Instituição britânica produz vídeos fake para denunciar os deepfake

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Imagine Jair Bolsonaro pedindo votos para Lula no Twitter. Ou Lula indicando Bolsonaro como o melhor candidato para liderar o País. Impensável? Pois algo assim aconteceu no Reino Unido. Nessa terça-feira (12/11) dois vídeos causaram surpresa por aqui. Um deles estrelado pelo conservador Boris Johnson e outro pelo trabalhista Jeremy Corbyn, cada um declarando apoio ao outro nas eleições de 12 de dezembro.

Mas a perplexidade não é pela mudança de posição dos adversários. E sim porque os filmes são  falsos. Foram produzidos pela organização Future Advocacy com o objetivo de denunciar o risco dos vídeos deepfake, que empregam inteligência artificial para criar uma ficção assustadoramente crível, manipulando com perfeição a imagem e o discurso de uma pessoa (*).

No fim dos vídeos os dois “personagens” declaram-se “falsos” e revelam o truque. Uma ótima ideia para expor do que a Inteligência Artificial é capaz, e chamar a atenção para o perigo de se acreditar até no que se vê e ouve.

Vídeos assim tornaram-se populares em sites de pornografia, com o rosto de uma pessoa aplicado sobre o corpo de outra. E também vêm sendo utilizados para alimentar teorias conspiratórias. Até Mark Zuckerberg já foi vítima. A consultoria de segurança cibernética holandesa Deeptrace detectou que a quantidade de vídeos deepfake circulando na internet dobrou entre dezembro passado e outubro deste ano. Espanta ver como podem ser usados para influenciar o eleitor.

A campanha nas redes sociais – Essa é uma das preocupações em uma campanha eleitoral polarizada por causa do Brexit. E na qual o papel das plataformas tecnológicas deve ser decisivo, sobretudo diante do acelerado engajamento de eleitores jovens, mais dependentes das mídias sociais como fonte primária de informação, sendo assim expostos a conteúdos nem sempre confiáveis. Nas primeiras 48 horas após a confirmação das eleições de dezembro, a terça-parte dos mais de 300 mil novos eleitores registrados tinha menos de 25 anos, e 65% estavam abaixo dos 35.

Tal contexto eleva o risco de que as fake news, o discurso agressivo disseminado nas redes e até a interferência de outros países acabem por influenciar o eleitorado. Ataques online a candidatos, videos adulterados pela campanha adversária e contas falsas em redes sociais são revelados quase que diariamente desde que a campanha começou, sem mecanismos de controle eficazes.

A influência de outros países, principalmente a Rússia e os Estados Unidos, igualmente causa preocupação. Não é à toa, pois é um trauma o escândalo da empresa Cambridge Analytica envolvendo a manipulação do voto no referendo do Brexit em 2016, ainda que não existam evidências de que a situação esteja se repetindo. E o presidente americano Donald Trump já deu seus pitacos na política interna.

Paradoxalmente para os que reclamam de influência externa em eleições, quem acabou colocando mais lenha nessa fogueira doméstica foi a americana Hillary Clinton. Em visita ao Reino Unido para promover seu livro, criticou o governo britânico por não ter publicado ainda o relatório feito pela área de Inteligência do Parlamento examinando atividades russas no plebiscito e nas eleições gerais de 2017, concluído em outubro. O sigilo dá margem a versões diversas sobre o conteúdo do documento, não necessariamente verídicas.

Culpados os russos ou não, é fato que ações tecnológicas estão em curso. Na última segunda-feira (11/11), o Partido Trabalhista sofreu um ataque cibernético que prejudicou o acesso online e afetou a campanha. Um representante do partido sugeriu que poderia ter partido da Rússia – até aí nenhuma novidade – ou do Brasil. O episódio alimenta as teses conspiratórias e deixa os eleitores ainda mais confusos. Afinal, em que acreditar?

Manual do fact-check – Enquanto a guerra sem controle se desenrola nas redes sociais, as organizações de mídia têm a oportunidade de brilhar como porto seguro para quem quer separar o joio do trigo. Muitas têm feito esforços nesse sentido. A BBC escalou um comentarista especializado no mundo digital para analisar diariamente o que acontece nas redes, sempre alertando para o perigo de se acreditar no que chega por vias não confiáveis e para as possibilidades tecnológicas de manipulação das informações.

A organização Full Fact publicou um guia para orientar as redações durante a cobertura da campanha. O documento recomenda elementos de estilo, formato e produção que podem fazer a diferença na hora de esclarecer o público. The Guardian é um dos jornais que já lançou seu fact-check, escrutinando promessas feitas por candidatos e partidos.

Seja quem for o vencedor, as eleições no Reino Unido podem ser um importante laboratório para analisar os riscos da tecnologia e as ferramentas de controle em processos eleitorais, para o bem da democracia e da informação de qualidade.

(*) Vale a pena ver também a matéria da BBC mostrando como foram feitos.

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