Novo curso de Jornalismo do Insper quer provocar impactos e fortalecer a democracia

João Gabriel de Lima

Está nascendo este ano um novo curso de pós-graduação em Jornalismo, de período integral, assinado pelo Insper, instituição reconhecida pela excelência dos cursos em várias disciplinas. Ele tem como coordenador João Gabriel Santana de Lima, ex-diretor de Redação de Época e Época Negócios, que tem uma larga vivência na grande imprensa e na própria universidade.

Atualmente trabalhando paralelamente em um novo projeto da operação digital do Estadão, ele se vale de seus estudos e pesquisas para unir prática e ensino nos dois universos em que transita. “Pesquisei para o curso novos modelos digitais e simultaneamente estou aplicando no Estadão algumas coisas que aprendi aqui; e estou trazendo para o Insper algumas coisas que pesquisei lá. É a popular via de mão dupla”, diz sobre essa dupla jornada.

João Gabriel recebeu Jornalistas&Cia para falar desse novo trabalho que está iniciando no Insper e sua confiança é um testemunho da crença no fortalecimento do Jornalismo de qualidade e diferenciado.

Jornalistas&Cia – Qual o nome e como surgiu a ideia do curso?

João Gabriel – Ele se chama Programa Avançado em Comunicação e Jornalismo do Insper. A ideia nasceu em 2017, após visita de alguns diretores do Insper à Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. E nasceu com o objetivo de focar na prática da profissão e nas transformações em curso, subordinado ao núcleo do curso de Políticas Públicas

J&Cia – Alguma razão especial para essa subordinação?

João Gabriel – Esse núcleo foi criado com o objetivo de formar profissionais para melhorar a gestão pública e, a partir daí, provocar impactos positivos na sociedade. No mesmo espírito, o Insper considera que o bom Jornalismo pode ajudar a melhorar a qualidade da democracia brasileira. Com a decisão tomada, fizemos estudos em algumas universidades norte-americanas para saber como elas estão se aparelhando para atender às novas demandas do mercado.

J&Cia – Todos sabemos dos desafios e dificuldades para se construir uma carreira no Jornalismo. Como vocês veem essa questão?

João Gabriel – Há duas coisas muito centrais no nosso curso. Antes, as pessoas entravam em Jornalismo pensando em fazer carreira em algum veículo. Hoje o foco é uma carreira em reportagem, fruto de um novo ambiente jornalístico: há as empresas de legado, mas também muitas startups de Jornalismo e profissionais atuando como empreendedores, criando negócios. J&Cia é um deles. Nos Estados Unidos esses dois últimos são muito comuns. Por isso partimos para um curso contemplando essas duas vertentes.

J&Cia – O que você chama de mídia de legado?

João Gabriel – No Brasil, as grandes empresas, como Estadão, Folha, Globo, Record… Esse termo popularizou-se nos Estados Unidos para indicar os veículos tradicionais, cuja credibilidade repousa no fato de estarem aí há muito tempo. Só que lá há também grandes veículos jornalísticos que não são de legado, como Vox, Maxis, que não têm 100 anos; mesmo caso do Brasil, onde temos Nexo, Jota, Poder360, que já nasceram nesse novo ambiente. Daí a nossa crença de que o universo jornalístico vai ser cada vez mais diversificado e que o jornalista precisará estar preparado para atuar em qualquer uma dessas áreas. Diferentemente de anos atrás, quando buscava fazer carreira. Para além disso, o jornalista atua cada vez mais em áreas de comunicação de empresas e de governos. Elaboramos o curso para atender a essa variedade de demandas.

J&Cia – Qual a principal pegada do curso?

João Gabriel – O coração de todo curso de Jornalismo são as técnicas e os princípios jornalísticos. Hoje, mais do que nunca, os princípios são decisivos. Embora uma relação ética e transparente com o leitor sempre tenha sido importante, hoje, por causa desse modelo de negócio, em que predomina a assinatura, isso é primordial. Então, o nosso é um curso de pós-graduação lato sensu, muito forte em princípios e técnicas de Jornalismo, mas que tem também um tronco digital – o aluno vai aprender a trabalhar muito com novas formas de apuração, base de dados, minerando dados em diversas plataformas; na edição, terá de saber contar histórias em diversas plataformas (texto, vídeo, podcast, storytelling e uma mistura de tudo isso); e entender cada vez mais o leitor por meio de métricas.

J&Cia – E em relação ao empreendedorismo?

João Gabriel – Esse é o outro lado forte do curso. Os profissionais vão precisar cada vez mais entender o negócio jornalístico, seja para montar sua própria empresa, seja para trabalhar numa startup. Fizemos uma pesquisa junto a startups e apuramos que os jornalistas que nelas trabalham já sabem quanto vale o conteúdo que produzem e o que fazer para comercializá-lo. E achamos que esse tipo de profissional também é cada vez mais valorizado inclusive na mídia delegada.

J&Cia – Seriam então três os pilares do novo curso?

João Gabriel – Não. Temos um quarto e último pilar, sobre fundamentos, inspirado em Columbia. Teremos nele matérias que não são sobre Jornalismo ou teoria da comunicação, mas que abordam conhecimentos importantes para o jornalista e que inexistem na graduação, casos de ciência política, economia, história e políticas públicas. Vamos, é claro, aproveitar o diferencial do Insper nessas áreas, com professores como o economista Marcos Lisboa e o Ricardo Paes de Barros, um dos criadores do bolsa-família, que darão aulas no curso.

J&Cia – Quando ele começa?

João Gabriel – Em 20 de julho. Terá duração de um ano, em período integral, e vai se passar dentro de uma redação, com todos os conhecimentos que citei sendo aplicados no dia a dia do trabalho jornalístico. Será direcionado a recém-formados em Jornalismo ou em início de carreira, e também a formados em outras áreas que pretendam exercer o Jornalismo.

J&Cia – Vocês não pensam em ter também cursos de especialização com duração menor?

João Gabriel – Sim, sobretudo para jornalistas que já estão no mercado, em meio de carreira… várias coisas vão sair. Já fizemos alguns deles no ano passado, como de Economia para Jornalistas, com Marcos Lisboa. Temos seis previstos para este ano. Tendo demanda, faremos.

J&Cia – Como será contemplada no curso a vertente da comunicação empresarial?

João Gabriel – Nosso objetivo é formar profissionais para o mercado, mas não apenas jornalístico, e sim de comunicação de forma geral. E falo isso porque nossos alunos estarão aparelhados para fazer planejamento estratégico de comunicação, comunicação empresarial e assessoria de imprensa. Quem aprende a criar conteúdo e a entender a audiência no nível de excelência que esse curso vai proporcionar também estará preparado para atuar nessas outras áreas.

J&Cia – Sabemos que a profissão vem encolhendo e que as agências de comunicação cada vez mais contratam profissionais de outras áreas que não o Jornalismo. Vocês fizeram alguma pesquisa para definir o público-alvo?

João Gabriel – Fizemos um levantamento de outros cursos de pós-graduação e nenhum tem essas características. Mas a decisão do Insper de criar o curso tem a ver um pouco com essa questão do impacto. Temos clareza de que essa é uma profissão que vem encolhendo, embora isso não queira dizer que é definitivo. Visitei redações em seis países, tanto pelo Insper quanto pelo Estadão, e notei que começa uma virada. O Jornalismo diminui de tamanho porque seu grande financiador, a publicidade, migrou para outros meios. Desde 1850 o Jornalismo era um agregador de comunidades e angariava a publicidade de quem queria falar com elas. Hoje há milhares de outros agregadores. A nossa avaliação de negócio é que o Jornalismo enfrenta um período de crise porque perdeu publicidade e por não saber quais seriam suas novas fontes de receita. Agora a gente vê jornais recuperando receitas e audiência a partir do momento em que se fixaram no modelo mais voltado para o leitor e para assinaturas, principalmente digitais. Por isso, acreditamos numa recuperação.

J&Cia – Essa é a sinalização?

João Gabriel – Sim. Em alguns países os jornais já estão voltando a dar dinheiro. O novo modelo de negócios tende a crescer, o que não acontecia até três ou quatro anos atrás. Nós, e inclusive o pessoal do Google com que conversei há alguns dias, acreditamos que essa virada tem se dado em função do ingresso de profissionais com esse novo perfil nas redações. Profissionais que o pessoal do Google chama em tom de brincadeira de unicórnios. São jornalistas que têm técnicas e princípios rígidos, mas são capazes de ler métricas, apurar e editar em linguagem digital e a empreender, descobrindo novas maneiras de atingir o leitor e de fazer negócios. Nós queremos colaborar com essa virada colocando esses unicórnios no mercado.

J&Cia – Essa nova mídia que chega, sem a interferência da publicidade, teoricamente tem uma independência maior. É uma vantagem sobre as grandes empresas, principalmente familiares?

João Gabriel – No modelo jornalístico clássico, a publicidade é sempre separada do conteúdo editorial. A não ser em casos em que o vício se sobrepôs à virtude, vamos dizer assim, o próprio modelo da imprensa liberal – que é o modelo americano, anglo-saxão – não tem a interferência da publicidade no conteúdo editorial. O famoso Igreja-Estado. Se no modelo clássico não poderia haver essa interferência sob pena de perda de credibilidade, hoje então não se fala disso, porque o principal negócio da mídia em muitos lugares já não é a publicidade – embora no Brasil ainda seja, mesmo que em queda. Na Economist, por exemplo, 65% do faturamento vem das assinaturas digitais. Todos os veículos caminham para isso.

J&Cia – Quantos alunos estão esperando angariar?

João Gabriel – Na primeira turma, uns 20 mais ou menos. Depois vamos crescendo. Fizemos um planejamento para cinco anos. Temos inclusive doações para conceder algumas bolsas. Como acontece em outros cursos do Insper.

J&Cia – O que os levou a estruturar o curso em período integral?

João Gabriel – Visitamos diversas universidades americanas. Lá, com algumas exceções, elas seguem o modelo da Columbia. Ela tem dois tipos de curso: o integral, de um ano, e o de meio período, em dois anos. Mas as referências que tivemos é que o integral de um ano é muito superior em termos de aproveitamento do aluno. As medições que eles fazem mostram isso. Resolvemos, portanto, partir para esse formato e avaliar se será compatível com a realidade brasileira.

J&Cia – Qual o valor do curso?

João Gabriel – Recomendamos que os interessados confiram no nosso site, porque há várias modalidades de bolsas. Mas dado que temos como público-alvo alguém formado há pouco tempo, acreditamos que talvez essa pessoa resolva investir num curso que vai fazer diferença. Isso acontece nos Estados Unidos e trabalhamos com essa hipótese. É o que temos agora.

J&Cia – O corpo docente já está definido?

João Gabriel – Além de mim, temos já dois professores contratados: o Carlos Eduardo Lins da Silva, que atuou na Folha, no Valor e tem uma carreira acadêmica maravilhosa, que vai coordenar o eixo de técnicas e princípios; e o Pedro Burgos, uma referência em Jornalismo de dados e digital no Brasil, que tem mestrado na City University of New York (Cuny) e que vai coordenar a área digital. Vamos ter também um professor da Cuny, Jeremy Kaplan, dando aulas de empreendedorismo em Jornalismo num curso de curta duração antes do início do programa, mais para formar nossos professores. O cientista político Lucas Martins Novaes, que passou a maior parte da carreira em Berkeley e na Universidade de Toulouse, está voltando ao Brasil para ser uns dos coordenadores da área de Ciência Política do Insper e vai coordenar o pilar de fundamentos. Já falei do Marcos Lisboa e do Renato Paes de Barros. E estamos fazendo contato com outros do mesmo nível.

J&Cia – Vai haver algum tipo de financiamento?

João Gabriel – Como falei, vamos ter bolsas. Temos vários doadores. O Insper é uma instituição sem fins lucrativos e funciona mais ou menos como uma universidade americana. Formatamos nosso plano de negócios e temos contribuição de pessoas que querem ajudar a causa do Jornalismo como uma das políticas públicas. Já temos uma pequena dotação que nos vai permitir dar algumas bolsas para o curso. Mas não vamos deixar de fora um aluno muito bom porque ele não pode pagar. Como numa universidade americana. Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, estudaram nessa base em Standord, uma universidade muito cara. O Insper segue o mesmo princípio: não vamos deixar de fora o próximo Carl Berstein porque ele veio de uma família de agricultores pobres e não pode pagar.

J&Cia – Vocês vão também trabalhar os veículos, a exemplo do que faz o ISE, para que banquem o curso para alguns de seus profissionais?

João Gabriel – Temos conversado com os veículos nesse sentido, mas ainda não temos nenhuma parceria fechada. Estamos abertos a negociações.

J&Cia – Aquele projeto que o Roberto Civita estruturou na ESPM teve alguma influência na decisão de vocês?

João Gabriel – Não, mas essa é uma questão interessante. O projeto do Civita era maravilhoso, mas diferente desse. Cheguei a dar algumas aulas lá. O projeto dele era formar administradores para empresas jornalísticas. Mas ele precisava de financiamento para funcionar, o que a família decidiu não continuar fazendo. Roberto financiava com dinheiro próprio, como pessoa física. Um dos coordenadores do curso era o Eugenio Bucci, que por acaso é meu orientador na USP, além de meu amigo. Ele esteve aqui no Insper, colaborou informalmente conosco, deu-nos várias dicas, inclusive sobre o projeto da ESPM, que de alguma forma inspira o nosso eixo de empreendedorismo. Mas o nosso curso é mais amplo. Aquele era um curso para formar gestores de Jornalismo, o nosso é para formar um jornalista completo.

J&Cia – Vocês terão colaboradores avulsos, para temas específicos?

João Gabriel – Sim. Como eu disse, o curso tem quatro eixos. Na verdade, cinco, porque separamos apuração digital de edição digital. São o que chamamos de cinco objetivos de aprendizagem. No Insper tudo é muito estruturado, queremos que fique bem claro aonde pretendemos que o aluno chegue. Cada um desses objetivos tem um coordenador, mas ele não vai dar todas as aulas. Por exemplo, o Lucas, que é o coordenador do eixo de fundamentos, vai dar as aulas de Ciência Política, mas Economia vai ser o Marcos Lisboa. Da mesma forma, quem for coordenar edição digital, se for um profissional de vídeo, não vai dar necessariamente as aulas de podcast ou de visualização de dados, que deve ficar a cargo de algum diretor de arte de jornal, e assim por diante. A ideia é agregar muita gente.

J&Cia – Pensam também em atividades complementares, capazes de atrair outros jornalistas para o Insper?

João Gabriel – Uma faculdade de Jornalismo não é só um curso; ela tem de ser um lugar onde se discute o tempo todo. Por isso, e vendo a experiência de Columbia, iniciamos a estruturação de projetos de pesquisa, área que o Carlos Eduardo vai liderar. Paralelamente, queremos convidar jornalistas para falar de grandes matérias, furos de reportagem, no momento em que forem publicados. Queremos que venham falar também de novas técnicas, novos negócios. A ideia é discutir, trocar ideias e criar uma tradição, coisa em que Columbia é forte. O tempo todo há jornalistas lá conversando com outros jornalistas sobre coisas que dizem respeito à profissão. Isso é o que queremos fazer no Insper.

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