Humano, um fator que interessa!

Por Ceila Santos

Ceila Santos

Quando desliguei o Zoom da conversa com a Pri senti-me alimentada, viva, feliz. Que força era aquela que estava entre nós? Era a primeira vez que eu a via e ouvia a história de Priscilla Ferreira Naglieri. Não sei se alguém a chama de Pri, mas adoto o diminutivo do nome para transmitir a sensação de intimidade diante da realidade não-íntima entre nós.

Poderia ignorar o fato de Pri ser a primeira líder com quem converso a partir da indicação de uma profissional de agência (que admiro) e ir direto à força que me ligou àquela mulher de 41 anos.

Afinal, omitir não é fake news. É objetividade, clareza e foco. Será?

Pular esse fato impactaria na falta de informação sobre a influência que uma indicação traz para a primeira impressão que temos de alguém com quem nunca interagimos antes. Começam aí as raízes do nosso modo de se relacionar: o que eu trago para esse encontro?

Esvaziar-se das influências e dos papéis que cada um de nós ocupa no mundo tem sido um pedido quando se escuta o mantra do desenvolvimento pessoal, mas é bom ficar atenta aos significados desse esvaziar-se… Há muita gente interpretando esse cuidado com a decisão de ignorar tais realidades. Como se influência, hierarquia, status e todas camadas históricas que a jornada profissional propicia a quem a trilha não tivessem valor diante da necessidade urgente de mudar a forma de nos relacionarmos dentro das organizações.

Esvaziar-se tem a ver com o fenômeno da respiração, de encher-se daquilo que recebe, dar a pausa necessária e, então, esvaziar-se para ouvir o novo, pois nada deve ser ignorado. Diferente de uma reportagem que, às vezes, precisa afunilar as informações, omitindo muitos detalhes, para encontrar a essência da mensagem e transmitir a clareza necessária.

Trago essa analogia entre o fazer do jornalista e o relacionar-se com outra pessoa para lembrar o quanto agimos socialmente de acordo com nossas habilidades técnicas. Isso é comum e precisa ser cuidado para quem deseja entrar na onda da colaboração.

O lado “fácil”

Outro cuidado necessário para quem já está de olho na Comunicação-Não Violenta como caminho para se relacionar de forma mais humana com sua equipe é compreender o quanto nosso corpo reage às pessoas que pensam de forma diferente da nossa ou que representam algo que desejamos muito ou que nos causa ojeriza somente pela presença física ou aparência. É “fácil” perceber quando cuidar da nossa fala e escuta quando estamos diante de outro ser que nos causa antipatia. Afinal, o corpo fala, o ímpeto aparece e os gatilhos são muitos porque nossa cultura alerta em nós o sentido do contra para a diferença. Difícil mesmo é lidar com as simpatias, que na nossa cultura é permitido − o bonitinho ou bom −, e é sobre elas que eu lidei quando encontrei com a Pri.

Sai alimentada, viva e feliz da nossa conversa porque identifiquei na Priscilla muitas qualidades importantes para a mensagem que a liderança colaborativa representa na minha perspectiva humanista. E, também, claro, porque ela acendeu muitas chamas do meu ativismo, como a questão da maternidade na causa de gênero. A história da Pri, e sua presença,falaram a língua do meu coração. E mais: ela tem um talento que não tive na minha jornada e, na minha idade, esse mérito causou-me admiração.

Pri aprendeu com a família a consciência econômica de se dispor a contribuir com o que for necessário para realizar a meta que a guia na vida. Uma meta que foi se transformando de acordo com os homens que a inspiraram, seja seu pai, que a motivou a contar estórias, seja Heródoto, que lhe ensinou o compromisso com a verdade em primeiro lugar sem deixar de cuidar das pessoas que estão em busca dessa verdade.

Ouvir a história da Pri significava cuidar da voz acelerada do meu coração que gritava: humano, humano e humano! Sempre, na frente e em primeiro lugar!

Pausa para a Simpatia

Foi então que pedi pausa. Não só pra esvaziar-me da simpatia que chegou no meu ápice porque ouvia as palavras que me movem − humano, consciência e qualidade −, como também pra compreender o desafio de praticar a empatia através da escrita deste artigo.

Na visão antroposófica, reconhecemos que a ponderação entre o que te move e a realidade passa pela percepção de simpatia e antipatia, que lhe convida a imaginar a polaridade de quem não pensa como eu nem como a Pri. Ou de quem até pensa, mas não age de acordo com o que pensa. Fazer esse exercício de se colocar no lugar de quem pensa diferente daquilo que me tocou na Pri é buscar o humano em mim e isso, talvez, leve a vida toda. Por isso, me interessa, pois acredito que o humano pode transformar a realidade através da consciência dos valores do passado e das exigências do futuro.

Box do Líder

Priscilla Naglieri

Priscilla Ferreira Naglieri

Mercado Livre

Líder: Afilitativa

Filosofia: Promover uma liderança consciente e afiliativa significa colocar o indivíduo e suas emoções no centro, como fator decisivo para criar conexões autênticas e inspirar toda a empresa a perseguir objetivos de negócios ancorados em um propósito maior comum.

Referência: Fred Kofman

Tempo da Jornada

Jornalismo: 5 anos

Destaque: Folha e TV Cultura

RP: 2 anos

Destaque: Máquina e In Press

Corporativo: 10 anos

Destaque: BMF&Bovespa, BTG, iZettle e Mercado Livre

Formação: Comunicação Social

Clara como a luz que a inspirava, Priscilla sabia aos 11 anos que seria uma contadora de estórias como Seu Vasco, o maior comunicador que ela conheceu na vida. Sua referência é forte, pois ela aprendeu a comunicar observando o jeito de Heródoto Barbeiro, na TV Cultura, que lhe remetia muito respeito à verdade, apuração, checagem e escuta sem deixar as pessoas que o rodeavam fora desse cuidado.

Sente que sua qualidade afiliativa, reconhecida num teste de desenvolvimento humano dentro do Mercado Livre, vem dessas relações: a escola que a TV representou na sua trajetória jornalística e da família, pois Seu Vasco (em memória) é pai de Priscilla, ex-comerciante empreendedor e radioamador em Piraju, interior de São Paulo.

Escolheu a Cásper Líbero como faculdade de jornalismo, em primeiro lugar pelo local estratégico, já que tinha clareza de que iria trabalhar desde o primeiro dia de aula. Gêmea de outro irmão de uma família de sete, ela sabia que os recursos não dariam pra bancar todas as universidades. Tal objetividade foi crucial para sua escalada dentro da TV Cultura, mídia que ela jamais imaginava seria seu destino, já que o foco era o impresso, onde ela estagiou numa editora menor e também passou pela Folha S.Paulo.

A virada para o outro lado do balcão deu-se na Austrália, onde a oportunidade de conhecer as Relações Públicas por um viés diferente do senso comum que o jornalista daquela época tinha com a assessoria de imprensa concretizou-se por acaso, no encontro entre ela e o suíço cliente da lanchonete em que trabalhava. 

Voltou para o Brasil com a mesma objetividade que a acompanha desde sempre, enviou currículos para as agências e… bingo!: viveu a escola de assessorar grandes organizações na Máquina e na In Press, aprendeu muito e entende que o ofício das agências e da equipe, que gerencia hoje no maior e-commerce da América Latina, é muito semelhante em sua essência. Seu pulo para o corporativo segue os acasos também, mas sempre com a dança da parte dela, seja com estudos que realizou na FIA para ocupar sua função na BM&FBovespa (atual B3), seja com a boa vontade com que se dispõe para ouvir o que o mundo tem a lhe oferecer na fase da vida em que se encontra. Mãe de um casal, de 2 e 4 anos, Priscilla passou pela iZettle antes de assumir a liderança no Mercado Livre.

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