Corte criminal britânica garante inviolabilidade da imprensa

* Por Luciana Gurgel, especial de Londres para o Portal dos Jornalistas

Luciana Gurgel

Uma decisão da corte criminal britânica anunciada na semana passada deixou bem delimitado o raio de atuação da imprensa. A Scotland Yard teve negado o pedido de acesso a anotações dos jornalistas e a imagens brutas que não foram ao ar relativas a um rumoroso caso envolvendo uma jovem que se uniu ao grupo terrorista Estado Islâmico.

Shamima Begum é uma das três adolescentes que deixaram o Reino Unido ilegalmente há quatro anos para se casarem com terroristas, caso que ficou conhecido como “as noivas do Estado Islâmico”. Em fevereiro deste ano o repórter Anthony Loyd, renomado correspondente de guerra do The Times, localizou-a em um campo de refugiados, prestes a dar à luz o terceiro filho, e publicou uma bombástica entrevista exclusiva, na qual ela pedia para ser autorizada a voltar ao país.

A matéria disparou uma crise política e um amplo debate sobre se ela deveria ser autorizada a retornar, e também sobre seus direitos de cidadania e do filho – que acabou morrendo dias depois. A história passou a ser investigada pela área de contraterrorismo da Scotland Yard, em busca de pistas sobre as ligações de britânicos com o grupo terrorista.

Como parte da investigação, a polícia solicitou aos veículos que entrevistaram Shamima – The Times e também BBC, ITV e SkyNews – o material não publicado ou veiculado. Todos negaram, o que levou ao processo judicial impetrado em julho, com base na Lei de Terrorismo, sob a justificativa de tratar-se de assunto de segurança nacional e interesse público.

Mas não deu certo. Na sentença favorável à imprensa, o juiz declarou que “é esperado que jornalistas sejam observadores neutros, e é essa neutralidade que  garante a sua proteção”. Ele foi além, observando que o trabalho dos jornalistas investigativos depende fundamentalmente da confiança, do sigilo, da proteção do material apurado e das fontes, da percepção de neutralidade e da cooperação das pessoas que confiam no repórter”.

A Corte determinou que o material fique sob a guarda de um escritório de advogados, para o caso de haver algum desdobramento – como a volta de Shamima ao Reino Unido – que leve a uma revisão do caso. Mas considerou que no momento não há razão para que os jornalistas entreguem notas ou imagens à Scotland Yard.

É um caso que pode tornar-se referência para ações semelhantes no futuro. Foi saudado como uma vitória da imprensa, e certamente deixa os jornalistas investigativos mais confortáveis para fazerem o seu trabalho.

Anthony Loyd e Shamima Begum (Foto: Ben Gurr/The Times/Press Association Images)

Contar histórias – Mas a cobertura do caso de Shamima Begun tem outro lado que merece reflexão: a dificuldade de contar tais histórias de forma sensível, sem causar ainda mais mal a pessoas ou famílias envolvidas em dramas humanos como o da jovem. Um livro sobre isso acaba de ser lançado no Reino Unido. Chama-se Trauma Reporting, escrito pela jornalista Jo Healey, da BBC.

É quase um “manual”, orientando repórteres sobre como abordar entrevistados em situações de vulnerabilidade como luto ou trauma. Há recomendações de jornalistas, documentaristas, professores e de pessoas que deram entrevistas à imprensa a respeito de situações dramáticas vividas por elas próprias ou por familiares.

Uma leitura importante para quem trabalha em redações no Brasil e vive cotidianamente o desafio de contar histórias sobre as tantas formas de violência que assolam o País. Para quem estiver interessado, aqui vai o link.

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