Pedro Cavalcanti e as memórias de muito antes da redação

Pedro Cavalcanti (Crédito: Reprodução/Biblioteca de São Paulo)

Por Luiz Roberto de Souza Queiroz

Anos antes de se tornar correspondente de Veja na Europa e cobrir as guerras do Oriente Médio, Pedro Rodrigues de Albuquerque Cavalcanti, que nos deixou no mês passado, desembarcou em Paris, garotão ainda, carregando um jacaré que eu tinha empalhado mal e porcamente.

O jacaré tinha um olhar estapafúrdio, devido ao olho de vidro que eu furtara de uma boneca de minha irmã e, contava Pedro, “o pessoal da imigração ria tanto do bicho, que eu levava como se fosse um guarda-chuva, que não examinaram minha mala onde iam pedras brasileiras cuja venda devia me sustentar na França” e que ele descobriu que não valiam nada.

A viagem a Paris foi a primeira aventura urbana de Pedro, depois de uma adolescência maluca que tivemos. Aos 13 ou 14 anos, não lembro, com uma Winchester 22, nos mandamos de carona de caminhão para o Pantanal, “viver um tempo numa tribo de índios”, que, soubemos depois, não existia.

Éramos quatro: Pedro, eu, José Aranha, que já se foi, e João Celidônio. Sem os índios, inexistentes, paramos em Coxim, onde compramos um barco “piracicabano” bem velho, arranjamos um caboclo como guia, Joaquim Nêgo, e, remando ou de bubuia (NdaR: flutuando na correnteza), descemos o rio Taquari e um trecho do Paraguai.

Foram 720 quilômetros numa viagem inesquecível. A comida, pacus imensos que iscávamos com mangas inteiras, churrasco nas fazendas onde parávamos para pernoitar. Não sei se era verdade, mas os vaqueiros contavam que de manhã colocavam uma manta de carne sob o baixeiro, a sela em cima, cavalgavam sobre essa carne até a hora do almoço, quando ela estava macia e salgada com o suor do cavalo.

O que sei é que a carne era ótima, e a sobremesa, araticum, pequi ou caju do cerrado. Só não comemos jacaré porque, alvejados nadando, afundavam e cadê coragem para mergulhar atrás dos bichos no fundo do rio.

Os fazendeiros das margens nos convidavam para ficar uns dias e acompanhar a lida do campo. Uma vez fomos de caminhão até um rancho a 40 quilômetros da sede de uma fazenda. Não havia estrada, o capim alto jogava tanta semente no radiador que ao fim da viagem foi preciso retirá-lo, lavá-lo, para o caminhão não ferver.

Na hora de recolocar, o radiador não foi bem preso, estourou e voltamos a pé, o pantaneiro dizendo que os estalos que ouvíamos era a orelha da onça, que batia para espantar as moscas. Será que era verdade?

Outra vez, de preguiça de montar a barraca, resolvemos dormir numa tapera, apesar do aviso de que tinha muito percevejo. Não adiantou forrar o chão com a barraca, eram tantos, mas tantos, que depois da noite mal dormida tivemos que colocar a lona num banco de areia para o sol espantar os insetos. Em minutos um bando de passarinhos veio almoçar os bichinhos.

Chegamos a tentar comer uma cobra que matamos, mas ao tirar a pele, a carne estava cheia de vermes, certamente o motivo de não ter reagido quando capturada.

O calor do rio era tão intenso que o guia ficava no barco, remando, e nós acompanhávamos, nadando rio abaixo grande parte do dia. Hoje, o Taquari está assoreado, mas há 60 anos era um sonho para os garotos que éramos. Nadar no meio das piranhas, uma brincadeira, e deu até pena quando, já no rio Paraguai, chegamos a Porto Esperança, nosso destino.

Tempos depois, metemos na cabeça repetir o trajeto dos bandeirantes que avançavam da bacia do Paraná para a do Amazonas e desciam o rio Xingu. Para a empreitada, nosso grupo uniu-se a Toninho Rego Freitas, Tatu Mão Sangrenta (quebrava tudo em que tocava), e Chico Brasileiro, filho do Chicão, que comandara na juventude a Bandeira Piratininga, primeira a entrar em contato com os xavantes, então perigosíssimos.

De carona de caminhão de novo, chegamos ao Sul de Mato Grosso, já na selva amazônica, onde uma empresa japonesa plantava pimenta do reino. Tami “san”, o gerente, encantou-se com a garotada, aproveitou a serraria que montara e, de graça, construiu um barco de tábuas grossas para descermos o rio Ferro e – sonho maluco − chegarmos a Belém do Pará.

Tami “san” nos paparicava. Aprendemos como cozinhar e descascar a pimenta, matéria-prima para o cromo alemão, a comer com hashi, não só arroz, mas também carne de onça, que é escura e bastante dura.

Ninguém acreditava que fizéssemos os quase 3.000 quilômetros até Belém e o vigia de uma fazenda distante disse que teria de ir à beira do rio e deixaria um sinal na margem, para podermos voltar pela mata se desistíssemos da empreitada. Empurrando o barco para o rio encachoeirado, nos mandamos atrás do irrealizável.

Foram acho que dois meses descendo o rio, caçando pouco, o melhor almoço foi um pato que o Pedrinho abateu a bala, porque não tínhamos cartucheira, além de um macaco-aranha que, sem o couro, parecia uma criancinha, mas que, mercê da fome, foi comido assim mesmo.

O rio era tão sinuoso que, uma noite, ao acamparmos, descobrimos que tínhamos passado o dia fazendo uma imensa volta e estávamos a poucos metros do acampamento da noite anterior. Mas nada afetava o Pedro, que tivera aulas de pintura e comentava ao ver um pôr do sol: “Se eu pusesse essas cores numa tela, meu professor criticaria, dizendo que era invenção”.

Até hoje, tanto tempo depois, sinto falta do silêncio do rio, cortando a majestade da mata amazônica – lugar-comum, mas verdadeiro −, um ou outro canto de pássaro apenas e nós, introspectivos. Passávamos horas sem falar, cada um voltado para dentro de si, apenas curtindo a natureza, sentindo-se unido a ela, próximo de Deus e, ao escurecer, já na rede que fazia as vezes de cama, uma oração de agradecimento, a felicidade da vida que nos foi dada.

Com o tempo, porém, a comida foi terminando, ficou claro que não chegaríamos a Belém, horizonte longe demais. Soubemos depois que nossos pais acionaram a FAB, que chegou a mandar um C-47 à nossa procura e desistiu, porque a selva era tão fechada que do ar mal se podia ver o rio em que navegávamos.

Quando chegamos à embocadura do rio Ferro com o Von Den Steinen, formadores do Xingu, não dava para continuar, sem comida. Foi então que vimos na beira do rio um pedaço de camisa velha pendurado numa árvore, o “sinal” se quiséssemos acessar uma entrada.

Colocamos o barco numa forquilha de árvore, elevada, para que a cheia não alcançasse, entramos pelo meio da mata, altíssima, e caminhamos buscando os sinais do que seria o caminho, até alcançarmos a estrada, pela qual acabamos chegando à casinha do nosso salvador.

Voltamos a São Paulo atrasados para a escola – a aventura durara mais que as férias de fim de ano −, mas Chico Brasileiro não se conformou. Arranjou algum dinheiro, voltou para Mato Grosso, tirou nosso barco da árvore e continuou remando, até o Parque Nacional do Xingu, onde, sozinho, acabou morto pelos índios kajabi, a golpes de borduna, como muitos anos depois Orlando Villas Boas me contou.

Pedro Cavalcanti queria porque queria voltar à região para recuperar os restos mortais de Chico, mas a empreitada seria cara, era preciso helicóptero e, garotões sem trabalho, não tínhamos como custear.

A vida continuou, entrei no Estadão e após assinar algumas matérias me convidaram para escrever uma série de fascículos sobre pintores famosos, a ser lançada pela Abril.

Até que tentei, mas não era minha praia. Quando o editor concluiu que não dava certo, perguntou se eu tinha alguém que entendesse de arte para indicar. Indiquei o Pedro Cavalcanti. Deu certo e ele fez uma linda carreira na Editora Abril, primeiro aqui, depois na Europa, porque, apesar do inusitado de chegar a Paris com meu jacaré em punho, foi lá que encontrou seu amor da vida inteira, Denise, mãe de seus filhos, que agora deixa viúva.


Luiz Roberto de Souza Queiroz

A história desta semana é novamente uma colaboração de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto (lrobertoqueiroz@uil.com.br), que foi por mais de 40 anos repórter no Estadão e hoje atua com sua própria agência de comunicação. Diz ele a título de explicação: “Escrevinhei um texto sobre o Pedrinho Cavalcanti, que foi meu colega no Colégio Santa Cruz e grande companheiro na adolescência. A lembrança veio, o artigo ‘pediu’ para ser escrito e não tive como dizer não. Como J&Cia publicou um texto sobre ele enquanto jornalista, envio este outro, para saber do outro lado, dele e meu, antes de nos amarrarmos na profissão”.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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