José Hamilton Ribeiro ganha centro de memória

José Hamilton Ribeiro, à direita, inaugura Centro de Memória que leva seu nome

Em janeiro, José Hamilton Ribeiro, considerado o repórter do século e ganhador de sete Prêmios Esso, ganhou em sua cidade natal, Santa Rosa do Viterbo, um Centro de Memória que leva seu nome.

O local servirá como um espaço de pesquisa e conservação de acervos referentes à história do município e de suas personalidades ilustres, como é o caso de Jose Hamilton, que cedeu mais de 150 itens de seu acervo pessoal para o Centro de Memória.

Para marcar a ocasião, o amigo Romeu Antunes, escreveu um texto que reproduzimos abaixo. A foto que o ilustra, com Zé Hamilton à direita, também é da autoria dele.

Zé de Santa Rosa

Que me lembre, meu primeiro contato com José Hamilton Ribeiro aconteceu no campão da Avenida Rio Branco. Na tarde ensolarada de domingo, enquanto esperava pelos dois times, a torcida achincalhava o bandeirinha negro que inspecionava as redes das balizas. A cada adjetivo berrado contra o rapaz, gargalhadas satisfeitas explodiam da plateia. Aviltar os árbitros é comum até hoje, mas os negros eram alvos preferenciais nos campos de futebol naquela segunda metade da década de 1950. Próximo ao Zé Hamilton, pude ouvir sua voz destoante:

– Poxa, pra que isso! Um bandeirinha tão simpático!

A frase generosa me soou estranha. Entretanto, foi lição inesquecível para o garoto com menos de 10 anos.

Eu já ouvira falar daquele jornalista que trabalhava ‘nas Folhas’. Me contaram que certo dia ele foi a um cinema da capital calçando ‘percatas’ – marrons, feitas de pano, com sola de sisal. Barrado na entrada, pela inadequada indumentária, tirou as percatas do pé, colocou sob o braço, passou – descalço – pelo atônito porteiro e foi se acomodar pra ver o filme.

Estive em seu casamento com Maria Cecília (com quem teve duas filhas, Ana Lúcia e Teté), num quintal da rua Condessa F. Matarazzo. No único ‘racha’ de futebol de salão que compartilhamos, em 1966, notei que ele atuou com as tais percatas, na quadra da JAS (Juventude Atlética Santa-rosense), construída, naquela década, graças ao terreno doado pela família dele.

Pesquisando a história do município, descobri que Zé Hamilton foi convidado a discursar em ato público – em frente à igreja matriz da Praça Guido Maestrello – que comemorava a criação da Comarca. Na noite que emendou 1952 e 1953, em fala arrebatada, ele arrancou os botões da própria camisa, vibrando com nossa independência de São Simão.

Encontrei-o, em algumas fotos, envergando o uniforme alvinegro do Santa Rosa FC, nos anos 40/50. E em outras, mais antigas, vestido de padre, no meio da meninada num casamento, com colegas na represa dos Matarazzo, nadando no poço do Mário Ribeiro, no Rio Pardo, enfim, curtindo plenamente o município.

Na entrevista sobre sua vida – gravada em vídeo por estudantes – contou que tinha 12 anos quando caiu um avião perto de sua casa, em terreno da Fazenda Amália. Embora com problemas no pé, o garoto saiu em desabalada carreira, pelo meio do mato, pra ver o desastre de perto. Voltou na mesma velocidade, e narrou tudo à família. Nesse episódio, avaliou, ficou clara sua vocação para jornalista.

Sua vida de estudante começou no ‘Teófilo’. Ele me contou que saiu da aula, certo dia, e caminhou no rumo do burburinho que havia em frente à escola, na Av. Rio Branco. Percebeu que o dono do bar vizinho atirava balas à garotada, e ingressou na disputa. Só mais tarde descobriu a razão do gesto: atirar balas à garotada foi o modo que o comerciante encontrou de comemorar o fim da Segunda Guerra Mundial que acabara de ser anunciado pelo rádio…

Enquanto estudante em Santa Rosa, participou de uma peça de teatro – ‘Salomé’ –, encenada na Casa da Criança, que ficava na rua Condessa F. Matarazzo (hoje Banco do Brasil), e Zé Hamilton vivenciou Herodes. Mais tarde cursou jornalismo na Faculdade ‘Cásper Líbero’, mas foi expulso da escola, no último ano, por liderar uma greve de estudantes.

Em 1959, já familiarizado com a capital paulista, orientou Orvaldo Sério em visita de reivindicações que o então prefeito de Santa Rosa fez ao governador Carvalho Pinto, acompanhado por alguns vereadores. O principal pedido: rodovia de ligação com Santa Rita do Passa Quatro, que não vingou.

No primeiro dia de 1960, lá estava Zé Hamilton discursando na posse do novo prefeito, Vergínio Melloni. Falando em nome do eleito, disse “que esperava fosse levado a bom termo os quatro anos que tinha pela frente, pois, para tanto, além da boa vontade, contava com a colaboração da Egrégia Câmara, e esperava receber a colaboração também da Fazenda Amália e do Governo do Estado, na pessoa do ilustre chefe da Casa Civil, Dr. Portugal Gouvêa”.

Nessa mesma década, seu lado brincalhão aflorou na organização da primeira caçada de Tirisco ocorrida na cidade. Ele garante não ser o criador da patranha que consiste em chatear visitantes desavisados.

– Não fui eu o inventor, mas foi alguém aqui de Santa Rosa. Fiquei sabendo, depois, que veio um camarada aqui e disse que já tinha ouvido falar de coisa parecida, chamada ‘pio pardo’ – relatou em depoimento que me deu.

Ele não inventou, mas seu nome está lá na Wikipédia que assim define o evento: “No âmbito da cultura caipira do interior paulista, Tirisco é uma espécie de brincadeira feita com visitantes leigos que chegam às pequenas cidades, e que são convidados a caçar um pequeno animal que, todavia, não existe de fato. O jornalista brasileiro, José Hamilton Ribeiro, autor de diversas obras sobre a cultura caipira, descreve o fictício animal como um “bichinho do mato”, algo entre o coelho e a perdiz. Uma vez armada a brincadeira com o incauto visitante, o sujeito é orientado a segurar um saco nas mãos, batendo numa caixa para atrair o animal durante a noite. Quando menos esperava, o sujeito era deixado sozinho no meio do mato, enquanto todos iam ao bar, beber, dar risada e esperar que ele percebesse a travessura”.

Ele não inventou, mas submeteu Franco Paulino, colega de profissão, que trouxe da capital, à edição mais engraçada de todas as caçadas de Tirisco que houve em Santa Rosa. Ao perceber que batia lata à toa no meio da escuridão, Paulino marchou em direção ao clarão da cidade, seguindo os trilhos da Mogiana que, na época, ainda funcionavam. Com a vela na mão, topou com o Tinga, que não sabia da ‘caçada’ e, naquela hora da noite, vigiava os trilhos, alvos de arruaceiros. Vendo o sujeito de vela na mão, Tinga partiu pra cima dele, certo de que se tratava de um arruaceiro. Franco Paulino fintou aquele doido, voou para a cidade, e foi tirar satisfações com os membros do grupo capitaneado por Zé Hamilton, bebendo no bar e zombando dele!

Em novembro de 1967, Zé Hamilton escreveu, pra Realidade, uma reportagem sobre caçada em Goiás, na cabeceira do rio Arinos. “Só faltou a onça” foi o título da matéria cujos protagonistas eram quase todos de Santa Rosa: 16 caçadores, 18cachorros e mais de 30 armas. Teve naufrágio de canoa e perda de armas, mas onça nenhuma…

O repentista Chico Louco registrou o episódio em verso e música:

“Ai, foi no rio de Arinos/ ficou por recordação/ Santa Rosa de Viterbo, esses grande forgazão/ Ai, pra fazer sua caçada/ fizeram combinação (…) Ai, meu senhor, doutor Renato, Odeto e João Bonacin/ e no meio da jornada tá o Alípio e o Quim Quim”.

Em maio de 1968 o próprio repórter foi capa da Realidade, vítima da explosão de uma mina quando cobria a guerra do Vietnã. A Folha de S. Paulo noticiou que ele “perdeu a parte inferior da perna esquerda na explosão de uma mina vietcong, perto de Quang Tri, está passando bem, foi transferido para o hospital norte-americano em Qui Nhon, a fim de submeter-se a nova operação, e será transportado para os Estados Unidos para continuar seu tratamento”. De volta ao Brasil, teve recepção de herói em Santa Rosa.  O próprio Zé me contou que, ao chegar à cidade, ouviu de alguém na plateia: ‘O jornaleiro chegou!’ E, de novo, Chico Louco celebrou:

“Por ser grande jornalista/ foi na guerra no estrangeiro/ pra trazê a realidade/ presse país brasileiro/ encontrando com uma bomba/teve um golpe traiçoeiro/ hoje está aqui em Santa Rosa/ junto com seus companheiro”.

Zé Hamilton, que já colaborara com jornais aqui publicados na década 1950, participou também do projeto ‘Santa Rosa Jornal’ (título criado por ele) que apareceu em 1974 para durar apenas três edições. No primeiro número, em 04 de setembro daquele ano, ele externou o desconforto que a demolição da antiga Prefeitura lhe causou, em artigo com o qual procurou mostrar à população o papel da imprensa em uma comunidade: “O Fórum podia ser construído na rua do Vitorino Falaguasta. Ou na travessa dos Morgons. Na rua do Lazinho de Oliveira, na 7 de setembro: na rua da Pinga, na praça da Matriz. Isso sem falar nos descampados do lado da chácara do Delduque (…) Não. Construíram a  “Casa da Justiça” em cima da prefeitura. Para isso derrubaram, estraçalharam, fizeram desaparecer o mais impressionante edifício da cidade. Não sei quem era o prefeito da época (…) Mas faltou quem lhe dissesse com autoridade: ‘Doutor, aí não!’”.

Quando foi editor do “Jornal de Hoje”, de Campinas, Zé Hamilton intermediou a vinda à cidade do ‘Sentimento FC’, um time de futebol formada por jogadores do Guarani e da Ponte, para enfrentar o Santa Rosa FC no dia 7 de dezembro de 1980. O goleiro Carlos – que seria titular do Brasil na Copa do Mundo de 1986 – também veio, mas não jogou por causa de contusão. O zagueiro Juninho, também da Seleção, foi destaque na partida realizada no ‘Campão’. O time local bateu o Sentimento por 3 x 2 (de virada).

Quando a cidade realizou a Festa da Piracema, na mesma década, Zé Hamilton estava presente, palestrando, ensinando o que já sabia sobre preservação da Natureza. Em 1983 resolveu fazer um livro sobre a história de sua terra natal. Auxiliado por Margarida Ribeiro (sua tia Nenê) filmou e gravou entrevistas com velhos moradores (João Gaspar, Lezinho, Mário Juns, dona Caluta e a própria tia), preciosíssima base de dados para pesquisas posteriores. Mais tarde projetou um empreendimento que homenagearia a parenta, irmã de sua mãe: um prédio de apartamentos ao lado da Matriz de Santa Rosa, que se chamaria ‘Edifício Tia Nenê’. O falecimento dela, em 1985, tirou-lhe o ânimo para o livro, e o prédio nunca saiu do projeto.

Em 1988 a política atraiu de novo aquele que arrancara os botões da camisa quando comemorou a Comarca. Zé Hamilton mergulhou na campanha de Luiz Tertuliano Ribeiro, candidato a prefeito apoiado pelo titular da época, Nagib Moussa.

Acostumado a contar histórias dos outros, nas grandes reportagens que escreveu ou apresentou na TV, autor de 17 livros, ele acabou tendo a sua vida escarafunchada por Arnon Gomes.  “O jornalista mais premiado do Brasil” é o nome de um livro lançado em 2016 para contar sua saga.

No dia 21 de maio de 2017, Zé Hamilton me procurou para anunciar a intenção de que os troféus e homenagens que recebeu, por trabalhos produzidos em sua brilhante carreira, encontrassem repouso em um lugar de honra em Santa Rosa, guardados pela Prefeitura.

Os vencedores do prémio ‘Wladimir Herzog’, como ele, votaram para eleger os quatro que mereciam um troféu especial, o ‘crème de la crème’ “Wladimir Herzog”. Zé foi um dos escolhidos, ao lado de Clóvis Rossi, Zuenir Ventura e Ricardo Kotscho. Entre vários prêmios Esso, e um Brasileiro Imortal – que deu seu nome a uma planta – ganhou também o prêmio internacional mais antigo em jornalismo, o ‘Maria Moors Cabot’, em 2006. Foi recebê-lo nos EUA, na companhia de outros três homenageados: os americanos Ginger Thompson, Matt Moffet e o peruano Mário Vargas Llosa, este também Nobel de literatura.

– O Mário Vargas Llosa é um sujeito finíssimo. Quando fomos ensaiar para a solenidade, eu o chamei de Don Mário, com todo respeito, mas pouco conversamos. Dali voltamos pro mesmo hotel, em veículos diferentes, e, depois que chegamos, ele mandou me chamar para perguntar com que roupa eu iria receber o prêmio, no dia seguinte. Disse-lhe que iria com smoking alugado. E ele, ‘Ah, que bom, eu também vou de smoking’. Don Mário explicou, depois, que, se acaso eu não fosse ‘vestido a rigor’, ele também não iria, pra que meu traje não chamasse atenção por eventualmente ferir, sozinho, a solenidade do prêmio.

Assim que o prefeito Nando Gasperini me informou, com entusiasmo, que topava guardar os troféus, fui falar com Zé Hamilton. Ele, então, me contou sobre um filme que acabara de assistir, ‘Um cidadão ilustre’, com a história de um argentino que deixou sua cidadezinha e foi pra Europa pensando em nunca mais voltar. Ficou famoso, ganhou prêmio Nobel de literatura e recebia inúmeros convites para solenidades em vários pontos do mundo. Mas sempre recusava. Inclusive do pessoal de sua cidadezinha que queria entregar-lhe uma homenagem. O tempo passava, e o convite, sempre reiterado, era recusado. Até que um dia ele mudou de ideia, e decidiu aceitar, o que implicava revisitar sua terra. Ao chegar, percebeu prontamente que lá estavam, intactos, todos os ressentimentos que deixara ao sair. Um amigo de infância, o único da cidade que havia lido todos os seus livros, passou a identificar, nas histórias, críticas veladas aos moradores daquela cidade. Tal amigo envenenou tanto a relação dos moradores com o escritor que ele teve que fugir de lá.

Depois de narrar a história do filme, Zé Hamilton reflete cheio de nostalgia.

– Que Pena! Boa parte das pessoas com quem convivi, na minha infância em Santa Rosa, já foi embora, não? Tanta gente querida! Só espero que ainda haja um ou outro que possa falar bem de mim com relação àqueles bons tempos em nossa brava terrinha…

 

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