A mídia e a dança dos modelos de negócios

Luciana Gurgel

* Por Luciana Gurgel, em Londres, especial para o Jornalistas&Cia

Ainda que muitos dos que passaram a ler jornais em formato digital sintam de vez em quando aquela saudade do momento de ir buscar o exemplar do dia na porta de casa, ou de caminhar até a banca da esquina, a realidade é que o impresso continua cedendo espaço para as telas. E isso não significa necessariamente falência da imprensa ou perda de empregos nas redações.

No Reino Unido, onde muita gente passa boa parte do dia no transporte público, a mudança de hábito de leitura é visível, e os números comprovam. O The Times acaba de anunciar a marca de 304 mil assinantes exclusivos da versão digital, dentro do total de 539 mil assinantes. Um crescimento de 19% sobre o ano passado.

Não estão contabilizados aí os usuários registrados que não pagam assinatura e têm direito a ler duas matérias por semana e a receber as newsletters que já dão uma boa ideia do conteúdo do jornal. A versão digital havia em 2018 superado a versão impressa em número de assinaturas.

O grupo que edita o The Times comemora o sucesso da estratégia de paywall, defendendo que o público entendeu o valor do bom jornalismo. Em um discurso recente na Sociedade dos Editores, John Witherow, editor do jornal, disse que as empresas jornalísticas precisam ser implacáveis na experimentação e inovar rapidamente para conquistar mais leitores e fazer com que paguem pelas notícias que leem, como forma de garantir a sobrevivência da imprensa.

Mas o paywall adotado pelo The Times não é a única fórmula para a sustentabilidade das empresas jornalísticas. O The Guardian, que também comemora números positivos e conseguiu sair do vermelho, optou pelo caminho oposto. Não tem paywall – todo o conteúdo é livre. Mas pede aos leitores que contribuam para que o jornal continue a oferecer jornalismo de qualidade.

A receita do período 2018-2019 foi de £ 224,5 milhões, contra £ 217 milhões no ano anterior. O digital respondeu por mais da metade (£ 125 milhões).  E 80% do faturamento publicitário vieram do digital. O The Guardian espera bater a marca de dois milhões de leitores pagantes até 2022.

Os dois exemplos mostram que não existe uma fórmula única. Cada empresa jornalística está encontrando a sua forma de sobreviver à mudança de comportamento do leitor, aos novos hábitos de leitura e às novas tecnologias.

Mas a despeito de boas estratégias comerciais e de fidelização do leitor, é inegável que as plataformas digitais causaram um impacto relevante na publicidade.

No Reino Unido, uma projeção da agência de propaganda Group M publicada em junho indicou que jornais e revistas devem ficar com menos de 10% das receitas publicitárias no país, enquanto Google e Facebook devem conquistar 3/4 das verbas. Tendência confirmada pela Emarketer, cuja previsão é de que 63,3% do investimento em propaganda digital este ano serão destinados aos dois gigantes.

O órgão responsável por controle de concorrência abriu uma investigação sobre o mercado publicitário digital no mês passado, podendo vir daí alguma medida concreta sobre as plataformas digitais.

E depois de tanto apanhar, acusado de estar exterminando a imprensa tradicional, o Facebook parece estar se movimentando na direção contrária. O Wall Street Journal revelou na semana passada que a empresa estaria oferecendo “milhões de dólares” a empresas de mídia para publicar conteúdo em uma seção de noticias a ser lançada até o fim deste ano.  As organizações procuradas seriam Dow Jones, Bloomberg, Washington Post – que pertence ao fundador da Amazon, Jeff Bezos – e ABC News.

O valor seria de US$ 3 milhões por ano para as editoras. Elas teriam o direito de hospedar o conteúdo diretamente no Facebook ou compartilhar resumos que levariam os leitores aos seus próprios sites, segundo o Wall Street Journal.

Quem sabe será este o caminho do meio para assegurar a sobrevivência de títulos tradicionais em um ambiente novo. O tempo dirá.

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