Saída de Tony Hall pode aliviar apenas um lado da crise na BBC

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

A surpreendente demissão voluntária de Tony Hall do cargo de diretor-geral da BBC, anunciada nessa segunda-feira (20/1) em meio ao que vem sendo considerada a mais grave tormenta da história da emissora, pode até fazer lembrar a regra náutica que prevê que um bom capitão é o último a deixar o barco.

A leitura desse movimento, no entanto, é de que Lord Hall of Birkenhead – ele detém o pomposo título honorífico – resolveu sair como uma tentativa de amortecer a tensão entre a BBC e o Governo. E assim facilitar o embate iminente com a administração de Boris Johnson para manter a taxa obrigatória de £ 154 por residência que permite acesso aos canais – fora custos de sinal de cabo ou satélite

Hall deixa um salário anual de £ 450 mil (quase R$ 2,5 milhões) e vai assumir o comando da National Gallery. Deixa também boas encrencas para o sucessor, em um momento crucial para o futuro da rede.

A Beeb ou Auntie Beeb, como é chamada a BBC, nasceu em 1922, tem 22 mil funcionários e receita de £ 4,9 bilhões em 2018/19, sendo 75% provenientes da taxa e o restante principalmente da venda de conteúdo, formatos e licenciamentos. Fechou no vermelho, com déficit operacional de £ 69 milhões. O fim da taxa compulsória, paga hoje por 25,8 milhões de domicílios, pode ser um golpe mortal.

Há quem aponte perseguição política. A emissora foi acusada de parcialidade na campanha de 2019 pelos dois partidos majoritários. Para o lado vencedor, o estopim foi a pressão para Boris Johnson ser sabatinado pelo programa de Andrew Neil, disparando um mar de críticas nas redes sociais.

Durante a campanha Johnson já mostrava suas intenções, falando sobre os planos de  descriminalizar em breve a evasão da taxa, em torno de 7%, que hoje dá processo e multa de £ 1 mil. E depois acabar de vez com ela, levando a emissora a competir com outros players do mercado, como a Netflix.

Foi um bom lance político, que soou como música em especial para aqueles acima de 75 anos, alarmados com os planos anunciados pela emissora de passar a cobrar o valor dos idosos, hoje isentos. Isso já era previsto desde que a isenção foi concedida há vários anos. Só que não agrada a quem conta com o benefício.

Audiência em queda entre jovens – Mas os desafios da BBC não se limitam a manter a taxa. A pedreira maior é queda de audiência, principalmente entre jovens. Uma turma que consome conteúdo das plataformas como Netflix e Amazon Prime ou canais do YouTube em smartphones, tablets e computadores, muitos sem TV em casa. O volume amealhado com a taxa já caiu 4% em relação ao exercício anterior, sinalizando que nem todo mundo vê a BBC como obrigatória hoje em dia.

A emissora tenta se reinventar com projetos como os serviços de streaming BritBox e Sounds, e programas com linguagem leve, distante da seriedade que é sua marca. Anunciou até o Beeb, um assistente de voz para rivalizar com o Alexa da Amazon, capaz de entender sotaques regionais do inglês. Na bolsa de apostas para o sucessor de Hall emergiu o nome do atual diretor responsável pelo IPlayer, familiarizado com esse universo.

Equal Pay e altos salários – Ela sofre também com processos movidos por jornalistas que se acham discriminadas em relação a colegas homens, principalmente após a vitória de Samira Ahmed no tribunal, sobre a qual falamos aqui semana passada. Especula-se sobre a nomeação de uma diretora-geral, demonstrando respeito às mulheres.

Há ainda o imbroglio dos salários de celebridades como o ex-jogador de futebol Gary Lineker, que fatura £ 1,750 milhão. Famosos sempre ganharam mais do que anônimos na mídia e no show business, pela capacidade de atrair audiência e anunciantes. Como estatal que cobra até dos aposentados, no entanto, os valores astronômicos jogam mais lenha na fogueira.

É difícil encontrar emissora comparável à BBC, tanto para quem a assiste hoje quanto pelo seu papel na sociedade britânica, com transmissões históricas e programas que marcaram época. Ao ponto de emprestar o nome à pronúncia padrão do inglês no Reino Unido, chamada de “BBC English”.

Mas a fila anda. Outro interlocutor pode até melhorar o diálogo com o Governo e obter conquistas em relação à taxa. Os demais obstáculos, no entanto, vão demandar muito mais do que acordo político para serem transpostos.

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