Coração de periquito

Por Plínio Vicente da Silva (pvsilva42@gmail.com)

Hoje, voltando no tempo e buscando na memória fragmentos dos meus primeiros anos de vida na fazenda Mombuca, região de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, convenço-me de que, antes de ser vítima da poliomielite, que me tomou os movimentos das pernas, eu já havia adquirido a “síndrome do capotão”. No raiar da infância, diziam os meus, eu só dormia a sono solto se abraçado a uma velha bola de couro, daquelas da pré-história do futebol, que tinha uma câmara dentro do capotão fechado por uma amarra de tentos. E quando meus irmãos seguiam com ela para o terreiro em frente a nossa casa, lá ia eu, ainda andando e mais tarde me arrastando, exigindo, em lágrimas, participar do jogo.

O tempo passou, eu passei com ele, e jamais o futebol saiu da minha vida. Ano após ano, mesmo com todas as dificuldades, não deixava a beira de um campinho ou a arquibancada dos estádios. Sempre com o olhar pregado nela, que deixou de ser de capotão para virar esfera tecnológica, mas que não eliminou do meu inconsciente o que batizei de síndrome. E que com o tempo virou mesmo uma relação atávica com o esporte que jamais pude praticar.

No começo foi o campinho que ficava em frente à estação de trens de Guatapará, a vila da minha infância, que mais tarde virou a praça de uma cidade; depois vieram, não muito longe dali, os estádios do Mogiana, onde jogava o Comercial, até construir o Palma Travassos; o da Vila Tibério, do Botafogo, em Ribeirão Preto, antes do Santa Cruz; e o Adhemar de Barros, na Fonte Luminosa, da Ferroviária de Araraquara, todos na minha adolescência. Depois, tantos outros fui conhecendo por onde passei, no Brasil e no exterior, cenários em que colecionei incontáveis e memoráveis momentos que formam um inesquecível rosário de lembranças inesquecíveis.

Time do coração? Como toda criança, facilmente influenciável, doutrinado por meus irmãos, foi o São Paulo, ainda o do Canindé. Todavia, fui aficionado tricolor até por volta dos oito anos, quando um episódio marcante me fez “virar a casaca”. Lembro, de passagem, que um ano depois o Brasil ainda chorava a tragédia do Maracanazo. Mas veio a Copa Rio, que a imprensa brasileira, na época, apelidou de “Torneio Mundial de Campeões” ou “Campeonato Mundial de Clubes”, e que deu ao Palmeiras a honra de, no mesmo Maracanã da hecatombe de 16 de julho de 1950, conquistar, em 22 de julho de 1951, o título de primeiro campeão mundial interclubes.

A colônia italiana de São Paulo ainda estava em êxtase com essa conquista quando, em setembro daquele ano, numa quinta-feira, pouco antes do meio-dia, os campeões irromperam na ala do 3º andar em que eu estava internado na Santa Casa de Misericórdia, no Arouche. O time inteiro. Diferente do marketing de hoje, frio e individualista, naquele tempo a visita a hospitais era quase que uma obrigação. Principalmente, como me contaram, para pagar a promessa feita e pela graça alcançada: o título de campeões. Nós, meninos de todo o Brasil, muitos como eu recém-saídos de mais uma cirurgia, fomos privilegiados. Creio que eu mais que todos.

Naquele dia, os jogadores palestrinos não só foram à Santa Casa, mas levaram quilos e quilos de macarronada, que foram entregando a cada paciente já desesperado com a demora do almoço. Tudo acompanhado pelo olhar nervoso de irmã Maria José, que, por causa de deficiência física numa das pernas, fora paciente e interna e depois entrou para a congregação do Sagrado Coração de Jesus, cujas freiras trabalhavam no hospital. Enérgica, às vezes dura, não admitia indisciplina e a algazarra que vivemos ali foi para ela uma viagem ao inferno.

Entretanto, eu estava no céu. De repente veio até mim um jovem forte, cabelos lisos, bigodinho, simpático e sorridente. Entregou-me o prato e perguntou: “Qual é seu nome?”. “Plínio”, disse encabulado, sotaque ainda impregnado do caipirismo que trouxera lá do interior. ”O meu é Oberdan”, respondeu. O mesmo Oberdan Cattani que fora reserva do Fábio Crippa nos homéricos confrontos com a Juventus da Itália, com vitória alviverde de 1 a 0 no primeiro jogo e empate de 2 a 2 no confronto final.

Depois de dividir comigo as garfadas do macarrão com porpetas, que de tão deliciosas são ainda hoje um dos meus pratos preferidos, ele se foi como chegou: sorridente, despedindo-se com um abraço que pareço ainda sentir 70 anos depois e com dois beijos nas minhas faces, gesto característico da fraternidade própria do povo da Bota.

Enfim, quando voltei a Guatapará para um período de convalescença entre uma cirurgia e outra – foram sete até que os médicos conseguissem pôr-me de pé outra vez –, deixei bem claro a todos lá em casa que desde meu encontro com Oberdan e seus companheiros meu coração ganhara um novo dono: era agora o de um periquito.

O tempo se foi, os anos voaram, deixei Guatapará, fui para Jundiaí, onde “sentei praça” no Jayme Cintra, do Paulista, do qual cheguei a ser técnico do júnior e auxiliar do lendário Benoni Pires na conquista do Campeonato Paulista de Futebol Amador de 1965. Uma tarde memorável aquela no campo do Juventus, na rua Javari, com vitória por 2 a 0 sobre o Matarazzo, que tinha como capitão Bibe, outra lenda do futebol, de belíssima carreira como meia do São Paulo e da Ponte Preta. 

Trabalhando como escriturário da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, um dia, em 1969, recebi um inesperado convite de Ademir Fernandes e Sandro Vaia, meus mestres, comecei ali minha carreira no jornalismo e em 1979 cheguei à redação do Estadão.

Pelos meados do ano de 1980, eu já dividindo a Chefia de Reportagem com meu inesquecível amigo Moacyr Castro, conversava no “paralelo 17” – corredor que dividia as redações dos dois jornais da família Mesquita – com Mário Lucio Marinho, então um dos editores de Esportes do Jornal da Tarde. No meio da conversa ele me falou qualquer coisa sobre a Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp) e eu quis saber como fazer para me associar. Ele prometeu me trazer uma ficha de cadastro, e trouxe. Preenchi e no dia seguinte, na Rádio Globo, onde eu era chefe de Reportagem pela manhã, entreguei-a ao Edson Scatamachia, da equipe do Osmar Santos, diretor do programa Balancê e vice-presidente do Mário Marinho na Aceesp.

Com a credencial passei a ter mais facilidades para ir aos estádios da capital. Por morar no bairro do Limão, minhas idas passaram a ter como destino mais frequente o Parque Antártica. Lá, na entrada pelo trecho da ainda rua Turiaçu, hoje rua Palestra Itália, bastava pegar o elevador e subir para a cabine de imprensa.

Pois foi numa dessas idas, num jogo noturno do Palmeiras contra quem nem me lembro mais, que quase 30 anos depois o destino me pregou uma bela peça. Sentado ao lado de outros jornalistas, ouvi uma voz que ecoou lá do passado. Um senhor forte, cabelo liso, bigodinho, veio nos cumprimentar. Sim, era ele, Oberdan Cattani.

Quando lhe contei daquele nosso encontro lá na Santa Casa, comemorado com uma bela macarronada com porpetas, ele lembrou-se e percebi que lágrimas discretas escorreram dos seus olhos. Dos meus, uma enxurrada. Nos abraçamos, ele me beijou nas faces e se foi, desaparecendo no corredor. Recuperei o fôlego e ali, no velho e saudoso Palestra Itália, no Parque Antártica, descobri que ainda havia muita emoção para guardar no meu coração de periquito.

Plínio Vicente da Silva

Plínio Vicente da Silva (pvsilva42@gmail.com), editor de Opinião, Economia e Mundo do diário Roraima em Tempo, em Boa Vista, para onde se mudou em 1984, assíduo colaborador deste espaço, brinda-nos com mais uma bela história de futebol.

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