A morte de Fonseca de Noronha

Por Eduardo Brito

No longínquo 1965, houve um rumoroso caso de conflito de terras envolvendo indígenas. Alguns jornais paulistas noticiaram os incidentes, hoje perdidos no tempo. O Estado de S.Paulo, porém, só mais tarde entrou no caso. Enviado especial passou alguns dias na região e o jornal publicou uma página sobre o caso. Na abertura, deu um recado. Informou que, ao contrário de outros, que adotavam posturas irresponsáveis, o Estadão só noticiava após apuração acurada e minuciosa, in loco, o que proporcionava melhor informação aos leitores. Compromisso com a seriedade da notícia e com a qualidade da informação.

Passaram-se algumas semanas e o jornal voltava a debruçar-se sobre questões de terras longínquas. Era o dia 4 de julho de 1965 e, na página 28, noticiou: “Há dez anos falecia Fonseca de Noronha”. Grande médico e sertanista, nascido em Piúva, Minas Gerais, Fonseca de Noronha merecera referências elogiosas do marechal desbravador Cândido Rondon, que o qualificava de “exemplo para a mocidade e para o País, de exemplo de uma vida dedicada toda ela ao Brasil”.

Os leitores puderam assim saber que Juvenal Fonseca de Noronha ingressara na Faculdade de Direito, mas, para desgosto de sua família, dois anos depois se inscrevera em Medicina. Ao se formar, em 1903, foi orador de sua turma. Sua brilhante oração, em que “exortou os colegas a permanecerem fieis aos ideais de Hipócrates e Sofócleto”, mereceu grande repercussão à época. Montou então, no Rio de Janeiro, uma clínica de Limnologia, tratamento de doenças renais. Entusiasmado, porém, com os feitos de Rondon, dissolveu o consultório em 1910 para dedicar-se “àquilo que o Brasil tem de mais valioso: sua população indígena”.

Seria o começo de uma brilhante carreira. Os leitores do Estadão foram informados de que Juvenal Fonseca de Noronha percorreu todo o Território do Acre ao lado de Plácido de Castro. Os indígenas, gratos por seu desprendimento, deram-lhe o cognome de Ibiboca, ou seja, justiceiro. A partir daí, multiplicou seus feitos. Foi o pacificador dos índios caingangues, antes o terror dos seringais amazonenses, e instalou o Posto Assistencial Brasil, pioneiro nessa área, na confluência dos rios Icamaquã e Turvo, também na Amazônia.

Sempre desbravador, descobriu às margens do Lago Piató uma tribo (hoje se diria nação) inteiramente desconhecida da civilização, os Carnijós. Salvou-os da extinção, ao debelar uma epidemia de eritroblastose. Em 1950, “já velho e cansado, retornou a Salvador”, onde faleceu. “Sua vida e obra, quase desconhecidos do público, tiveram um fim a 4 de julho de 1955, cercados do respeito e da admiração dos indianistas brasileiros”, concluía a pormenorizada matéria.

O texto só dava margem a uma dúvida. Como seria possível que tantos feitos tivessem passados despercebidos do conjunto da população, embora merecedores de tanto respeito dos indianistas e reconhecidos até do general Rondon? Os meticulosos checadores e editores não deveriam ter se preocupado com isso?

Parecia molecagem. E era.

A Piuva natal de Juvenal Fonseca de Noronha não fica no Norte de Minas Gerais. É uma praia de Ilhabela, São Paulo. O Sofócleto citado em sua brilhante oração tem pouco a ver com Medicina, pois se tratava de um humorista peruano bem vivo nessa época. Se a clínica do recém-formado se dedicasse à limnologia faria pesquisas biológicas de água doce.

Pior seria com os índios. Plácido de Castro, infelizmente, morrera dois anos antes das incursões acreanas do grande Juvenal. Os caingangues moram bem longe da Amazônia, em Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, enquanto os carnijós, mais conhecidos como  Fulni-ô, vivem no Nordeste. Não estariam ameaçados pela eritrosblastose, pois essa doença não causa epidemias, decorrente que é das gestações atingidas pelo fator RH negativo. O Lago Piató existe mesmo. Só que não é exatamente um lago, mas uma lagoa, lá no Rio Grande do Norte.

Enfim, por maiores que tenham sido seus méritos, o poderoso Juvenal Fonseca de Noronha não mereceria ser chamado de Ibiboca. A palavra, em tupi-guarani, designa a prosaica cobra-coral.

Sim, era mesmo uma molecagem. Quem escreveu o artigo e o enviou por carta ao Estadão, já que naqueles tempos inexistiam e-mail e WhatsApp, foi um estudante da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Resolveu testar o Estadão após ler a advertência sobre seus metódicos cuidados ao checar a veracidade de informações. Malvado, escreveu mais tarde uma carta ao jornal admitindo a brincadeira. E, também metódico, explicou cada um dos absurdos que escrevera. Nunca soube se a carta foi recebida, pois publicada não foi. Hoje seria difícil saber quem a recebeu, como também seria difícil identificar o infeliz editor que levou a público a nobre vida de Juvenal Fonseca de Noronha.

O futuro engenheiro militou na política estudantil e chegou a representante dos estudantes no Conselho Universitário da USP. Não, não era um esquerdista com ódio à grande mídia, nem um porra-louca desejoso de acabar com o capitalismo e a civilização ocidental. Morador à época do Alto da Lapa, após formar-se em Engenharia Química ingressou em uma grande empresa, fez mestrado e doutorado. Até há pouco presidia um dos maiores grupos empresariais brasileiros, na área de petroquímica e energia. Hoje dirige um conhecido instituto de estudos econômicos. Tem 73 anos.

Eduardo Brito

A história desta semana é novamente uma colaboração de Eduardo Brito, ex-Estadão, Jornal do Brasil, Correio Braziliense e Jornal de Brasília.

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