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segunda-feira, maio 27, 2024

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Memórias da Redação ? O diabo a cavalo

A história é de Bebeto ([email protected]), ex-Estadão, fruto de pesquisa que fez há tempos para o livro A imprensa rural no Brasil, de João Castanho Dias, também egresso do jornal.  O diabo a cavalo  Antes de se tornar nome de viveiro de plantas da Prefeitura de São Paulo, Manequinho Lopes, que preferia ser chamado pelo nome de batismo, Manoel Lopes de Oliveira, começou a publicar notinhas sobre agricultura no rodapé do Estadão, no que foi a distante origem do Suplemento Agrícola do jornal – por décadas, quase uma bíblia para os fazendeiros. Um dia, lá pelos lados de Botucatu, Manequinho, que estava na região para fazer uma pesquisa de campo sobre uma espécie de saúva, entomólogo do Instituto Agronômico que era, foi convidado para jantar numa fazenda. Prometeu ir depois de terminar o trabalho com as formigas. Anoiteceu – lembra Paulo Duarte, que contava a história –, uma violenta tempestade desabou e o fazendeiro, acreditando que Manequinho não viria, mandou servir o jantar. Eis senão quando, batem na porta e sob o alpendre, de terno branco impecável, completamente seco e elegante, segurando as rédeas do cavalo ensopado pelo verdadeiro dilúvio que caía, se apresenta Manequinho com suas longas barbas brancas, que chegavam à metade do peito. Embora impressionado, o fazendeiro não tinha intimidade para perguntar como Manequinho chegara sequinho debaixo daquele temporal e a dúvida perdurou até a noite seguinte. O visitante já havia se mandado na busca pelas suas formigas do gênero Atta, quando o capataz da fazenda se achegou para a tradicional conversa ao pé do fogo na cozinha. Enquanto se benzia, contou que, na véspera – tinha que ser sexta-feira –, vira o diabo a cavalo no meio da tempestade, em desabalada carreira, peladão como saíra do Inferno e gritando adoidado para que o animal corresse mais. O “diabo” era o respeitável redator do Estadão que, vendo a chuva chegar, não teve dúvidas: tirou e dobrou cuidadosamente toda a roupa, que ajeitou entre o baixeiro e o pelego de carneiro – impermeável, portanto – e seguiu nu em pelo para a fazenda, fustigando o cavalo pelo pasto encharcado. Só ao chegar à casa grande, já protegido da tempestade sob o beiral e longe da vista de todos, desarreou o animal, secou-se no pelego, vestiu o terno impecável e se apresentou para o jantar. Aos amigos mais íntimos, muito mais tarde Manequinho confirmou candidamente o fato. Disse que até entendia o susto do capataz, mas que a descrição que fizera estava correta, salvo um detalhe: não lembrava do cavalo disparado soltar chamas pelas ventas.

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