Walesa, o cardeal e uma visita às raízes de Eliezer Strauch

Eliezer Strauch e sua mulher, Lia Strauch

Por Alessandra Ber

Com a ascensão de Lech Walesa e o movimento operário na Polônia, Eliezer fez as malas e seguiu para Varsóvia. Só que dessa vez o passaporte brasileiro não o ajudou em muito. A Polônia não estava concedendo vistos a jornalistas. A greve em Gdansk era manchete dos jornais, pois era mais um movimento que tinha coragem de enfrentar o regime comunista.

Eliezer, de Paris foi para Bruxelas, onde o cônsul israelense era amigo e, com a dica recebida, apresentou-se à Embaixada da Polônia em Bruxelas como homem de negócios. Tiro e queda, o visto foi concedido. Chegando a Varsóvia qual não foi a surpresa de encontrar dezenas de jornalistas, todos na mesma posição de homens de negócios.

Começava o inverno rigoroso e Eliezer foi comprar um chapéu para se proteger do frio, seguindo direto para uma reunião do Partido dos Trabalhadores. Na porta estavam amontoados casacões, sobretudos, chapéus. Eliezer indaga a um velhinho se podia deixar as coisas naquele amontoado. A resposta do polonês foi clara: “Aqui não se rouba − a não ser que passe um judeu”.

Varsóvia nos anos 1980 ainda era a Varsóvia sob o regime comunista. Filas para comprar pão, filas para carne etc. Mas sendo predominantemente católica, enfeitada para o Natal que se aproximava.

Eliezer resolveu que não se identificaria como judeu, por enquanto. Conseguiu uma entrevista com o Cardeal da Polônia, que depois se tornaria o Papa João Paulo II. O futuro papa era um homem fascinante. Escrevia poemas, peças teatrais e contou de sua prisão durante dois anos pelos nazistas. Entre um cálice de vinho e outro, Eliezer confessa ao cardeal que não era homem de negócios e sim jornalista e seu objetivo era conseguir uma entrevista com Lech Walesa.

Munido de uma carta dirigida ao líder operário, Eliezer viaja para Gdansk, cidade portuária em greve, enfeitada para o Natal. Cânticos nas igrejas, mulheres entrando e saindo das missas, visitas aos cemitérios para homenagem aos mortos.

O encontro com Walesa se dá no estaleiro e Eliezer fica boquiaberto com a sabedoria de um operário que tem a coragem de enfrentar o poder soviético e que nada o tirará de suas metas. Walesa diz conhecer a Histadrut (Confederação dos Trabalhadores de Israel) e, bem-humorado, confessa que se receber um convite para visitar Israel aceitará imediatamente.

Véspera de Natal, com a entrevista enviada aos dois jornais − O Globo e Yedioth Aharonoth −, Eliezer começa a matutar o que fará nos dias de Natal. O desejo era ir à cidade de seu pai, Ustilke Done. Já não havia necessidade de disfarces. Nos escritórios de relações com a imprensa mostra o seu interesse de viajar até a cidade e pergunta como chegar até lá. A funcionária muito prestativa lhe diz: “Colocaremos à sua disposição um carro e um guia que fala português”. Eliezer, pasmado, pensa duas vezes: será verdade ou será um artificio do Partido para me levar para a Sibéria?

Era verdade. No dia seguinte pela manhã, no hall do hotel, lá estavam um motorista e uma guia. Após a apresentação, feita em um português correto, a guia Tatiana explica que estudou Português na universidade e o seu doutorado era sobre as obras de Camões. Durante a viagem ainda contou que vinha de uma família de nobres poloneses destronados durante a II Guerra e a ocupação soviética.

A longa viagem, por uma estrada em que não havia muito movimento, ficaram os dois a discutir Camões. Os sinais eram todos em polonês, mas a certa hora Tatiana disse: estamos nos aproximando. Eliezer, que não era de demonstrar sentimentos, liga o gravador e começa a gravar.

“Estamos entrando em Ulstike − eis o ring tão falado. O ring era a estação ferroviária. E tal e qual meu pai o descreveu. Foi aqui que meu pai despediu-se pela última vez de sua mãe, para nunca mais voltar.”

A cidade, que havia sido de maioria judia, agora era uma cidade de veraneio, por sua localização nas montanhas, e uma nova população circulava pelas ruas. Não mais os judeus religiosos com seus chapéus pretos e passos apressados em direção à sinagoga. Não mais as crianças e os jovens a caminho da escola ou do “cheder”, onde aprendiam as primeiras lições do Talmud. Não mais o cheiro de doces, pepinos azedos, arenques, que eram vendidos em barris de madeira. Várias vezes teve que interromper a gravação pois ficava com a voz embargada. Os correios − lembrou da última carta que escreveu a sua avó e que voltou com o carimbo de endereço desconhecido.

Tatiana e Eliezer vão a prefeitura ver se há algum indicio de seus antepassados. O funcionário consegue descobrir que a família Strauch está registrada nos livros até o ano de 1942. Depois não há mais traços. Os avós eram donos de uma hospedaria, lugar onde os judeus em trânsito paravam para uma refeição ou um pernoite. Saem da prefeitura com um mapa na mão e chegam a um pedaço de casa velha de madeira. A porta é aberta por um velho e Eliezer pensa ele deve saber qual foi o fim de sua avó e tia. O velho assustado começa a falar rapidamente em polonês. Tatiana pede calma, diz que o visitante não veio tomar posse da casa e sim pedir informações. Mais calmo, ele começa a contar que a sua casa é parte do que ficou da hospedaria. E o que foi feito dos judeus?

Tatiana traduz: em 1942, a cidade foi invadida pelos ucranianos junto das tropas nazistas. Os judeus que ainda restaram na cidade foram levados para a igreja local e os ucranianos colocaram fogo. Morreram queimados, velhos, jovens, crianças e depois levados para uma cova comum e cobertos com uma boa camada de cal.

Eliezer segura a voz e pergunta: onde fica o cemitério judeu? O velho explica: para lá daquela floresta. Eliezer continua gravando − não posso sair daqui sem ir ao cemitério e dizer o Kadish, a oração dos enlutados.

Sobem por um atalho que mistura lama e neve. Eliezer encontra algumas lápides caídas onde as letras hebraicas quase desapareceram com o tempo.

Em pé e não conseguindo mais conter as lágrimas começa a dizer: “Shma Israel Adonai Eloeynu Adonai Ehad” (Escute, Israel, Deus e nosso pai − Deus é um…)

O que havia começado com a greve dos estivadores e os passos para a independência da Polônia também foi para Eliezer a resposta a muitas perguntas e a sensação de que agora seus antepassados descansavam em paz.


Alessandra Ber

A história desta semana é de uma estreante no espaço, Alessandra Ber. Com mais de 20 anos de experiência em comunicação corporativa, em passagens por Santander, McDonald’s e Via Varejo, assumiu em agosto a Gerência Executiva de Relações com a Imprensa da TIM.

Ela conta que, no início de setembro, viu republicada pela mãe no Facebook a história originalmente escrita pela tia Lia Strauch, esposa de Eliezer Strauch, que trabalhou em O Globo (aqui, em Paris e em Jerusalém), foi correspondente do israelense Yedioth Aharonoth em Paris e editor-chefe da edição brasileira da revista Shalom. É autor do livro Serviço Secreto de Israel (Summus, 1976).


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