil, participei da redação de outros jornais, publiquei uma revista e em 1962, juntamente com um grupo de amigos, fundei o Diário de Montes Claros, onde passei muitas madrugadas fechando as páginas do jornal, acompanhando a composição na linotipo, a montagem manual das páginas, uma a uma, para impressão do jornal e saindo da Redação com as mãos pretas de tinta. Nos anos 1980, o DMC introduziu a impressão off-set e a linotipo deixou de ser o equipamento mais importante da gráfica do Diário. Trinta anos depois, temos um novo cenário na imprensa e no jeito de fazer jornalismo. O ritmo das mudanças é assustador! Tudo é muito rápido! Não imaginei que estaria hoje acompanhando essa revolução que está acontecendo na imprensa brasileira e mundial. E digo que, para mim, leitor assíduo, é muito gostoso abrir a edição do JN e ler, calmamente, os textos publicados no velho estilo: com tinta e papel jornal.

Virgínia Queiroz

A contribuição desta semana vem novamente de Virgínia Queiroz, da Infinity, que trabalhou por 25 anos na TV Globo-SP e teve uma rápida passagem pela Band. Em homenagem ao pai, Décio Gonçalves de Queiroz, falecido em maio de 2018, ela separou algumas histórias que ele publicou na coluna Canto de Página do Jornal de Notícias, de Montes Claros, no Norte de Minas, e enviou a este J&Cia.

Décio Queiroz

Vale lembrar que ele próprio dirigiu por décadas o Diário de Montes Claros, além de ter sido revisor no Estadão, nos anos 1950. A história que reproduzimos é da edição de 6 e 7/08/2017.

-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *