Patrocínios culturais e devolução de acervos, os novos alvos dos ativistas

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Um protesto no British Museum em Londres no fim de semana chamou atenção para sensibilidades que têm afetado a imagem de instituições culturais no Reino Unido e em outros países ocidentais. Galerias e museus enfrentam questionamentos por aceitarem patrocínios de empresas cujas atividades ou práticas são condenadas por ativistas. E por manterem no acervo artefatos de outros países obtidos na época colonial.

A ação no museu londrino foi feita pela organização BP or not BP?, cujos representantes lá entraram ocultos dentro de um “Cavalo de Troia”, em alusão à exposição Troy, Myth and Reality, patrocinada pela British Petroleum. Passaram 51 horas fazendo protestos que ganharam visibilidade gigantesca na imprensa e em mídias sociais.

Os patrocínios representam uma parcela importante da receita dos museus britânicos, que empregam sofisticados esquemas de marketing para produzir exposições grandiosas, promover eventos e conceder licenciamentos. Assim, reduzem a dependência de verbas estatais. Para não virarem alvo de críticas, poderão ter que evitar a associação com marcas que provoquem sentimentos adversos.

A Tate Modern e a National Portrait Gallery já seguiram esse caminho. A primeira anunciou ano passado a decisão de não mais receber apoio da família Sackler. E a segunda desistiu de uma doação de um milhão de libras por parte do fundo administrado pelo clã.

Os Sackler comandam o império farmacêutico Purda Pharma, fabricante de opioides tidos como causadores de dependência severa. O grupo virou alvo de uma campanha liderada pela fotógrafa americana Nan Goldin, que sofreu com o vício e se converteu em aguerrida ativista.

Ativistas da BP or not BP? chegaram em um “Cavalo de Troia” e tiveram grande cobertura

Colonialismo – Mas a maior dor de cabeça é o movimento contra o colonialismo, que coloca em risco justamente os acervos que atraem visitantes e patrocinadores. Há pressão crescente pela repatriação da objetos advindos das expedições arqueológicas realizadas na época colonial, responsáveis por boa parte das riquezas expostas nos museus daqui.

Os defensores da permanência das peças sustentam que muitas foram trazidas com autorização de autoridades. E que estão preservadas e são vistas por mais gente do que se estivessem em locais remotos. Ou ainda que nem todos os que reclamam os objetos são herdeiros dos povos originais.

Mas em uma época em que o respeito a minorias e a valorização das culturas tradicionais é tão relevante, tais argumentos não se têm mostrado suficientes para conter a onda.

Quem está se destacando positivamente nesse campo são as universidades do Reino Unido. Compelidas pelos alunos a repatriar objetos, não têm a justificativa de serem proibidas por legislação a fazê-lo, como os museus estatais. E estão entregando os anéis para não perderem os dedos.

Na segunda-feira (10/2), o jornal The Times publicou resultado de um levantamento dos pedidos recebidos pelas principais escolas superiores britânicas, demonstrando que a maioria repatriou ou já se comprometeu a repatriar peças requisitadas por países ou grupos indígenas recentemente.

No caso das universidades a situação é mais fácil, pois sua atividade-fim não é visitação. Já para os grandes museus, que dependem dos visitantes, a situação é mais complicada.

Uma das maiores controvérsias envolve as esculturas de mármore do Parthenon, da Grécia. Metade delas está no British Museum, trazidas no século 19 por Lord Elgin, razão pela qual são conhecidos como Elgin Marbles. Diante de pressões do Governo grego, o conselho da instituição descartou ano passado a possibilidade de os devolver, mas o caso não deve parar aí.

Já existem decisões judiciais obrigando à devolução de objetos reclamados. Mesmo que ela não seja obrigatória, porém, trata-se de uma questão de percepção, que pode acabar se estendendo a patrocinadores ou doadores.

Os valores da sociedade mudaram. A tecnologia colocou nas mãos dos cidadãos e de grupos organizados ferramentas para engajar ativistas e disseminar protestos, alertando para questões que pouca gente se dava conta no passado.

As instituições têm pela frente a complexa missão de encontrar saídas para manter sua saúde financeira sem colocar em xeque a imagem de responsabilidade e respeito às culturas que se dispõem a valorizar. O exemplo de alguns museus e universidades britânicas pode ser inspirador.

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