Um novo olhar sobre o Afeganistão, por Adriana Carranca

Adriana Carranca

“Às 8h46 do dia 11 de setembro de 2001, no momento em que o avião que fazia o voo número 11 da American Airlines colidiu com a Torre Norte do World Trade Center, em Nova York, Fatema, mulá Abdul, marechal Fahim, Massouda, Wahida, Alberto, Ajmal, Miguel, Sayed, Shah e Sadaf não imaginavam que aquele acontecimento afetaria diretamente suas vidas em uma terra distante (mais precisamente a 10.864 quilômetros da ilha de Manhattan).” (Trecho do prefácio de O Afeganistão depois do Talibã).

Em seu mais recente livro, O Afeganistão depois do Talibã (Civilização Brasileira), a repórter especial do Estadão Adriana Carranca vai em busca de um objetivo pessoal: dar uma visão diferenciada às coberturas geralmente pontuais em situações de guerra, com um olhar mais humano sobre os personagens que viveram de perto os períodos pré e pós-ataques de 11 de setembro.

O curioso é que, como ela mesma relata, muitas dessas pessoas no Afeganistão sequer sabem dos fatos ocorridos em Nova York, que mudaram para sempre as suas vidas. São no total 11 personagens que contam, com suas histórias de vida, a realidade daquele país após o surgimento do Talibã, com especial ênfase ao período pós-11/9. Para as pesquisas, passou um mês no país em 2008, e dois meses agora em 2011, entre abril e maio, quando também esteve no Paquistão cobrindo a morte do símbolo dos ataques de dez anos antes, Osama Bin Laden.

Para contar essa história, buscou pessoas com histórias de vidas bem diferentes, mas que fazem parte de um único Afeganistão. Os 11 protagonistas, segundo ela, foram apenas uma coincidência numérica, sem nenhuma relação com a data do maior atentado terrorista da história mundial. São eles Fatema (a herdeira), Mulá Abdul (o talibã), Marechal Fahim (o senhor da guerra), Massouda (a candidata), Wahida (a viúva), Alberto (o estrangeiro), Ajmal (o ?infiel?), Miguel de Deus (o mensageiro), Sayed (o refugiado), Shah (o livreiro) e Sadaf (a lutadora).

Natural de Santos, no litoral Paulista, Adriana confessa que até os 14 anos a mãe não a deixava sequer ir sozinha até a padaria. “Até hoje ela não consegue dormir se eu não ligar toda noite quando chego em casa”, afirma. Não por menos só contou para sua mãe sobre sua primeira viagem ao Afeganistão quando já estava lá!

Em entrevista ao editor deste Portal dos Jornalistas Fernando Soares e à assistente Mariana Ribeiro, na sede do Estadão, em São Paulo, Adriana falou sobre suas dificuldades e conquistas durante o processo de produção de seu novo livro, o terceiro – os outros dois foram Endereços curiosos de Nova York (Panda Books, 2003) e O Irã sob o chador, em parceria com Márcia Camargos (Editora Globo, 2010). Também mantém um blog desde 2007, o Adriana Carranca – Pelo Mundo, que ganha força a cada viagem e cobertura internacional que faz.

Portal dos Jornalistas  Como surgiu a ideia de ir para o Afeganistão?

Adriana Carranca – Por quê Afeganistão? Não sei ao certo. Tudo começou quando ganhei uma bolsa e fui fazer mestrado em Londres, em Políticas Sociais, entre 2004 e 2005. Sempre tive muito interesse por assuntos relacionados aos Direitos Humanitários, conflitos, grandes crises, desastres naturais etc.. Só que minha intenção era conseguir uma base para fazer uma cobertura melhor dos assuntos aqui do Brasil. Na época eu estava na editoria Local aqui do Estadão e queria aprender a cobrir o conflito que estava acontecendo na periferia, nas favelas do Rio. Eu já vinha cobrindo toda aquela crise do PCC, os ataques em São Paulo, as rebeliões em massa. Também fazia muita cobertura na Fundação Casa, cheguei inclusive a fazer trabalho voluntário por seis meses, dando aula pras meninas lá dentro.

PJ – E como seu foco mudou?

Adriana – Lá (em Londres), a minha classe tinha uma característica muito interessante. Éramos 48 pessoas de 35 países, o que fez minha cabeça abrir completamente! A gente discutia favelas na Índia, direito da mulher na Arábia Saudita, com relatos de pessoas que eram desses lugares. Foi quando comecei a me interessar mais pelos temas humanitários mundiais, não só locais. O que me incomoda um pouco na cobertura das guerras é que ela é extremamente pontual. Todo dia lemos que morrem 50, 100, 200 num bombardeio. Quando não é isso, é o factual, o lado militar. Numa guerra, para mim, isso é o que menos importa. Para mim existem duas pontas a serem analisadas: o lado da política, da negociação da guerra, e o lado humano, de como está vivendo o povo que é diretamente afetado por essa guerra. E aí, por quê o Afeganistão? Porque eles foram o primeiro alvo do 11/9, da reação ao 11/9. A guerra do Iraque não tem nenhum porquê, nenhum motivo, não tem nem justificativa, não tem gancho, mas a guerra do Afeganistão me atraiu porque foi motivada pelo maior atentado da história. A reação aos atentados foi invadir o Afeganistão, porque se acreditava que o Bin Laden estava lá, e as notícias que chegavam eram de que os afegãos eram todos terroristas ou apoiadores do terrorismo. E isso eu também não compreendia. Eu queria entender o que levava um povo a cometer um atentado daquelas proporções e da forma como estava sendo dito, generalizada, sobre os afegãos.

PJ – Você acha então que faltou uma cobertura sobre o lado humano? Ou tudo é uma questão de direcionamento editorial?

Adriana – Acho que faltou olhar. Faltou as pessoas se darem conta de qual é o objetivo real de uma guerra. Em tese, quando os EUA entraram no Iraque, eles foram libertar “entre aspas” a população de um ditador, o Saddam Hussein. Por que então eles não foram libertar outros países da África de tantos regimes ditatoriais e levar desenvolvimento? Não se discutiu propriamente o real motivo da guerra no Iraque, não se discutia nada na verdade. Mais tarde todo mundo descobriu que não tinha arma de destruição em massa lá.

PJ – Depois do mestrado em Londres você passou um período também em NY, na ONU. Como foi essa experiência e como ela influenciou na abordagem do seu trabalho?

Adriana – A experiência na ONU foi bastante interessante porque um dos bolsistas era afegão. Ele tinha uma história muito bonita, tinha se autoeducado, aprendido inglês por conta própria, não era formado e tornou-se jornalista porque viu na guerra uma oportunidade para a sua vida. Ele ajudou também a mudar na minha cabeça a imagem que eu tinha do Afeganistão. Depois, inclusive, foi meu tradutor lá, em parte de minhas pesquisas e entrevistas.

PJ – No livro você relata o medo que teve antes e durante sua chegada ao Afeganistão. Demorou muito para passar esse medo? E em sua segunda visita, como foi?

Adriana – Demorou um pouco para passar o choque. Mas uma vez que eu estava lá, já não tinha mais medo como tive antes, quando via tudo pela tevê, durante todo o processo de decisão da minha ida. Uma vez que você está lá, junto com mais 30 milhões de afegãos, todo mundo no mesmo barco, esse medo deixa de existir. O que demorou para passar foi o choque da diferença cultural. Eu olhava para aquela cidade com mulheres usando burca, homens com roupas típicas, muito rurais, a cidade caótica, uma coisa meio medieval ainda, mas com uns prédios envidraçados, em decorrência da chegada dos estrangeiros. Eram coisas que não combinavam muito. Eu me sentia invisível desde o momento em que cheguei ao aeroporto, até porque os homens não olham, as pessoas não olham para você. É muito esquisito. O brasileiro olha no olho, eles não. A princípio parece falta de respeito, mas não é. É uma coisa cultural com a qual você tem que se acostumar.

PJ – E qual foi sua primeira impressão do povo afegão?

Adriana – Eu cheguei a um Afeganistão que tem 85% da população analfabeta, que só tem luz elétrica em 10% ou 15% do país, o que significa que as pessoas não têm geladeira para guardar alimentos, que não têm televisão. Em sua grande maioria eles não tinham o menor conhecimento do que foram os ataques de 11/9. Eles não têm nenhum contato com o mundo exterior, não sabem o que é celular. Hoje, dez anos depois da invasão, mudou um pouco, mas ainda assim a maioria dos afegãos não sabe dos ataques.

PJ – Eles não sabem por quê estão apanhando?

Adriana – Não sabem! Eles acham que os Estados Unidos entraram no Afeganistão para salvá-los do Talibã. Acreditam que os americanos viram o sofrimento pelo qual passavam e por isso foram libertá-los, ou seja, eles também não são apoiadores do movimento. O Talibã só conseguiu governar o Afeganistão por causa da invasão soviética no final da década de 70 e da forte ofensiva dos EUA e do UK contra os comunistas, outra guerra que se deu no solo afegão sem nunca ter tido nada a ver com o povo de lá. Os talibãs eram meninos, jovens, crianças. No livro, por exemplo, eu falo sobre o Mulá Abdul. Ele era um menino nômade que foi tirado da sua família e levado para uma escola religiosa, a chamada madrassa, que nada mais é que uma escola como os nossos internatos católicos, não tem nenhuma diferença. Como elas eram gratuitas, onde as crianças poderiam dormir, ter casa, comer de graça, tudo financiado pelo Paquistão, as famílias preferiam deixar as crianças nas madrassas. Só que a contrapartida é que, além do ensino religioso, eles eram treinados para lutar militarmente, para que se tornassem soldados na luta contra os soviéticos. Eles cresceram e viram, então, que o Afeganistão estava em guerra civil e daí surgiu o movimento para acabar com a guerra civil no Afeganistão, para acabar com a violência. Era um movimento legítimo, de levar segurança ao Afeganistão. Só que eram meninos ignorantes, que só aprenderam o Alcorão e treinamento militar. E o Alcorão eles não entendem, só decoram, porque não é a língua deles. Ele é escrito em árabe e eles falam pachto, que é a língua tribal da fronteira, ou dari que é a língua oficial do Afeganistão.

PJ – E essa invasão ainda hoje é sentida?

Adriana – Os soviéticos acabaram com o Afeganistão. Deixaram 10 milhões de minas terrestres. Tanto que até hoje são feitas duas vítimas por dia no Afeganistão por conta dessas minas. Elas foram jogadas por aviões e lá se tornou o maior campo minado do mundo. E como é predominantemente rural, as crianças que brincam nas ruas e as mulheres que vão buscar lenha para aquecer a casa são as mais afetadas.

PJ – A cobertura num ambiente de guerra não é fácil. E para uma mulher, em uma sociedade onde os direitos femininos são tão questionados, como foi ter acesso às pessoas? Houve preconceito?

Adriana – Acesso aos homens e às autoridades é sempre mais difícil. Não sei se por ser mulher ou por ser brasileira, já que o Brasil não está na guerra. Por outro lado, é claro, recebem o Brasil muito bem por causa do futebol. Eles adoram o Brasil e têm a imagem de um país bastante pacífico. Mas para você conseguir entrevistas com autoridades, é muito mais difícil.

PJ – E com os entrevistados de seu livro? Você cita em um trecho que o próprio Mulá Abdul nem olhava na sua cara enquanto você o entrevistava.

Adriana – Os talibãs foram criados e cresceram nas madrassas sem a presença das mulheres. Cresceram longe das irmãs, das mães. Os próprios afegãos brincam que quando os talibãs saíram das madrassas, eles não sabiam o que fazer com as mulheres, porque eram um bicho esquisito que eles nunca tinham visto. Eu não queria de fato entrevistar as autoridades, exceto um ou outro, como o Mulá Abdul, que é um comandante talibã. Mas eu queria entender quem ele é, e não o que ele faz no talibã. Entrevistá-lo não chegou a ser difícil, mas o fato de ele não olhar nem falar diretamente comigo era uma coisa cultural, era o jeito dele. Na cultura afegã é falta de respeito olhar para as mulheres e é falta de respeito muito maior dirigir-se à mulher que você não conhece. Ele estava ali cumprindo o que aprendeu, que era falta de respeito olhar nos olhos de uma mulher.

PJ – Qual era a sua sensação no dia a dia nas ruas?

Adriana – Para mim foi muito esquisito, parecia que eu era invisível. Mas o lado bom é que, quando eu saía, se fosse a um lugar com estrangeiros, eu saía de véu. Se fosse a um lugar público, um supermercado, por exemplo, eu botava a burca. E os homens não entravam em contato comigo, porque não iam abordar uma mulher sem serem chamados, então eu passava despercebida, como uma afegã.

PJ – Como era quando você tinha que lidar com homens?

Adriana – Quando eles se dirigem a você, sendo mulher numa entrevista, por exemplo, são profundamente respeitosos. Mesmo os que não eram talibãs e olhavam para você, eram profundamente respeitosos. Também havia um pouco de admiração de ver uma mulher fazendo aquele tipo de trabalho. Mas a grande vantagem mesmo de ser mulher é que eu tinha acesso a todas as partes das casas, coisa que um homem jamais poderia fazer, porque seria falta de respeito. Um homem nunca entraria numa casa afegã, a menos que fosse numa ala masculina, tendo acesso só aos outros homens. Muitas vezes também havia uma salinha onde as pessoas comem. Nesse caso, os convidados do sexo masculino ficam nessa sala, enquanto as mulheres ficam escondidas em suas alas. Eles só veriam as mulheres se elas colocassem a burca, mas elas não poderiam falar com eles. Já eu podia circular em todas as alas. Então eu ficava com as mulheres cozinhando, ficava com as crianças brincando, eu ia ao mercado com elas, ia levar as crianças para a escola com a mãe.

PJ – Você chegou a ficar um bom tempo nas casas?

Adriana – Fiquei muito tempo! Eu ia à casa das famílias e ficava o dia inteiro. Como tinha uma certa dificuldade para fazer entrevistas, porque precisava de tradutor, geralmente fazia uma entrevista para pegar as informações que queria, a história de vida das pessoas. E depois ficava só, sem tradutor, observando como era a vida das pessoas.

PJ – E como eram as estruturas familiares?

Adriana – Como as casas afegãs são divididas entre alas masculinas e femininas, os pais dormem com os meninos e as mães dormem com as filhas mulheres. O sexo lá é só para procriação. Qualquer outro contato físico com as mulheres é falta de respeito. A afetividade deles não é entre mulher e homem, é apenas entre homens. Em geral eram famílias estendidas. Por exemplo, eu fui a uma casa só com dois quartos. Eram quatro irmãos casados com quatro irmãs, e junto eles tinham 19 filhos. Eles não tinham banheiro, porque não é tradição, nem água, porque o Afeganistão é muito seco. Eles têm um vaso, minimamente, mas o banho era em casas de banho.

PJ – Desde 2007 você também mantém um blog, que é bastante rico em informações e impressões pessoais desse período. Como é sua relação com essa tecnologia?

Adriana – Apesar de manter o blog, algumas vezes sinto que não saquei bem a melhor maneira de explorá-lo. Eu sempre vi o blog como uma coisa mais pessoal, então procuro alimentá-lo mais com as histórias e impressões dos locais que visitei. Numa matéria de jornal vão aspas do personagem, e você raramente tem a oportunidade de contar a sua vivência com esse personagem. Com o blog é diferente. Você tem essa ferramenta à disposição, que te dá essa oportunidade. Depois que voltei dessa última vez tenho alimentado menos.

PJ – Como funcionava o acesso à internet para essas atualizações?

Adriana – Tudo a base de gerador. Em Cabul, nos bairros onde os estrangeiros vivem, você consegue ter acesso a internet. Na pousada em que eu costumava ficar, apesar de simples, também tinha internet. Da primeira vez eu fiquei em um hotel mais estruturado, mas ele já não existe mais, explodiu assim como o mercado a que ia e muitos lugares por onde passei.

PJ – E como era a atualização desse blog durante o período no Afeganistão?

Adriana – A grande vantagem é que enquanto eu estava em viagem, escrevia e falava livremente da vivência que era muito rica com o povo Afegão. Eu podia pôr um pouco mais do meu olhar, do que estava sentindo, mais do que seria possível fazer em uma matéria de jornal. Dessa última vez fiquei por dois meses lá. Não fui só pelo jornal; tirei uma licença para ficar esse período. No fim, algumas coisas foram aproveitadas também pelo jornal, mas na maioria dos casos eram impressões pessoais minhas. Essa era a grande vantagem do meu blog.

PJ – Quais impressões mais lhe chamaram a atenção?

Adriana – Eles estão numa fase anterior à criação do Estado de Direito. Não existe a figura do cidadão de direito no Afeganistão. Tudo é o interesse da tribo e da família. Nada é mais importante para o afegão do que a tribo e a família. É um senso de coletividade que nós perdemos e a gente está indo cada vez mais pelo caminho do individualismo. Eles ainda estão lá atrás. Não tenho certeza se para eles vai ser bom caminhar do jeito que a gente caminhou. Às vezes torço para que eles caminhem de outra forma, que os interesses coletivos continuem sendo importantes, porque isso é uma coisa bonita que os afegãos ensinam. Eles botam qualquer interesse individual atrás do interesse coletivo e entendem isso muito bem. Quando tiveram a primeira Loya Jirga, que foi o grande conselho para formar esse novo governo “observado pela ONU e pelos EUA”, os países que estavam lá começaram a entrar num desespero, porque eles não chegavam num consenso. Só há decisão no sistema afegão se tiver consenso. Não existe maioria, é consenso absoluto. Então, eles discutiram por muito tempo, até que houvesse um convencimento sobre o que era melhor para a nação.

PJ – Por que 11 entrevistados? Tem a ver com o 11/9 ou foi um número aleatório?

Adriana – Foi uma coincidência serem 11. A gente até achou que soava bem, mas foi realmente uma coincidência, porque cada um mostra um lado dessa guerra. Pelo menos todos os lados dessa guerra que eu pude ver. Desde a elite afegã até os meninos pobres do talibã. Tem também os senhores da guerra, as viúvas, o drama dos civis etc..

PJ – Você sentiu que a morte de Osama Bin Laden afetou de alguma forma o povo afegão?

Adriana – A morte do Bin Laden não fez a menor diferença para eles. O Bin Laden não faz diferença nenhuma para eles, na verdade. Ele foi um cara que os EUA colocaram lá para recrutar soldados árabes, para lutar contra os soviéticos. Os afegãos no máximo sentiam que tinham uma dívida com ele, porque ele os ajudou a lutar contra os soviéticos, só isso. Mas eles tampouco gostam do Bin Laden. Ninguém gosta do Bin Laden no Afeganistão, ninguém chorou a morte do Bin Laden no Afeganistão.

PJ – Você ainda mantém contato com os protagonistas da sua história?

Adriana – Procuro tentar manter com todos, mas depende da pessoa. A Wahida, por exemplo, eu acompanho através do contato com a direção da escola em que os filhos dela estudam no Afeganistão. Do Ajmal eu sei pelo pai, que tem telefone. O Mulá Abdul tem telefone, mas não fala uma palavra que não seja em pachto, então ele tenho contato só às vezes, pelo tradutor. Com o médico da Cruz Vermelha falo sempre e com a Fatema, que tem internet, também. Com a Massouda, que é a candidata a presidente, eu falo em inglês pela internet. Com a Sadaf eu não tenho tanto contato porque ela não tem telefone, nem internet e não fala inglês. Então, só se eu mandar o tradutor lá para vê-los. Com o personagem brasileiro tenho contato direto, adoro ele. Já o Fahim é vice-presidente agora, então sei dele pelas notícias, mas ele não me deu entrevista, foi o único cujo perfil eu fiz sem entrevistar. Fui à casa dele, mas ele não quis. Ele não fala com a imprensa desde as eleições de 2004 porque é acusado de tráfico de drogas, de enriquecer por corrupção, de assassinatos etc..

PJ – E você pretende voltar pra lá?

Adriana – Eu queria voltar já! Esses lugares são muito interessantes pelo aprendizado que se adquire de como já foi o mundo em épocas passadas. Se você comparar a estrutura da sociedade deles, eles estão realmente numa era medieval. O sistema, os valores, sempre que você vem embora sente que fica história para trás.